Esboço
da Lição
Introdução
I. O
Materialismo e o Ateísmo
II.
O
Materialismo e o Ateísmo na Sociedade
III. Refutando
o Materialismo e o Ateísmo
Conclusão
Palavras-chaves deste Estudo
Ateísmo; Ateu; Matéria; Materialismo; Razão;
Racionalismo; Ceticismo; Agnosticismo; Teísmo; Epistemologia.
Introdução
“Em
Hobbes, o racionalismo de Bacon se transformara em um ateísmo
e materialismo inflexíveis; uma vez mais, nada iria existir,
a não ser ‘átomos e o vazio’”, disseca Will Durant,
concernente a ascensão do racionalismo e o nadir da
crença em Deus.
Neste subsídio discutiremos o tema da lição, primeiramente,
definindo o étimo do termo ateu e seu desdobramento nas
Escrituras. A seguir, conceituaremos o ateísmo e faremos uma
síntese do pensamento de quatro filósofos: Nietzsche, Marx,
Sartre e Camus. Não trataremos do materialismo em razão de
este assunto já ter sido comentado em lições anteriores –
motivo pelo qual entendemos não ser necessário repisar o
assunto, uma vez que não resta muitas dúvidas quanto ao
conceito principal.
I. Definição
1.1.
Etimologia:
O
vocábulo ateu é formado pelo prefixo grego de negação a
(“não”, “provação”, “negação”) e pelo
substantivo theos,
isto é, “deus” ou “Deus”. Literalmente atheos,
significa “sem Deus”. A palavra “ateísmo”, no
entanto, é formada pelos dois termos anteriores e o sufixo
“ismo” que denota “doutrina”, “sistema”, ou
“ensino”. O ateu é aquele que não crê em Deus, enquanto
o ateísmo designa a filosofia ou os ensinos dos ateus.
a)
Novo Testamento:
O termo aparece uma única vez no grego neotestamentário em
Efésios 2.12: “que naquele tempo, estáveis sem Cristo [chōris
Christou], separados da comunidade de Israel e
estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e
sem Deus [atheoi]
no mundo”. (grifo nosso).
O termo grego atheoi,
neste contexto, tem o sentido de “não pertencente a
Deus”, “sem Deus”, em vez do significado corrente de
negar racionalmente a existência de Deus, como o fazem os
filósofos ateus. O tipo de ateísmo que este termo (que é
um hapax legoumenon[1])
descreve é o denominado “ateísmo prático”, ou seja,
aquele que vive como se Deus não existisse ou que a
divindade não tem qualquer significado para ele, quer
exista ou não. Neste sentido, pode até mesmo ser uma
pessoa teísta, mas que não conhece o verdadeiro Deus:
“Porque, ainda que haja também alguns que se chamem
deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e
muitos senhores), todavia, para nós há um só Deus, o Pai,
de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor,
Jesus cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por
ele” (1 Co 8.5,6).
Observe que atheoi
no texto de Efésios, não quer dizer que a pessoa assim
referida não cria em alguma divindade, mas que ignorava a
existência do Deus de Israel. É assim que devemos entender
o advérbio de negação chōris,
traduzido em diversas passagens por “separadamente”; “à
parte de alguém”; “longe de alguém”. Literalmente a
expressão chōris
Christou,
quer dizer “longe de Cristo”, “afastado de
Cristo” e não
antichristo, isto é, “contrário ou oposto a
Cristo”. O texto de Coríntios não deixa de ser menos
revelador. Paulo reconhece que as nações pagãs possuem
suas divindades nacionais, entretanto, há um só
Deus. Veja que estas não são culpadas de ateísmo, mas
politeísmo, por não crerem no único Deus verdadeiro. A própria
expressão theoi
polloi, isto é, “muitos deuses” formam a palavra
“politeísmo” [polli-teos] (cf. 1 Co 8.5). Portanto, à
luz de Efésios 2.12, “sem Deus”, atheoi,
quer dizer “sem o verdadeiro Deus de Israel”.Portanto,
do ponto de vista histórico, o ateísmo em certas circunstâncias
corresponde à rejeição de deuses privados ou de uma
divindade em especial.
