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O verdadeiro poder da Igreja
César Moisés de
Carvalho
“Pois também te digo que tu és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as
portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt
16.18).
Em julho de 1999, no 1º Seminário
de Escritores Evangélicos, promovido pela CPAD, lembro-me de
uma recomendação do Pastor Antonio Gilberto – sobre a
importância de se conhecer as línguas originais em que a Bíblia
foi escrita – seguida da indicação (estávamos na filial
da CPAD em Vicente de Carvalho/RJ) de dois livros sobre
sintaxe do hebraico. Apesar de meu conhecimento do assunto não
ter avançado quase nada, mantenho um bom costume durante
anos: verificar o verdadeiro sentido do texto bíblico. Para
isso leio o mesmo texto em diversas versões da Bíblia,
consulto dicionários bíblicos, inclusive com o significado
dos termos originais e sempre pesquiso um bom comentário. Por
quê? Para não cometer atrocidades com o texto bíblico e
inverter sua mensagem original.
Esse problema, em que pese às
opiniões contrárias, pode ser fruto de, ao menos, três
causas:
1 – Ignorância ou
desconhecimento;
2 – Falta de dedicação ao
estudo da Palavra;
3 – Distorção deliberada do
texto.
Apesar de as três formas
apresentarem resultados praticamente comum – o prejuízo dos
ouvintes – as duas primeiras podem ser “facilmente”
resolvidas com o aconselhamento, o mesmo não valendo para o
terceiro caso, pois é algo que parte de alguém que conhece,
mas que, para tirar vantagens próprias ou institucionais, dá
sentido distinto do original a fim de manter-se ou manter a
instituição no domínio. Lamentavelmente, essa forma de
“interpretação” bíblica é largamente utilizada.
No que diz respeito ao texto bíblico
que abre esta reflexão, sabemos das diversas distorções as
quais ele tem sido submetido. O primeiro e mais conhecido é a
que interpreta que a “pedra” a que se refere o Senhor
Jesus seja “Pedro”. Daí o apóstolo ser considerado
fundador da igreja e primeiro papa. Totalmente infundada, e já
bem rechaçada pelos estudiosos, dispensamos comentários
acerca desta equivocada interpretação.
Uma segunda distorção – e
esta sim é preocupante – é o triunfalismo institucional.
Certo dia, alguém esbravejando disse que “Deus se encarrega
de cumprir todos os anseios de sua igreja”, e arrematou:
“Você é a igreja de Cristo irmão, pede o que quiser”.
Se lermos a Bíblia com cuidado, verificaremos que, a Igreja
com “I” maiúsculo é o Corpo de Cristo, e, por
conseguinte, guardadas as devidas proporções e exageros do
literalismo, uma extensão Sua aqui na Terra. E qual foi o
modo de viver do meigo Nazareno quando esteve encarnado entre
nós? Qual foi a Sua promessa para a Igreja? Será que o
Senhor Jesus dotou a Igreja de um poder paralelo para
arbitrariamente cumprir os desejos individualistas dos cristãos
nominais da atualidade?
Essa precipitada conclusão vem
da descabida “interpretação” de que com a expressão do
Senhor: “[...] as portas do inferno não prevalecerão
contra ela”, e também com a do próximo versículo, estava
Ele beneficiando a Igreja com um poder mandatário que
extrapola até mesmo a dimensão física e avança ao reino
espiritual. Tudo isso, sabemos, não passa de ficção
espiritual alimentada pelo pragmatismo pós-moderno – tudo
é avaliado em termos de satisfação pessoal – perversão
do texto bíblico e sensacionalismo barato para envolver o
auditório. Somos sabedores de que desde a primeira vez que
alguém quis ter poder semelhante ao de Deus, causou uma
desestruturação total na ordem das coisas criadas, provando
sua imaturidade em relação ao domínio e direção, que de
forma soberana, só pertencem a Deus (veja Gn 3).
