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Leitura
Bíblica em Classe
Jeremias 34.8-11,16,17
I. O papel político e
social da profecia nas Escrituras
II. O profeta é enviado ao rei
III. Questão de ordem social
Conclusão
Prezado professor, a Bíblia tem muito a
dizer acerca de questões sociais e políticas. O contexto
histórico dos profetas veterotestamentários remonta um
ambiente de injustiças sociais e corrupções políticas. Com
o intuito de fazer o diálogo entre esse tempo hisórico e a
igreja contemporânea é que reproduziremos um rico texto
extraído da obra de John Stott “Cristianismo Equilibrado”
(a fim de responder a seguinte pergunta: “Qual o papel
social da Igreja?”):
“[...]
Tem sido sempre uma característica dos evangélicos ocupar-se
com evangelismo. Tanto assim que não é raro encontrarmo-nos
com uma confusão de termos, como se “evangélico” e
“evangelístico” significassem a mesma coisa. Na nossa ênfase
evangélica em evangelismo, temos compreensivelmente reagido
contra o tão falado “evangelho social” que substitui
salvação individual por melhoramento social e, apesar do notável
testemunho da ação social dos evangélicos do século
dezenove, nós mesmos temos suspeitado de qualquer
envolvimento deste tipo. Ou, se temos sido ativos socialmente,
temos tido a tendência de concentrar-nos nas obras de
filantropia (cuidando dos acidentes de uma sociedade doente) e
tomado cuidado para evitar política (as causas de uma
sociedade doente).
Algumas
vezes, a polarização na igreja tem parecido ser completa,
com alguns exclusivamente preocupados com evangelismo e outros
com ações político-sociais. Como um exemplo para o
primeiro, tomarei alguns grupos do tão falado “Povo de
Jesus”. Ora, estou muito longe de querer ser crítico de
qualquer movimento. Contudo, uma das minhas inúmeras hesitações
diz respeito às comunidades de Jesus que parecem ter
rejeitado a sociedade e se retirado para a comunhão
individual, fazendo cultos evangelísticos ocasionais, no
mundo fora da comunidade. Vernon Wishart, um ministro da
Igreja Unida do Canadá, escreveu sobre o Povo de Jesus em
Novembro de 1972, num artigo oficial da Igreja. Ele descreveu
o movimento como “uma reação ao profundo mal-estar
cultural social” e uma tentativa para “vencer uma depressão
do espírito humano” causada pela tecnocracia materialista.
Mostrou-se admirador do genuíno zelo cristão por eles
manifestado: “Como crentes primitivos, eles simplesmente
vivem de uma maneira amorosa, estudando as Escrituras,
partindo o pão juntos e compartilhando os recursos”. E ele
reconheceu que o intenso relacionamento pessoal deles com
Jesus, e de um para com o outro era um antídoto à
despersonalização da sociedade moderna. Ao mesmo tempo ele
viu este perigo: “Voltar-se
para Jesus pode ser uma tentativa desesperada de
desviar-se do mundo no qual ele encarnou. Como as drogas, a
religião de Jesus pode ser uma fuga de nossa tecnocultura”.
Nesta última frase, Vernon Wishart colocou o dedo no problema
principal: Se Jesus amou o mundo de tal maneira que entrou
nele através da encarnação, como podem seus seguidores
proclamar que amam o mundo procurando escapar dele? Sir
Frederick Catherwood escreveu: “Procurar melhorar a sociedade não
é mundanismo, mas amor. Lavar as mãos da sociedade não é
amor, mas mundanismo” [grifo nosso].
[...]
Nós certamente não estamos confundindo justiça com salvação,
mas temos frequentemente falado e nos comportado como se pensássemos
que nossa única responsabilidade cristã para com uma
sociedade não convertida fosse evangelismo, a proclamação
das boas-novas de salvação. Nos últimos anos, contudo, tem
havido bons sinais de mudança. Temos ficado desiludidos com a
mentalidade da “tentativa abandonada”, com a tendência de
escolher não participar da responsabilidade social e com a
tradicional obsessão da “micro-ética” (a proibição de
coisas mínimas) e a negligência correspondente da “macro-ética”
(os grandes problemas de raça, violência, pobreza, poluição,
justiça e liberdade). Tem havido, também, um recente
reconhecimento dos princípios bíblicos para a ação social
cristã, tanto teológica quanto ética.
Teologicamente
[grifo nosso], tem havido um redescobrimento da doutrina da
criação. Tendemos
a ter uma boa doutrina da redenção e uma péssima doutrina
da criação [grifo nosso]. Naturalmente temos tido
uma reverência de lábios à verdade de que Deus é o Criador
de todas as coisas, mas, aparentemente, temos estados cegos
para as implicações disto. Nosso Deus tem sido por demais
“religioso”, como se o seu principal interesse fosse
cultos de adoração e oração freqüentados por membros de
igrejas. Não me entenda mal: Deus tem prazer nas orações e
louvores do seu povo. Mas, agora, começamos a vê-lo, também
(como a Bíblia sempre o retratou), como o Criador, que está
interessado tanto pelo mundo secular quanto pela Igreja, que
ama a todos os homens e não somente os crentes, e que tem
interesse na vida como um todo, e não meramente na religião.
Eticamente,
há
um redescobrimento da responsabilidade de amor pelo próximo,
que é o seguinte mandamento: “Amar
nosso próximo como amamos a nós mesmos” [grifo
nosso]. O que isso significa na prática será determinado
pela definição das Escrituras sobre o “nosso próximo”.
