Esboço
da Lição
Introdução
I. A
Secularização da Igreja
II.
As
Conseqüências da Secularização na Igreja
III. O
Combate a Secularização na Igreja
Conclusão
Palavras-chaves deste estudo
Secular;
Secularização; Estado; Igreja; Instituições; Teologia da
Secularização.
Introdução
A
identidade cristã é um conjunto de caracteres próprios e
exclusivos, fundamentados nas Escrituras e nos bons costumes
que identificam o cristão como discípulo de Cristo e fiel
membro da comunidade dos santos (Gl 5.22). A identidade cristã,
por sua vez, opõe-se ao secularismo hodierno. Nesta lição
trataremos a respeito da conceituação e definição de
secularismo e secularização, bem como dos aspectos históricos
e teológicos relacionados ao tema.
I. Definição
1.1.
Etimologia:
O
termo “secular” e seus cognatos, procedem do substantivo
latino saecŭlum
e secŭlum, definidos literalmente como “espaço
longo de tempo”, “cem anos”, “tempo em que se vive”,
“época”, “vida mundana”, “mundo”, “mundo
profano”. O adjetivo latino saeculāris,
significa “secular”, “pertencente ao século”. Desta
palavra se derivam os vocábulos “secular”, “secularização”,
“secularismo”.
O correspondente aos termos saecŭlum
ou saeculāris no grego neotestamentário é aiōn
(ou
aiōnos) traduzido em diversos textos por “tempo
muito longo”, “era”, “século”, “século ou era
presente”, “mundo” (Cf. Mt 12.32; 13.22; Lc 1.70; 16.8;
Jo 6.51, 58; 9.32; Rm 16.27; Hb 13.21).
1.2.
Conceituação:
O termo secularização é de significado elástico
e abrangente e, de acordo com as circunstâncias, pode ser
aplicado em diversos contextos.
a)
Fenômeno da Modernização. É possível falar
de secularização como um fenômeno da modernização, em
que o antigo – antiquado –, é substituído pelo novo
– modernidade. Secularização, portanto, é um movimento
de atualização ou de contextualização com uma época.
Neste sentido, o
“velho” é atualizado, ou substituído pelo novo.
Há uma mudança de direção, ou ruptura com o antigo rumo.
b)
Fenômeno Histórico. Secularização
também pode representar o fenômeno histórico dos últimos
séculos, pelo qual as crenças e instituições religiosas
se converteram em doutrinas filosóficas e instituições
leigas. Isto significa uma profunda mudança nos objetivos e
projetos das instituições religiosas em que esta se torna
uma instituição laica e os oficiais religiosos em
autoridade leiga.
c)
Processo Histórico. Podemos entender a
secularização, como o processo histórico pelo qual os
bens eclesiásticos e as atribuições políticas do clero são
transferidos para as autoridades leigas. Esse processo
ocorreu principalmente nas monarquias absolutistas após a
Reforma Protestante na Alemanha, Inglaterra e Escandinávia.
Nestes locais, muitas propriedades eclesiásticas foram
confiscadas – mosteiros se transformaram em colégios e
igrejas em principados leigos. A igreja, portanto, passa a
ser uma instituição subordinada ao Estado. O decreto
imperial na Alemanha, por exemplo, em 1803 confiscou cerca
de 22 bispados, 80 abadias e 200 mosteiros.
Um aspecto
emblemático, que muito ilustra esse processo de secularização
histórica, pode ser observado na transferência do registro
civil e dos cemitérios de posse da igreja para o poder público.
Uma das
negociações mais singulares desse processo histórico
ocorreu entre os dias de 15 de maio a 24 de outubro de 1648.
Neste período, nas cidades alemães de Münster e Osnabrück,
foi assinado um grande tratado de paz (a Paz de Westfália)
que pôs fim a desastrosa Guerra dos Trinta Anos – guerra
sanguinária entre católicos e protestantes (luteranos e
calvinistas). Este tratado, entre muitas leis, assinalou que
um reino tem interesses que o colocam acima das motivações
religiosas e a autoridade do papado para intervir nos
assuntos internos dos reinos, foi substituída pelo conceito
de soberania de estado.
d)
Conceito Religioso. A secularização, entendida
como teoria humanista pós-moderna (secularismo), é muito
mais do que o comportamento e o pensamento do mundo de nosso
tempo. Trata-se do modo de viver deste mundo, que além de não
comungar com os interesses espirituais do Reino de Deus, opõe-se
radicalmente a ele.
O secularismo, como afirma o dicionário
Houaiss, é o “regime laico, secular; exclusão, rejeição
ou indiferença à religião e a ponderações teológicas”.
Cabe aqui afirmar, que não se trata apenas de “indiferença
à religião e a ponderações teológicas”, mas em
completa ruptura e oposição a estes. Como indiferença, o
secularismo classifica a religião e seus dogmas como temas
idiossincráticos ou particulares, sem interesses reais para
a sociedade.