Como Corpo de Cristo, o
verdadeiro poder da Igreja do Senhor Jesus é o poder de fazer
aquilo que sua “Cabeça” determinar. Paulo escreveu que
Ele – o Senhor Jesus Cristo – é “a cabeça da igreja”
(Ef 1.22 e Cl 1.18). Não existe corpo ou cabeça – com vida
– separados um do outro. Eles são complementares. Não
obstante, o corpo só faz o que a cabeça determina. Mesmo os
nossos atos mais mecânicos e orgânicos, que parecem
prescindir de elaboração mental, são processados e
comandados pelo nosso cérebro.
O verdadeiro poder dado a Igreja,
não é político, econômico ou social, Deus não tem
interesse que o Seu povo exerça hegemonia nessas áreas. É
bem verdade que a Igreja teve participação direta em grandes
acontecimentos da História, seu papel foi notoriamente
fundamental quando isso se fez necessário. Convém entender
que, para influenciar, Ela não deixou de ser Igreja para se
tornar um partido político, um modelo econômico ou mesmo uma
filosofia de vida, foi sendo Igreja e vivendo como tal,
segundo sua natureza e cumprindo os desígnios do Senhor, que
toda a diferença foi feita. E, quando na História, a Igreja
se institucionalizou, misturando-se – chegando a ser
confundida! – com o poder político ou o Estado, foi preciso
uma reforma para que Ela voltasse ao seu propósito original.
Reconhecemos a urgência de
salgar e iluminar. Mas, a despeito da proposital redundância,
é preciso que o sal seja sal mesmo e a luz seja mesmo luz.
Sob pena de sermos pisados por causa da falta de sabor e de
rejeitados por não iluminar. Se o Evangelho, as Boas Novas, a
mensagem do reino, pérola da Igreja, alcançar pessoas em
pontos estratégicos da sociedade e dentro de todos os escalões,
vivendo essas de forma ética e cristã, aliando a mensagem ao
seu exemplo, compromisso e serviço, com a postura condizente
de um membro do Corpo de Cristo, é fato que profundas
transformações ocorrerão na sociedade, mas se isso
acontecer, não será porque a Igreja deixou de ser o que é,
mas exatamente o contrário!
“As portas do inferno não
prevalecerão contra ela” – não significa que não passará
por tribulações (é só ver o testemunho insuspeito da História),
ou que tomará a dianteira política – quer dizer que a Cabeça
garante a subsistência de Seu Corpo e, que este não será
exterminado. Cabe, entretanto, avaliar no plano individual e
coletivo, se somos ou não membros do Corpo. A comprovação
de estarmos no Corpo de Cristo é o fato de nossas ações
serem diferentes, relevantes, significativas e desprovidas do
legalismo ou do assistencialismo eleitoreiro de fazer um
pequeno benefício para receber algo bem maior em troca. As
nossas ações serão, simplesmente, a exteriorização do que
foi processado na Cabeça, pois o Corpo – estamos falando de
um corpo em perfeito estado – não faz o que quer.
O poder dado à Igreja é o poder
– capacitação espiritual – para executar a Obra do
Senhor, poder para cumprir a Grande Comissão que Jesus Cristo
a delegou. Quando faz isso – que é sua incumbência – a
transformação total da realidade acontece como conseqüência.
Nada pode deter a Igreja – o Corpo de Cristo – quando Ela
cumpre o plano mestre da Cabeça – o Senhor Jesus – pois
é exatamente isso que se espera de um organismo normal e
perfeito (Ef 4.15,16).
César Moisés de Carvalho é pastor, pedagogo, articulista,
conferencista, e autor dos livros Marketing
para Escola Dominical –
vencedor do Prêmio Arete – e O
Mundo de Rebecca.
Atualmente trabalha como professor da Faecad (Faculdade Evangélica
de Ciências e Tecnologia da CGADB), e no Setor de Publicações
da CPAD, além de pregar e ministrar palestras em todo o
Brasil - principalmente - sobre Escola Dominical. Acesse os
blogs do autor: http://omundoderebeca.blogspot.com e http://marketingparaescoladominical.blogspot.com
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