|
Leitura
Bíblica em Classe
1 Coríntios 5.1-6,9-11
Introdução:
I.
Escândalo na Igreja
II.
A Ação Pastoral Disciplinar na Igreja (vv.9-11)
III.
Relacionamentos do Crente
Conclusão:
Palavras-chave: Imoralidade.
Desafio. Relacionamentos
Título deste subsídio: O desafio de ser cristão em meio a uma sociedade ímpia
Autor: César
Moisés Carvalho
O desafio de ser cristão em meio a uma sociedade ímpia
Introdução
Enxergar os acontecimentos do século 1, com óculos
ocidentais do século 21, é uma tarefa não muito fácil e, não
rara as vezes, inatingível. Como conceber a idéia de que
pessoas pertencentes a uma comunidade cristã primitiva seriam
capazes de praticar atos lascivos piores que os ímpios?
Parece impossível, mas é exatamente esta a triste realidade
de uma igreja que decide se pautar pela cultura circundante.
Quando as convenções sociais, e não a Bíblia, tornam-se o
padrão para uma igreja, ela fica à beira do precipício do
secularismo.
A Sociedade Coríntia
Assim como neste tempo pós-moderno, ser crente em Corinto
era um desafio, pois o próprio estilo de vida de um coríntio
era sinônimo de imoralidade. Tanto que quando os gregos
queriam designar uma vida promíscua, utilizavam o termo korinthiazesthai
(cunhado por Aristófanes, c.450-385 a.C.), que significa
“viver como um coríntio” ou “à moda coríntia”, o
que equivalia à expressão “fornicar”. Além de sua
licenciosidade, Corinto era extremamente idólatra, mantendo
altares a Poseidon (que era o deus principal), a Hermes, Ártemis,
Zeus e Dionísio, só para mencionar alguns. Na verdade, havia
uma “prostituição cultual” na metrópole, pois o templo
dedicado a Afrodite possuía mil sacerdotisas que ofereciam
seus corpos à prostituição. Enfim, era um lugar de mistura
pluralista de culturas, filosofias, estilos de vida e religiões.
Na verdade, a fonte de todos os problemas desta igreja está
exatamente na cultura helenística que tanto influenciou os
coríntios. A grande questão era o que significava ser
“espiritual” (cf. o uso da palavra pneumatikos 14
vezes, só em 1 Coríntios, contra apenas 4 vezes nas outras
cartas paulinas).
Como toda sociedade reproduz os valores que nela vicejam, não
há como negar que os condicionamentos culturais de caráter
sociológico e religioso exercem uma influência, quase
coercitiva, sobre os seus membros. Inseridos nesta realidade,
existe o perigo de um dualismo entre palavras e atos. E é
exatamente isto que Paulo constatou que estava havendo entre
os coríntios (1 Co 4.19,20). O dualismo que grassava na
sociedade coríntia, atingiu também a membresia, e
proporcionou todo o apoio conceitual necessário, tornando os
crentes coríntios tão suscetíveis ao erro, que a prática
de atos ilícitos, impraticáveis até pelos ímpios, acabou
tendo lugar entre aquela comunidade cristã. Evidentemente que
a recomendação bíblica — transmitida através do apóstolo
dos gentios —, é justamente o contrário da adequação da
igreja à cultura secular: “E não vos conformeis com este
mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso
entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável
e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
O ato imoral dentro da igreja foi tão degradante, que
Paulo, profundo conhecedor das culturas gentias daquela época,
fala sobre sua admiração em ver que os cristãos haviam
“descido” a tal esfera humana de baixeza moral:
“Geralmente se ouve que há entre vós fornicação e
fornicação tal, qual nem ainda entre os gentios, como é
haver quem abuse da mulher de seu pai” (1 Co 5.1). O ato,
apesar de ocorrido entre enteado e madrasta (pessoas que não
possuem grau de parentesco de consangüinidade), é
classificado como incesto. O fato de Paulo se admirar, não
significa que tal ato era algo desconhecido na ímpia
sociedade coríntia, mas que não era comum e, mesmo sendo
altamente licenciosa, não apoiava este tipo de relação.
