Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

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Lição 10 - O Materialismo e o Ateísmo


Esboço da Lição


Introdução

I.    O Materialismo e o Ateísmo

II.   O Materialismo e o Ateísmo na Sociedade

III. Refutando o Materialismo e o Ateísmo

Conclusão



“Cremos: Em um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas:  o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Dt 6.4; Mt 28.19; Mc 12.29)”


Palavras-chaves deste Estudo

Ateísmo; Ateu; Matéria; Materialismo; Razão; Racionalismo; Ceticismo; Agnosticismo; Teísmo; Epistemologia.



Introdução

“Em Hobbes, o racionalismo de Bacon se transformara em um ateísmo e materialismo inflexíveis; uma vez mais, nada iria existir, a não ser ‘átomos e o vazio’”, disseca Will Durant, concernente a ascensão do  racionalismo e o nadir da crença em Deus.

Neste subsídio discutiremos o tema da lição, primeiramente, definindo o étimo do termo ateu e seu desdobramento nas Escrituras. A seguir, conceituaremos o ateísmo e faremos uma síntese do pensamento de quatro filósofos: Nietzsche, Marx, Sartre e Camus. Não trataremos do materialismo em razão de este assunto já ter sido comentado em lições anteriores – motivo pelo qual entendemos não ser necessário repisar o assunto, uma vez que não resta muitas dúvidas quanto ao conceito principal.

 

I. Definição

1.1. Etimologia: O vocábulo ateu é formado pelo prefixo grego de negação a (“não”, “provação”, “negação”) e pelo substantivo theos, isto é, “deus” ou “Deus”. Literalmente atheos, significa “sem Deus”. A palavra “ateísmo”, no entanto, é formada pelos dois termos anteriores e o sufixo “ismo” que denota “doutrina”, “sistema”, ou “ensino”. O ateu é aquele que não crê em Deus, enquanto o ateísmo designa a filosofia ou os ensinos dos ateus.


a) Novo Testamento: O termo aparece uma única vez no grego neotestamentário em Efésios 2.12: “que naquele tempo, estáveis sem Cristo [chōris Christou], separados da comunidade de Israel e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem Deus [atheoi] no mundo”.  (grifo nosso). 

O termo grego atheoi, neste contexto, tem o sentido de “não pertencente a Deus”, “sem Deus”, em vez do significado corrente de negar racionalmente a existência de Deus, como o fazem os filósofos ateus. O tipo de ateísmo que este termo (que é um hapax legoumenon
[1]) descreve é o denominado “ateísmo prático”, ou seja, aquele que vive como se Deus não existisse ou que a divindade não tem qualquer significado para ele, quer exista ou não. Neste sentido, pode até mesmo ser uma pessoa teísta, mas que não conhece o verdadeiro Deus: “Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Co 8.5,6).

Observe que atheoi no texto de Efésios, não quer dizer que a pessoa assim referida não cria em alguma divindade, mas que ignorava a existência do Deus de Israel. É assim que devemos entender o advérbio de negação chōris, traduzido em diversas passagens por “separadamente”; “à parte de alguém”; “longe de alguém”. Literalmente a expressão chōris Christou, quer dizer “longe de Cristo”, “afastado de Cristo” e não antichristo, isto é, “contrário ou oposto a Cristo”. O texto de Coríntios não deixa de ser menos revelador. Paulo reconhece que as nações pagãs possuem suas divindades nacionais, entretanto,  há  um só Deus. Veja que estas não são culpadas de ateísmo, mas politeísmo, por não crerem no único Deus verdadeiro. A própria expressão theoi polloi, isto é, “muitos deuses” formam a palavra “politeísmo” [polli-teos] (cf. 1 Co 8.5). Portanto, à luz de Efésios 2.12, “sem Deus”, atheoi, quer dizer “sem o verdadeiro Deus de Israel”.Portanto, do ponto de vista histórico, o ateísmo em certas circunstâncias corresponde à rejeição de deuses privados ou de uma divindade em especial.