É assim, por exemplo, que devemos entender a acusação de
ateísmo contra Anaxágora e Sócrates. O primeiro condenado
de ateísmo por afirmar que o sol era maior que o Peloponeso
e, o segundo, por corromper os jovens e negligenciar os
deuses durante uma cerimônia de adoração. Até mesmo os
cristãos foram considerados ateus no Império Romano. No século
II, Justino fez referência a acusação de ateísmo contra
os cristãos. Em sua Primeira Apologia escreve a respeito da
turba colérica que gritava contra os cristãos “Morte aos
ateus, morte aos sem-Deus”. Em resposta, o apologista
sentenciou: “Somos ateus de todos os pretensos deuses”.
Estas manifestações são consideradas como “pseudo-ateísmo”,
uma vez que os envolvidos criam em alguma divindade, mas
rejeitavam a forma grotesca, antropomórfica e pagã de
certos cultos e religiões.
b)
Antigo Testamento: Não
há no Antigo Testamento um termo hebraico próprio para
expressar o conceito de ateu à semelhança do grego
neotestamentário. Em Salmos 14.1, o nābāl,
isto é, “o louco”, “insensato” ou “ateu” é
aquele que vive como se Deus não existisse (cf. Sl 53.1).
Este é o louco que blasfema contra o Senhor (Sl 74.18). O
povo de Israel também é definido como ‘am
nābāl,
isto é, “povo insensato ou ateu” em razão de não
reconhecer os grandes benefícios proporcionados pelo Senhor
Deus de Israel (Dt 32.6). Nestas referências, o termo
hebraico nābāl
designa, provavelmente, não alguém que está sinceramente
convicto de que Deus não existe, mas que está mal
orientado quanto a existência de Deus. O texto da
Septuaginta – tradução grega do texto hebraico – verte
o termo hebraico citado por aphrōn,
ou seja, “tolo”, “ignorante”.
A expressão Ouk
estin Theos, isto é, “Não há Deus” denuncia o
estado de completa ignorância e tolice de quem assim pensa
e vive. O ateísmo tanto prático quanto teórico é,
segundo as Escrituras, a principal causa da corrupção e
degeneração do homem (Sl 14; 53; Rm 1.18-32). O insensato
que vive como se Deus não existisse ou que O confunde com a
criação, possui um “coração insensato” (Rm 1.21). No
original a expressão “coração insensato” (asynetos
kardia), é literalmente, “sem entendimento de coração”.
Se considerarmos o termo kardia
de acordo com idiomatismo hebraico, podemos afirmar
que o ateu ou insensato é “aquele que vive sem o
conhecimento de Deus”. E, pelo que se depreende de uma
leitura atenciosa de Romanos 1.18-32, o ateu ou ignorante é
aquele que não conhece o Deus único e verdadeiro. Vários
termos empregados por Paulo se relacionam diretamente a
falta de episteme ou conhecimento correto acerca de Deus.
|
VERSÍCULO |
TERMO |
SIGNIFICADO |
| v.
18 |
Apokalyptetai |
Descoberto
está |
| v.
19 |
gnōston |
que
se pode conhecer |
|
phaneron |
manifesto |
| v.
20 |
nooumena |
entendidas |
| v.
21 |
gnontes |
tendo
conhecido |
|
dialogismois |
cogitações |
|
asunetos |
sem
entendimento |
| v.22 |
sophoi |
sábios |
|
emōranthēsan |
se
fez estultos |
| v.
28 |
epignōsei |
conhecimento
sobre |
| v.
31 |
asunetous |
sem
entendimento |
| v.32 |
epignotes |
tendo
conhecimento sobre |
1.2.
Conceituação:
O
ateísmo é a doutrina filosófica que admite a não existência
de Deus. Segundo o ateísta, não há qualquer prova
relativa a realidade de Deus, pois as evidências pressupõem
a não existência de qualquer divindade.