A crença é assunto pessoal de cada um, portanto, o Estado
não interfere na crença do indivíduo, mas a doutrina
religiosa deste, não deve interferir nos assuntos
daquele.
Neste aspecto, a secularização é um fenômeno próprio da
modernidade. De acordo com Champlim, G.H. Holyoake
(1818-1906),
foi o primeiro a usar o
termo “secularização” como referência a toda atitude
anti-religiosa.
Se
considerarmos o profeta Daniel e a Babilônia de seu tempo
como exemplos, descobriríamos que o Estado interferia
rigorosamente na crença de seus cidadãos.
Não apenas a Babilônia, mas provavelmente em todos os
reinos da geografia bíblica, não existia qualquer distinção
entre assuntos do Estado e assuntos religiosos. Pelo contrário,
Estado e Religião se confundiam, estavam intrinsecamente
unidos.
No entanto, os interesses religiosos e políticos sempre
estiveram em busca do enlace e do divórcio, de modo que a
ruptura entre ambos só é plenamente inteligível se
considerarmos todos os contextos.
A dificuldade parece ser insuperável, uma vez que o indivíduo
não é uma tabula rasa (tábua ou folha em branco), e não
se despe de suas crenças religiosas como se estivesse
trocando de roupa. Não é possível pedir que o sujeito
tenha dois comportamentos – um secular e outro religioso
–, pois isto é contrário à própria cidadania e ao ser
religioso. A pessoa não pode negar o que é em razão de
estar fora dos umbrais da igreja – muito pelo contrário.
A igreja recomenda que os cristãos participem na vida pública
como cidadãos, mas que não abandonem a consciência e os
valores cristãos.
f)
Teologia da Secularização. O desenvolvimento da
Teologia da Secularização, deve-se ao teólogo alemão e
discípulo de von Harnarck, Friedrich Gogarten (1887-1967).
Gogarten distinguia entre “secularização” e
“secularismo”. Para o teólogo, a secularização é
necessária e legitima a fé cristã, enquanto o secularismo
é a degeneração da secularização.
Gibellini, define o
conceito de secularização de Gogarten como “um processo
histórico de profunda transformação do homem e do mundo,
da forma como o homem se relaciona consigo mesmo e com o
mundo” (A Teologia do Século XX, Loyola, 1998, p.
128).
O conceito
de Gogarten admite positivamente a desmitologização de R.
Bultmann, considerando-a como um método hermenêutico
apropriado para que o homem moderno compreenda a mensagem
salvífica do Novo Testamento. Gogarten aderiu ao movimento
religioso dos Cristãos Alemães que apoiavam a Hitler, por
considerar, de início, que se tratava de uma forma de
autoridade legítima. No entanto, depois de observar que o
movimento estava abandonando os fundamentos bíblicos,
escreveu um documento de protesto e desvinculou-se do
movimento.
g)
Secularismo Eclesiástico Moderno. A religião
cristã está passando por um profundo processo de
secularização. A competição entre as denominações
evangélicas à procura de novos fiéis, nem que para isso
seja necessário o emprego de estratégias mercadológicas,
de marketing e dos recursos da indústria cultural,
assinalam a secularização da igreja hodierna. Mas o
processo de secularização da igreja, entendida também
como modernização de suas estratégias evangelísticas,
que muitas vezes contestam a própria práxis evangélica, não
é nada novo.
Atualmente
podem ser detectados três fortes movimentos que convivem,
disputam e dialogam entre si no contexto da religião
brasileira:
ü
a explosão do
fenômeno religioso;
ü
a
desconfiança na instituição religiosa;
ü
e a secularização da igreja.
|
A
explosão do fenômeno religioso
|
Este é
conseqüência da difusão do sagrado. O aumento das
denominações evangélicas, das seitas cristãs, das
religiões orientais, da ufologia mística etc.,
comprova o fato. O sagrado está tão difuso que o
cidadão comum não consegue diferençar a verdadeira
religiosidade da falsa. É possível ouvir os jargões
dos movimentos pentecostais sendo pronunciados por
apresentadores (as) da mídia eletrônica; camisetas
estampadas com dizeres evangélicos (mesmo que o
fabricante e o portador não o sejam); músicas cristãs
mixadas com ritmos dançantes; igrejas que se
transformam em salões dançantes e cujas programações
destinadas à juventude se confundem com funk, hip hop,
New Wave, entre outros.
|
|
A
desconfiança na instituição religiosa
|
Trata-se
de uma resposta racionalista às contradições do fenômeno
religioso. Argumentam que as pessoas acreditam mais
nos cartomantes, nos duendes, nas benzedeiras do que
nos cientistas.
É uma conseqüência da explosão do fenômeno
religioso.
|
|
A
secularização da igreja
|
É uma
vulgarização da fé que favorece a dessacralização
do sagrado e usa a indústria cultural como veículo
para propagar um evangelho sem Cristo e um
cristianismo sem a ética bíblica.
|
Professor, quem estuda o que a Escritura afirma a respeito
do relacionamento da Igreja com Cristo expresso no
simbolismo do matrimônio, sabe que uma igreja secularizada
é uma noiva infiel ao seu noivo (Ef 5.22-32).