É assim, por exemplo, que devemos entender a acusação de ateísmo contra Anaxágora e Sócrates. O primeiro condenado de ateísmo por afirmar que o sol era maior que o Peloponeso e, o segundo, por corromper os jovens e negligenciar os deuses durante uma cerimônia de adoração. Até mesmo os cristãos foram considerados ateus no Império Romano. No século II, Justino fez referência a acusação de ateísmo contra os cristãos. Em sua Primeira Apologia escreve a respeito da turba colérica que gritava contra os cristãos “Morte aos ateus, morte aos sem-Deus”. Em resposta, o apologista sentenciou: “Somos ateus de todos os pretensos deuses”. Estas manifestações são consideradas como “pseudo-ateísmo”, uma vez que os envolvidos criam em alguma divindade, mas rejeitavam a forma grotesca, antropomórfica e pagã de certos cultos e religiões.

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[
1] Hapax legoumenon, significa “dito ou escrito uma única vez”. Quando este termo é empregado quer dizer que o termo relacionado aparece apenas uma vez nas Escrituras. Para saber mais sobre hapax legoumenon, suas divisões e os métodos de interpretação relacionados, consulte: BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. 3 ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.181-188.


b) Antigo Testamento: Não há no Antigo Testamento um termo hebraico próprio para expressar o conceito de ateu à semelhança do grego neotestamentário. Em Salmos 14.1, o nābāl, isto é, “o louco”, “insensato” ou “ateu” é aquele que vive como se Deus não existisse (cf. Sl 53.1). Este é o louco que blasfema contra o Senhor (Sl 74.18). O povo de Israel também é definido como ‘am nābāl, isto é, “povo insensato ou ateu” em razão de não reconhecer os grandes benefícios proporcionados pelo Senhor Deus de Israel (Dt 32.6). Nestas referências, o termo hebraico nābāl designa, provavelmente, não alguém que está sinceramente convicto de que Deus não existe, mas que está mal orientado quanto a existência de Deus. O texto da Septuaginta – tradução grega do texto hebraico – verte o termo hebraico citado por aphrōn, ou seja, “tolo”, “ignorante”. 

A expressão Ouk estin Theos, isto é, “Não há Deus” denuncia o estado de completa ignorância e tolice de quem assim pensa e vive. O ateísmo tanto prático quanto teórico é, segundo as Escrituras, a principal causa da corrupção e degeneração do homem (Sl 14; 53; Rm 1.18-32). O insensato que vive como se Deus não existisse ou que O confunde com a criação, possui um “coração insensato” (Rm 1.21). No original a expressão “coração insensato”  (asynetos kardia), é literalmente, “sem entendimento de coração”. Se considerarmos o termo kardia de acordo com idiomatismo hebraico,  podemos afirmar que o ateu ou insensato é “aquele que vive sem o conhecimento de Deus”. E, pelo que se depreende de uma leitura atenciosa de Romanos 1.18-32, o ateu ou ignorante é aquele que não conhece o Deus único e verdadeiro. Vários termos empregados por Paulo se relacionam diretamente a falta de episteme ou conhecimento correto acerca de Deus.

VERSÍCULO  

TERMO  SIGNIFICADO
v. 18    Apokalyptetai  Descoberto está   
v. 19      gnōston      que se pode conhecer
phaneron  manifesto
v. 20   nooumena      entendidas
v. 21        gnontes                  tendo conhecido
dialogismois   cogitações
asunetos  sem entendimento
v.22 sophoi   sábios
emōranthēsan   se fez estultos
v. 28   epignōsei      conhecimento sobre
v. 31   asunetous  sem entendimento
v.32 epignotes   tendo conhecimento sobre

 

1.2. Conceituação: O ateísmo é a doutrina filosófica que admite a não existência de Deus. Segundo o ateísta, não há qualquer prova relativa a realidade de Deus, pois as evidências pressupõem a não existência de qualquer divindade. 