Com o advento do racionalismo, os filósofos e humanistas
seculares passaram a considerar o conhecimento religioso
como uma espécie de conhecimento mítico, necessário à
humanidade enquanto esta ainda estava em sua gênese. De
acordo com a epistemologia ou teoria do conhecimento, o
conhecimento religioso cumpria uma função teleológica,
isto é, das causas e dos fins. Como o homem primitivo não
sabia explicar as causas dos fenômenos físicos, atribuía
a essas manifestações da natureza causas metafísicas ou
divinas. No entanto, com a ascensão da ciência e do
conhecimento não há qualquer necessidade de Deus ou de
divindades para explicar os fenômenos físicos ou a existência
do universo. É claro que há nesse princípio
argumentativo, muito preconceito em relação ao que é ou não
científico. Se entendermos, como pré-científico todo o
conhecimento anterior à ciência moderna, onde fica a matemática,
a lógica, a filosofia? Deixaram de ser ciência com o
advento da modernidade? Se pré-científico deve ser
entendido como anticientífico, isto é, como mito ou mágica,
é muito mais provável que a ciência tenha sua gênese
nessas manifestações religiosas do que o cristianismo. Se
o “poder místico ou mágico” se refere a manipular as
forças da natureza por meio de fórmulas, rituais, plantas
e palavras, isto não seria uma pré-manifestação do
tecnicismo, por meio do qual tudo se transforma?
Não se pode argumentar ad absurdum que o cristianismo
compactua com a magia, uma vez que a tradição cristã
sempre se opôs a esse tipo de religiosidade. No entanto, o
cristianismo não apenas admite como também ensina a
intervenção divina nas forças naturais do universo. Mas não
se trata de manipulação por palavras mágicas, mas da ação
soberana da vontade de Deus. Os cristãos também ensinam
que toda a criação foi criada por Deus com um propósito
específico; que Deus Criou e estabeleceu as leis físicas
que os próprios cientistas investigam. Como
teoria do conhecimento, o ateísmo distingue-se do
ceticismo, do agnosticismo e do teísmo. Vejamos:
| O
Cético |
O
Agnóstico |
O
Ateu |
O
Teísta |
| -
Duvido que Deus existe.
-
Não
tem certeza. |
-
Não
é possível saber.
-
Não é possível saber se Deus existe. |
-
Deus não existe.
-
Está convicto.
-
Não
há espaço para Deus.
-
Combate
a existência de Deus. |
-
Deus existe.
-
Está convicto. |
II.
O Ateísmo e a
Filosofia
A
filosofia é uma das mais extraordinárias manifestações do
conhecimento e da razão humana. No entanto, por várias
vezes, recusou-se a admitir o verdadeiro conhecimento. Não há
sabedoria e amor ao conhecimento quando se nega a existência
de Deus: “Não há sabedoria, nem inteligência,
nem conselho contra o SENHOR” (Pv 21.30). Célebres
filósofos se equivocaram ao afirmar a não existência de
Deus. Entre esses destacamos:
| F.
Nietzsche |
Afirmou
categoricamente que os deuses estão se decompondo e que
Deus está morto. |
| Karl
Marx |
Escreveu
que possuía ódio a todos os deuses e, que a religião
é o ópio do povo |
| J.
Paul Sartre |
Sentenciou
que se Deus existe, o homem é um nada; se o homem
existe, Deus não existe |
| Albert
Camus |
Consolidou o
conceito de Nietzsche de que Deus está morto é ponto
pacífico e que o filósofo não matou a Deus, mas o
encontrou morto em seus contemporâneos. |
III.
Características
do Ateísmo Moderno
O
ateísmo moderno possui como principais características:
| Anticristão |
Não se opõe
apenas as religiões, mas procura combater severamente o
cristianismo. Para eles o Deus cristão é fraco e
obsoleto. |
| Preconceituoso |
Para o ateu
moderno os cristãos são pessoas incultas, fracas e
omissas aos problemas políticos e sociais. |
| Antidogmático |
Rejeitam
qualquer dogmatismo religioso. Não aceitam as doutrinas
e valores cristãos. Considerando-os desnecessários e
anacrônicos ao homem moderno. |
| Partidários |
Muitos
opositores do cristianismo e da moral cristã, são
partidários de grupos marxistas que ainda consideram o
cristianismo como atraso à civilização em constante
progresso. |
Para
Saber Mais:
ALMEIDA,
Abraão de. Teologia Contemporânea. 4 ed. ver. ampl., Rio de
Janeiro: CPAD, 2002.
BENTHO,
Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada. 3
ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
HORTON,
Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD,
1996.
PALMER,
Michael D. Panorama do pensamento cristão. Rio de
Janeiro: CPAD, 2001.
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