A conivência com o pecado não era simplesmente um sinal
de extrema letargia e frieza espiritual, mas fruto do dualismo
(corpo/alma ou material/imaterial) existente na cultura helênica.
A alegada espiritualidade dos coríntios, conforme seu
entendimento, pressupunha independência em relação à ética
e a conduta pessoal. Mesmo como fiéis, os crentes coríntios
se apegavam àquela parte do dualismo helenístico que
desdenhava do mundo físico em favor do conhecimento e da
sabedoria “superiores” da existência espiritual. A idéia
ou entendimento era de que não seria possível o sexo ilícito
atingir o relacionamento do crente com Deus ou mesmo com o
Corpo de Cristo de maneira geral. A polarização era também
um fator preponderante na igreja coríntia, pois, ao mesmo
tempo em que havia uma imoralidade crônica na ímpia Corinto
(que, infelizmente influenciou também os crentes), existia
também um ascetismo indevido (1 Co 7.2-5).
A Necessidade de Conhecimento do Contexto
Situar-nos no tempo (época) e no espaço (localização),
ou seja, sentirmo-nos inseridos no contexto da epístola é
algo de fundamental importância. Mesmo porque, as características
sociológicas, juntamente com os aspectos religioso e filosófico,
influenciam nossa interpretação da epístola.
Assim, o que era para ter acontecido na primeira lição,
em razão da impossibilidade de ter ocorrido naquele momento,
pode muito bem ser feito agora.
Corinto localizava-se ao pé da colina chamada Acrocorinto,
de 575 metros de altura, no lado meridional (sul) do istmo
[faixa de terra que liga uma península (porção de terra,
cercada de água por todos os lados, menos um, pela qual se
liga a outra terra) a um continente] que ligava o Peloponeso
ao restante da Grécia e separava os Golfos [porção do mar
que entra fundo pela terra e cuja abertura é muito larga] Sarônico
e Corinto.
Corinto controlava o movimento por terra entre a Itália e
a Ásia e também o tráfego entre dois portos, de Lequeu, 2,4
quilômetros ao norte, e de Cencréia, 8,2 quilômetros a
leste. Um sistema de transporte por terra entre esses dois
portos, que atravessava Corinto, tornava possível evitar
navegar nas águas traiçoeiras que rodeavam o Peloponeso.
Esse sistema de transporte era facilitado por uma estrada
pavimentada através do istmo, construída no século VI a.C.
Assim, Corinto era conhecida como cidade rica devido às
tarifas e ao comércio e como encruzilhada para as idéias e o
tráfego do mundo.
A antiga Corinto floresceu como cidade-estado grega no século
8 a.C. até em meados do século 2 a.C. Por volta de 146 a.C.
foi destruída por Roma [Império romano], e um século mais
tarde (44 a.C.) foi reconstruída como colônia romana.
Como já era de se esperar, após este período, os romanos
foram os primeiros a se estabelecerem ali. Mesmo inicialmente
relutantes, posteriormente os gregos retornaram em grande número.
Mas a cidade atraiu também pessoas de muitas raças orientais
e havia ainda uma grande parcela de judeus. Presume-se que ela
tivesse entre 100 a 500 mil habitantes.
A Corinto que Paulo encontrou e ali estabeleceu uma igreja
era então a capital da província romana de Acaia. Era uma
cidade populosa, importante, cosmopolita, materialmente próspera,
intelectualmente viva e moralmente corrupta.
Os seus habitantes eram pronunciadamente propensos a
satisfazer os seus desejos, fossem eles de qualquer espécie.
Assim a raiz do problema dos coríntios era o apego ao poder,
ao prestígio e ao orgulho representado na tradição retórica
helenística, com sua ênfase na glória da sabedoria e das
realizações humanas e o estilo de vida escandaloso e
extravagante.
