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Leitura
Bíblica em Classe
Josué
1.1-3, 5,7-9
Introdução:
I.
A ordem divina para a conquista da terra
II.
A preparação do povo para atravessar o Jordão
III.
Os espias são enviados a Jericó
Conclusão:
Autor deste comentário: Esdras Costa Bentho. Autor das obras Hermenêutica Fácil e
Descomplicada e a Família no Antigo
Testamento: história e
sociologia, ambos da CPAD.
Título deste subsídio: Deus
encoraja o líder
Deus
encoraja o líder:
O
capítulo 1 está dividido em dois parágrafos principais
(vv.1-11; 12-18). Os versículos 10 e 11, que formam um novo
parágrafo na ARC, são apenas um intermezzo que introduz o
parágrafo segundo. A primeira seção trata da vocação de
Josué (vv.1-11), enquanto a segunda, dos preparativos para
atravessar o Jordão (vv.12-18).
O
texto hebraico principia com um advérbio de tempo 'achar,
isto é, "posteriormente", "depois". A
narração situa a morte de Moisés (Dt 34) à vocação de
Josué (Js 1): "depois da morte de Moisés [...] que o
Senhor falou a Josué". Esta descrição põe em relevo
os dois líderes e protagonistas da história judaica pré-Canaã:
Moisés, líder do povo e personagem principal dos livros de
Êxodo a Deuteronômio; e, Josué, primeiro líder do povo
judaico após a morte do eminente Moisés.
Embora
Moisés seja considerado pela tradição judaico-cristã,
profeta e líder de Israel, é chamado por Deus tão somente
de 'ebed, "escravo" ou "servo": "Moisés,
meu 'ebed, é morto" (v.2). Todavia, esse era o título
daqueles que alcançaram diante de Deus aprovação pela sua
obediência e fidelidade irrestrita ao Senhor. Para a congregação
de Israel, o 'ebed Yahweh era o representante teocrático
entre eles. Suas palavras são as palavras de Yahweh; Seu
governo é o governo de Yahweh.
O
preâmbulo evidencia duas particularidades de Josué:
a)
Josué servo ou discípulo de Moisés (v.1). Antes servira a
Moisés com fidelidade (Êx 24.13; 33.11), agora é o momento
de ser elevado à categoria de 'ebed Yahweh. Josué não será
mais conhecido como mešārēt Mōsheh, isto é, o
“servidor de Moisés”, mas 'ebed Yahweh. Há uma estreita
relação entre os termos 'ebed e mešārēt, mas
nestes versículos são usados para distinguir o
relacionamento de Josué com Moisés e de Moisés com o Senhor
Deus. O susbtantivo 'ebed sobrepõe-se ao termo mešārēt
não tanto pelo seu valor semântico, mas pelo sentido lírico
que o literato dá ao vocábulo. O relacionamento de Josué
para com Moisés não é semelhante ao relacionamento de Moisés
com Deus.
Somente
depois de tornar-se 'ebed Yahweh é que Josué estaria apto
para atravessar o rio Jordão com todo o povo de Israel.
Primeiro a comissão, depois a missão. Infelizmente, alguns
querem executar a missão sem primeiro serem comissionado por
Deus.
b)
Josué é o novo profeta de Israel – o Senhor fala a Josué,
assim como falava com Moisés. Na condição de "servo de
Deus", no lugar de Moisés, Josué também assume a
responsabilidade de ouvir a vontade de Deus e transmiti-la ao
povo de Israel, na qualidade de servo e na condição de
profeta de Deus. Assim, Josué à semelhança de Moisés,
recebe do Senhor graça e misericórdia para estar diante do
Eterno. Esta nova posição não era apenas natural diante de
todo o povo, mas também espiritual, diante do próprio Deus.
Se esta é a condição do ‘ebed, imagine a grandeza
daqueles que em vez de servos, escravos, são chamados de
amigos íntimos (Jo 15.15). Josué foi alçado ao nível da
intimidade.
Nesta
vocação Deus anima a Josué para a árdua tarefa de conduzir
o povo à conquista de Canaã, “dispõe-te”, do hebraico qûm,
literalmente quer dizer “ergue-te”, “fique em pé”.