O nosso próximo é uma pessoa, um ser humano, criado por
Deus. E Deus não o criou como uma alma sem corpo (para que
pudéssemos amar somente sua alma), nem como um corpo sem alma
(para que pudéssemos preocupar-nos exclusivamente com seu
bem-estar físico), nem tampouco um corpo-alma em isolamento
(para que pudéssemos preocupar-nos com ele somente como um
indivíduo, sem nos preocupar com a sociedade em que ele
vive). Não! Deus fez o homem um ser espiritual, físico e
social. Como ser humano, o nosso próximo pode ser definido
como “um corpo-alma em
sociedade”. Portanto, a obrigação de amar o nosso próximo
nunca pode ser reduzida para somente uma parte dele. Se amamos
o nosso próximo como Deus o criou (o que é mandamento para nós),
então, inevitavelmente, estaremos preocupados com o seu
bem-estar total, o bem-estar do seu corpo, da sua alma e da
sua sociedade. Martin Luther King expressou muito bem:
“Religião trata com o Céu como com a terra... Qualquer
religião que professar estar preocupada com as almas dos
homens e não está preocupada com a pobreza que os predestina
à morte, com as condições econômicas que os estrangula e
com as condições sociais que os tornam paralíticos. É uma
religião seca como poeira”. Eu acho que deveríamos
adicionar que “uma religião seca como poeira” é, na
realidade, uma religião falsa.
É
verdade que o Senhor Jesus ressurreto deixou a Grande Comissão
para a sua Igreja: pregar, evangelizar e fazer discípulo. E
esta comissão é ainda a obrigação da Igreja. Mas a comissão
não invalida o mandamento, como se “amarás o teu próximo”
tivesse sido substituído por “pregarás o Evangelho”. Nem
tampouco reinterpreta amor ao próximo em termos
exclusivamente evangelísticos. Ao contrário, enriquece o
mandamento amar o nosso próximo, ao adicionar uma dimensão
nova e cristã, nomeadamente a responsabilidade de fazer
Cristo conhecido para esse nosso próximo [grifo
nosso].
Ao
rogar que deveríamos evitar a escolha mais do que ingênua
entre evangelismo e ação social, eu não estou supondo que
cada crente deva estar igualmente envolvido em ambos. Isto
seria impossível. Além disso, devemos reconhecer que Deus
chama pessoas diferentes e as dota com dons apropriados à sua
chamada. Certamente cada crente tem a responsabilidade de amar
e servir o próximo à medida que as oportunidades se
manifestam, mas isto não o inibirá de concentrar-se –
conforme sua vocação e dons – em alguma incumbência
particular, seja alimentando o pobre, assistindo ao enfermo,
dando testemunho pessoal, evangelizando no lar, participando
na política local ou nacional, no serviço comunitário, nas
relações raciais, no ensino ou em outras boas obras.
Sugestão prática
Embora
cada crente, individualmente, deva descobrir como Deus o tem
chamado e dotado, aventuro-me a sugerir que a igreja evangélica
local, como um todo, deve preocupar-se com a comunidade
secular local como um todo. Uma vez que isto seja aceito, em
princípio. Crentes individuais, que compartilham as mesmas
preocupações, seriam incentivados a juntar-se em “grupos
de ação e estudo”. Não para ação sem estudo prévio,
nem para estudo sem ação consequente, mas para ambos. Tais
grupos, com responsabilidade, considerariam em oração um
problema particular, com a intenção de agir atacando o
problema. Um grupo poderia estar preocupado com o evangelismo
num novo conjunto habitacional, no qual (até onde conhecido)
não mora nenhum crente, ou com uma seção particular da
comunidade local – uma república para estudantes, uma prisão,
estudantes recém-formados etc. Um outro público poderia
dedicar-se aos problemas dos imigrantes e das relações
raciais, de uma favela de área e de habitações deficientes,
de um asilo para velhos desamparados ou de um hospital; de
pessoas idosas que têm pensão, mas se sentem sós, de uma clínica
local de aborto, ou de uma casa de prostituição. A possível
lista é quase interminável. Mas se os membros de uma
congregação local fossem compartilhar as responsabilidades
evangelísticas e sociais da igreja em conformidade com seus
interesses, chamadas e dons, muitos trabalho construtivos
poderiam certamente ser feito na comunidade.
Eu
não conheço qualquer declaração de nossa dupla
responsabilidade cristã, social e evangelística, melhor do
que aquela feita pelo Dr W. A. Visser: “Eu creio”, disse
ele, “que com respeito à grande tensão entre a interpretação
vertical do Evangelho como essencialmente preocupada com o ato
de salvação de Deus na vida dos indivíduos e a interpretação
horizontal disto, como principalmente preocupada com as relações
humanas no mundo, devo fugir daquele movimento oscilatório
mais do que primitivo de ir um extremo para o outro. Um
cristianismo que
tem perdido sua dimensão vertical tem perdido seu sal e é, não
somente insípido em si mesmo, mas sem qualquer valor para o
mundo. Mas um cristianismo que usaria a preocupação vertical
como um meio para escapar de sua responsabilidade pela vida
comum do homem é uma negação do amor de Deus pelo mundo,
manifestado em Cristo. Deve
tornar-se claro que membros de igreja que de fato negam suas
responsabilidades em qualquer parte do mundo são tão
culpados de heresia quanto todos os que negam este ou aquele
artigo da fé [grifo nosso]”( STOTT. John R. W. Cristianismo
Equilibrado. Rio de Janeiro, CPAD, pp. 55-64).
Professor,
utilize a lição desse domingo a fim de contribuir para a
relevância de sua igreja local à comunidade que ela está
instalada. Reflita com seus alunos sobre o papel social que a
Igreja de Cristo tem a desenvolver na sociedade em que
vivemos. Boa aula!
Reflexão: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as
boas obras as quais
Deus preparou para que
andássemos nelas” (Ef 2.10).
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