“O ideal dos coríntios era o atrevido desenvolvimento do
indivíduo: O negociante que conseguia lucro por todo e
qualquer meio, o amante de prazeres que se entregava a toda a
luxúria, o atleta dedicado a todos os exercícios corporais e
orgulhoso de sua força física, são os verdadeiros tipos coríntios,
num mundo em que o homem não reconhecia nenhum superior e
nenhuma lei, senão os seus desejos”.
O Importante Papel da Liderança
Mesmo à distância, Paulo delibera e age para erradicar a
repercussão do escândalo (1 Co 5.4,5). Isso sinaliza e
adverte-nos para, nos dias em que vivemos, buscarmos ter a
mesma responsabilidade em nossas igrejas locais.
Paulo até adverte aos coríntios, de que não é nada
recomendável a altivez que eles, mesmo diante do pecado
vergonhoso, ainda parecem querer ostentar. Ele diz claramente:
“Não é boa a vossa jactância” (1 Co 5.6). A preocupação
paulina e o que o levou a tomar rapidamente uma decisão, foi
o medo de que este ato viesse a se transformar em um mau
exemplo a ser copiado, pois, “um pouco de fermento faz
levedar toda a massa” (1 Co 5.6). Atualmente, não é
pequeno o número de igrejas que se orgulha de hoje serem mais
“abertas”, menos rígidas etc. A grande maioria aderiu
conceitos seculares em seus padrões e nem sabe que estão
longe do verdadeiro evangelho.
A melhor e maior de todas as motivações, e que leva o
crente a abster-se da contaminação do pecado, é saber que
“Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Co
5.7). Neste caso, a recomendação não é que ficaremos sem
nos alegrarmos para dizer que estamos servindo ao Senhor. Pelo
contrário, seu convite é que “façamos festa, não com o
fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia,
mas com os asmos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5.8).
Relacionamentos Diferentes
Alguns cristãos acreditam que para ser realmente santo, é
preciso isolar-se e não ter nenhum contato com as pessoas que
não professam a mesma fé que nós. Acerca disso, o apóstolo
Paulo ensina que se não quisermos ter contato com as pessoas
não-crentes, será preciso “sair do mundo”, ou seja,
morrer (1 Co 5.10.). O desafio do cristão é conviver
com as pessoas não-crentes e não deixar que elas nos
influenciem.
No versículo 11 de 1 Coríntios 5, Paulo muda a explicação
e assume um tom mais grave, explicando que o crente já
amortecido pelo pecado, o transgressor contumaz, o rebelde por
opção, deve ser evitado. O conselho é tão sério, que ele
diz para nem comer com quem se porta de maneira inconveniente.
O objetivo aqui parece ser duplo: evitar que o crente
descompromissado estrague o testemunho dos demais e, por outro
lado, privar-lhe da comunhão amorosa dos santos para que
aprenda a valorizá-la.
No versículo 13 Paulo fecha sua argumentação quanto ao
processo disciplinar do irmão infrator, iniciado no versículo
2. O ato de “entregá-lo a Satanás” (v. 5), — que é
uma expressão incomum —, parece ter neste último versículo
o seu fechamento. O próprio fato de estar alijado das celebrações
e reuniões da igreja faz com que este crente valorize a
comunhão com os santos e reveja sua postura cristã diante de
Deus e da comunidade de fé. Desvinculado do “Corpo de
Cristo”, ele se tornará mais facilmente vulnerável às
investidas satânicas e, assim, vislumbrará a própria
fragilidade sem a proteção de Deus. É oportuno que seja
visto que a “disciplina” tem uma finalidade terapêutica e
curativa, e não vingativa ou exterminadora: “[...] para que
o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus Cristo”.
A nossa sociedade não é menos pior do que àquela em meio
a qual a igreja de Corinto estava inserida. Vigiemos para não
nos acostumarmos aos padrões de lassidão moral impostos pelo
mundo.
César Moisés Carvalho é Redator das Lições Bíblicas de Jovens e
Adultos da CPAD e autor dos livros Marketing
para a Escola Dominical (Ganhador do Prêmio Areté/2007
na categoria Educação Cristã) e O
Mundo de Rebeca. Acesse o blog do autor http://marketingparaescoladominical.blogspot.com
|