Use o gráfico abaixo como um recurso didático a respeito
da “secularização da igreja”.
|
IGREJA
SECULARIZADA
|
NOIVA
DO CORDEIRO
|
APLICAÇÃO
|
|
A
doutrina cristã não interfere na moral e ética do
crente nominal.
|
A
doutrina cristã interfere na vida pessoal, ética e
moral do crente.
|
Aplicar
os princípios bíblicos ao cotidiano.
|
|
A
obrigação religiosa é mais importante do que a prática
da piedade cristã.
|
A
piedade cristã é mais importante do que as obrigações
religiosas.
|
Priorizar
a essência em vez da aparência.
|
|
As
reuniões cristãs são mero entretenimento religioso. |
As
reuniões cristãs são momentos especiais de adoração
ao Deus Vivo.
|
Exaltar
a Deus em vez dos homens.
|
|
A
liturgia abandona a simplicidade cristã pelos shows
pirotécnicos.
|
A
presença do Espírito Santo é mais importante do que
os aparatos litúrgicos.
|
Enfatizar
a ação do Espírito em vez da técnica.
|
|
Dessacralização
do templo, dos ritos e símbolos cristãos e a perda da
reverência cristã no culto. |
O
templo, os ritos e símbolos cristãos são sagrados
pois testificam da presença de Deus entre o seu povo.
Privilegia o sacro.
|
Reverenciar
o que é santo.
|
|
Pregações
motivacionais que incentivam a riqueza, o luxo e
priorizam o status social.
|
A
pregação é cristocêntrica e incentiva o Reino de
Deus em vez do reino deste mundo.
|
Distinguir
a palavra profética da
motivacional.
|
|
O
relaxamento dos valores morais cristãos.
|
Os
valores morais, pautados na Bíblia, são preservados e
admitidos como norma e conduta dos santos.
|
Preservar
os valores morais da Bíblia.
|
II. Secularização
em dois contextos
a)
Histórico-cultural:
Embora o termo “secularização” seja empregado em
diversos sentidos, interessa-nos, neste momento, duas
abordagens específicas. A primeira, de caráter histórico
e cultural, que se inicia quando a sociedade do final do século
XIX e início do século XX exige a ruptura definitiva com a
instituição eclesiástica.
Era um movimento de ruptura que buscava a emancipação da
cultura, política e filosofia da tutela da religião cristã.
Alguns filósofos chamaram esse período de “desencanto do
mundo”. Nesse contexto, a secularização era entendida
como uma ruptura entre a sociedade e a igreja, entre o
secular e o sagrado. Estava, portanto, reafirmado o
distanciamento entre a sociedade secular e a igreja, entre o
Estado e o cristianismo.
b)
Cristãos Alemães: A segunda, está
relacionada ao movimento dos Cristãos Alemães (Deutsche
Cristen), fundado na Turíngia em 1927. A fim de secularizar
a igreja e popularizar o cristianismo na Alemanha, A Igreja
Evangélica Alemã aliou-se ao nacional-socialismo
(nazismo), vindo apoiar a Adolf Hitler quando este subiu ao
poder em 30 de janeiro de 1933. Nesse período, as suásticas
compartilhavam do altar ao lado da cruz, e os cristãos
seculares viram Hitler como um profeta para restaurar o
cristianismo e a religiosidade do povo alemão. Os cânticos
cristãos faziam referências ao “Chanceler (Hitler) que
vela pela Alemanha, noite e dia, sempre a pensar em nós”.
Um dos líderes do movimento, Dr. Reinhold Krause, propôs a
eliminação do Antigo Testamento, da moral judaica e a
exclusão dos ensinos do rabino Paulo do Novo Testamento,
pois não estavam de acordo com os novos padrões culturais
e políticos da época. No entanto, um dos opositores ao
nazismo e ao movimento iniciado pela Igreja Evangélica Alemã,
pastor Dietrich
Bonhoeffer, antes de ser enforcado, exortou as igrejas à não
se renderem aos ídolos do mundo moderno.
Nesta
conjuntura, podemos entender a “secularização” como um
movimento cristão que procurava cristianizar a sociedade
mediante a união entre a igreja e o Estado, valendo-se para
isto, dos princípios éticos e morais da sociedade.
Enquanto o movimento do século XIX procurava afastar a
igreja do Estado, a Igreja Alemã tencionava incorporar ao
Estado a religião, mas seguindo os fundamentos da sociedade
em vez dos bíblicos.
Para
Saber Mais:
ALMEIDA,
Abraão de. Teologia Contemporânea. 4 ed. ver. ampl., Rio de
Janeiro: CPAD, 2002.
BENTHO,
Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada. 3
ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
PALMER,
Michael D. Panorama do pensamento cristão. Rio de
Janeiro: CPAD, 2001.
| |