Com o advento do racionalismo, os filósofos e humanistas seculares passaram a considerar o conhecimento religioso como uma espécie de conhecimento mítico, necessário à humanidade enquanto esta ainda estava em sua gênese. De acordo com a epistemologia ou teoria do conhecimento, o conhecimento religioso cumpria uma função teleológica, isto é, das causas e dos fins. Como o homem primitivo não sabia explicar as causas dos fenômenos físicos, atribuía a essas manifestações da natureza causas metafísicas ou divinas. No entanto, com a ascensão da ciência e do conhecimento não há qualquer necessidade de Deus ou de divindades para explicar os fenômenos físicos ou a existência do universo. É claro que há nesse princípio argumentativo, muito preconceito em relação ao que é ou não científico. Se entendermos, como pré-científico todo o conhecimento anterior à ciência moderna, onde fica a matemática, a lógica, a filosofia? Deixaram de ser ciência com o advento da modernidade? Se pré-científico deve ser entendido como anticientífico, isto é, como mito ou mágica, é muito mais provável que a ciência tenha sua gênese nessas manifestações religiosas do que o cristianismo. Se o “poder místico ou mágico” se refere a manipular as forças da natureza por meio de fórmulas, rituais, plantas e palavras, isto não seria uma pré-manifestação do tecnicismo, por meio do qual tudo se transforma?

Não se pode argumentar ad absurdum  que o cristianismo compactua com a magia, uma vez que a tradição cristã sempre se opôs a esse tipo de religiosidade. No entanto, o cristianismo não apenas admite como também ensina a intervenção divina nas forças naturais do universo. Mas não se trata de manipulação por palavras mágicas, mas da ação soberana da vontade de Deus. Os cristãos também ensinam que toda a criação foi criada por Deus com um propósito específico; que Deus Criou e estabeleceu as leis físicas que os próprios cientistas investigam.  Como teoria do conhecimento, o ateísmo distingue-se do ceticismo, do agnosticismo e do teísmo. Vejamos:

O Cético O Agnóstico O Ateu O Teísta
- Duvido que Deus existe.     

- Não tem certeza.

- Não é possível saber.

- Não é possível saber se Deus existe.

- Deus não existe.      

- Está convicto.

- Não há espaço para Deus.  

- Combate a existência de Deus.

- Deus existe.

- Está convicto.



II.
O Ateísmo e a Filosofia

A filosofia é uma das mais extraordinárias manifestações do conhecimento e da razão humana. No entanto, por várias vezes, recusou-se a admitir o verdadeiro conhecimento. Não há sabedoria e amor ao conhecimento quando se nega a existência de Deus: “Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho contra o SENHOR” (Pv 21.30). Célebres filósofos se equivocaram ao afirmar a não existência de Deus. Entre esses destacamos:

F. Nietzsche Afirmou categoricamente que os deuses estão se decompondo e que Deus está morto.
Karl Marx Escreveu que possuía ódio a todos os deuses e, que a religião é o ópio do povo
J. Paul Sartre Sentenciou que se Deus existe, o homem é um nada; se o homem existe, Deus não existe
Albert Camus Consolidou o conceito de Nietzsche de que Deus está morto é ponto pacífico e que o filósofo não matou a Deus, mas o encontrou morto em seus contemporâneos.



III. Características do Ateísmo Moderno

O ateísmo moderno possui como principais características:

Anticristão Não se opõe apenas as religiões, mas procura combater severamente o cristianismo. Para eles o Deus cristão é fraco e obsoleto.
Preconceituoso Para o ateu moderno os cristãos são pessoas incultas, fracas e omissas aos problemas políticos e sociais.
Antidogmático Rejeitam qualquer dogmatismo religioso. Não aceitam as doutrinas e valores cristãos. Considerando-os desnecessários e anacrônicos ao homem moderno.
Partidários Muitos opositores do cristianismo e da moral cristã, são partidários de grupos marxistas que ainda consideram o cristianismo como atraso à civilização em constante progresso.



Para Saber Mais:

ALMEIDA, Abraão de. Teologia Contemporânea. 4 ed. ver. ampl., Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada. 3 ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

PALMER, Michael D. Panorama do pensamento cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

 

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Veja também:
- Outras lições
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