Isto significa que Josué estava prostrado no momento em que o
Senhor falava com ele. O mesmo vocábulo é usado na forma
imperativa em 3.6 “levantai a arca”. Josué recebeu sua
vocação e missão no instante em que estava prostrado diante
do Senhor. Prostrado diante do Senhor é a melhor posição
para marchar e seguir em frente. É nesta simples, mas
significativa posição, que o Senhor faz promessas ao seu
‘ebed: “Todo lugar que pisar a plante do vosso pé, vo-lo
tenho dado”(v;4). Expliquei com minúcias o hebraísmo “pé”
em nossas duas obras, Hermenêutica e a Família no Antigo
Testamento. Aqui, o sentido do hebraísmo, como ocorre em
muitas outras passagens, é de posse, de vitória. Por esta
razão: “Ninguém te poderá resistir” (v.5). No original,
“resistir” é yātsab, ou seja, “posicionar-se
contra”; “ficar oposto a”, por extensão, “opor-se”,
“oprimir”. Em Números 22.22, o termo é usado para
descrever o Anjo do Senhor que se “pôs no caminho contra
Balaão”, ou como em 1 Samuel 17.16, a atitude soberba e
presunçosa de Golias que se colocava contra o exército de
Israel. Nenhum inimigo canaanita permaneceria diante de Josué
e seu exército.
Aos
ouvidos do grande líder, a promessa divina soava como uma
sinfonia beethoviana: “Não te deixarei”. Do hebraico rāpâ,
o verbo “deixar” é ipsis verbis “afundar”, “deixar
cair”, “desanimar”. Enquanto Josué se erguia, o Eterno
lhe falava: “Não te deixarei afundar, desanimar, cair”. A
Septuaginta (LXX) traduziu a expressão por “Eu não te
deixarei em apuros”. “Nem te desampararei”, do hebraico
‘āzab, “desamparar” é “abandonar”, “deixar
desolado”. O verbo hebraico no grau ativo atesta a segurança
com a qual o Senhor falava e Josué ouvia. Deus jamais o
abandonaria; Josué jamais estaria desolado. Apesar da
incompreensão do povo, o Senhor estaria com ele em todas as
horas e momentos. Mas a promessa de Deus ao líder também
exige força, determinação e vontade: “Sê forte” (v.6).
No hebraico, chāzāq além do sentido de “forte”
quer dizer “esforçar-se”, como em 23.6, mas também
“endurecido”, “severo”. Provavelmente a referência é
a “ser forte em combate”, “demonstrar coragem”,
enquanto o coração de outros se derretem, portanto, “Sê
forte e inflexível”. “Sê...corajoso”, oriunda da raiz
‘āmēts, quer dizer “ser valente”, “ser
duro”, “ser alerta”. A LXX traduz por “Comporta-te
como homem”. O termo hebraico 'āmēts, ocorre 117
vezes em todo o Antigo Testamento, sendo repetido 4 vezes por
Deus no livro de Josué, referindo-se ao próprio protagonista
da história da conquista. Moisés emprega a palavra duas
vezes ao seu ajudante (Dt 31.7,23). O termo descreve o quanto
a tarefa de conduzir o povo à conquista iria exigir do caráter
e das aptidões de guerra do novo líder (v.6). Uma das formas
hebraicas deste verbo significa “mostrar força”,
“mostrar-se superior a”. Josué precisava, como servo do
Altíssimo, inspirar os seus soldados através de seu exemplo
de coragem, audácia, individualidade e vitória. A vitória
estava garantida, mas era necessário entrar nas chamas da
batalha!
"Assim
como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei,
nem te desampararei"; "Sê forte e mui
corajoso..." (v.7). Todavia, a perícope não salienta a
coragem para a guerra somente, mas "Sê forte e mui
corajoso para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que
meu servo Moisés de ordenou; dela não te desvies, nem para a
direita nem para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por
onde quer que andares" (v.7). Perceba, ser valoroso não
para a contenda, discórdia, guerra contra a "carne e
sangue", mas para cumprir os mandamentos divinos! Uma
liderança eficaz precisa estar disposta a cumprir os
mandamentos divinos. O compromisso do líder Josué,
primeiramente, é com Deus e com a Torah. Ele precisa cumprir,
como servo obediente, os mandamentos divinos: “para que
sejas bem-sucedido”. Vejamos se consigo descrever
adequadamente o sentido do termo hebraico śākal,
traduzido por “bem-sucedido”. Embora seja uma boa tradução
do termo hebraico, há um jogo semântico neste vocábulo. Ele
tanto pode significar “para que sejas sábio”, como também
“para que sejas próspero”, ou ainda “para que ajas
sabiamente”. Cabe ao tradutor escolher qual dessas traduções
relaciona-se melhor ao contexto literário. A ARC traduz por
“para que prudentemente te conduzas”, tradução seguida
com ligeira modificação pela Bíblia Hebraica. O sentido
mais estrito de śākal é “agir com a inteligência
e sabedoria”. Louis Goldberg, no Dicionário Internacional
de Teologia do Antigo Testamento (p.1478), afirma que este
“vocábulo designa o processo de pensar como uma disposição
complexa de pensamentos que resultam numa abordagem sábia e
bastante prática do bom senso. Outra conseqüência é a ênfase
no ser bem-sucedido”.
Visite o blog do autor: www.teologiaegraca.blogspot.com
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