Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

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Lição 09 - A Permissividade Pessoal e Social


Esboço da Lição


Introdução

I.     As Causas da Permissividade

II.   Os Instrumentos da Permissividade

III.  O Combate a Permissividade

Conclusão


"O Cristão e a Cultura da Mídia de Entretenimento"
Texto de Terrence R. Lindvall e Matthew Melton
Adaptado pelo Setor de Educação Cristã

Palavras-chaves deste Estudo

Cultura; Pecado; Valores Culturais; Discernimento; Transformação; Mídia; Entretenimento; Filmes; Novelas; Neognóstico.


Introdução

A Criação e a Queda — estas duas doutrinas definem nosso predicamento. Fomos criados bons, mas caímos. Ainda trazemos a imagem de Deus, mas esta está arruinada. Fazendo-nos como Ele, o Deus que fala (ou, como Francis Schaeffer escreveu, O Deus que não está em Silêncio) nos deu uma característica importante de sua natureza: Ele nos fez comunicadores. Ele também nos fez, na palavra de Tolkien, subcriadores. E como subcriadores, nossa obra de comunicação é a cultura. A primeira cultura do ser humano (como nos diz a Escritura) foi a agricultura, a chamada para cultivar um jardim, para colocá-lo em ordem. Então, no jardim, Adão, não Deus, nomeou os animais e criou uma cultura da língua humana. E Adão e Eva receberam o “domínio”, a responsabilidade de manter a ordem na sua cultura de jardim. Deus abençoou Adão e Eva com o mandamento cultural de reger a Criação, que Ele viu como muito boa (Gn 1.31).


I.
Discernindo os Valores Culturais

A cultura da mídia de entretenimento pode ser definida como uma mercadoria de valor empacotada. Os cristãos que entram nos templos do entretenimento popular têm de estar cientes de qual ideologia e valores estão sendo vendidos, de qual mensagem Hollywood e as telenovelas estão tentando vender.  


a)
Discernentes:
Para sermos discriminantes destes produtos, primeiro temos de ser discernentes. Algumas pessoas fazem uma pergunta preliminar: se devemos entrar em contato com a cultura popular. Para o cristão, todas as coisas, inclusive interagir com a mídia de entretenimento, são lícitas, mas nem tudo é necessariamente proveitoso ou edificante (1 Co 10.23; 16.12). Assim, enquanto Deus dá permissão para o espiritualmente maduro explorar e desfrutar nosso mundo, a sabedoria prescreve que exerçamos prudência e discriminação. Podemos assistir todos os filmes para a glória de Deus? Certamente que não. Muitos filmes seriam um impedimento definitivo para o nosso desenvolvimento espiritual. Exercer nossa liberdade ofenderá algumas pessoas? Provavelmente sim. Por isso temos de buscar o bem do próximo, fazendo escolhas conscientes sobre o entretenimento que vemos. 

b) Perspectiva Bíblica: E temos de nos perguntar: de certa perspectiva bíblica, isto é digno do meu dinheiro e/ou tempo? Contudo, não podemos simplesmente desligar o aparelho de televisão e nos considerar protegidos do seu impacto. Milhões de outras pessoas não o desligaram e, quer gostem ou não, tornam-se canais dos seus valores. Além disso, alguns cristãos podem ser chamados a trabalhar na cultura de entretenimento, ou como artistas ou críticos — para produzir mídia de entretenimento ou para criticá-la em toda a sua beleza e feiúra. Estas são vocações divinamente sancionadas, chamadas de Deus para interagir com uma indústria cujas ideologias e valores freqüentemente entram em conflito com os do cristianismo ortodoxo. É crucial estarmos preparados, pelo ensino são e com a toda a armadura de Deus, para vivermos e batalharmos em tal negócio que desafia os princípios cristãos. 

c) Cultura e Valores: A cultura vira suas placas sinalizadoras em direção aos ideais da verdade, sabedoria e beleza. Na era medieval, dramaturgos talentosos apresentaram peças de moralidade que entretinham enquanto instruíam, e hoje, o Book of Virtues (O Livro das Virtudes), de William Bennett, oferece uma compilação fascinante de contos antigos e novos, que enriquecem a alma humana. Na cultura contemporânea, os vândalos arruinaram as placas sinalizadoras, chegando até ao ponto de as colocarem para indicar o caminho errado. Algumas das novas sinalizações são feitas de néon; reluzem mas não iluminam: Não nos ajudam a entender qual caminho devemos tomar. Apontam para a atratividade física, o sucesso material e a realização individual em vez do bem eterno. Nas telenovelas, e seriados como Dinastia e Barrados no Baile, os espectadores ficam intrigados pelos perigos plásticos dos ricos e bonitos. Um aspecto espantoso de tais espetáculos é que endeusamos os atores, muitos dos quais retratam a cobiça, o adultério, o orgulho e vários outros vícios, num culto contemporâneo à celebridade.

d) Mídia e Comunicação de Valor: Todos veículos culturais populares do cinema aos vídeos de música comunicam uma crença ou valor. Todos expressam uma ideologia ou, como Richard Weaver demonstra, pregam um sermão de tipos. Algumas mensagens da mídia podem estar evidentes — mostrando os valores que claramente recomendam. Obviamente, os filmes cristãos clássicos como O Supercristão, de John Schmidt, são diretos em sua apresentação, como é uma obra-prima cinemática multinivelada como A Lista de Schindler, de Steven Spielberg. São veículos de comunicação inflexivelmente explícitos. O Supercristão prega que a pessoa interior é muito mais importante a Deus do que a imagem exterior chamativa; diz que a imagem não é tudo. A Lista de Schindler retrata o horror do Holocausto judeu, mexendo com nossa consciência para que nunca nos esqueçamos do que a inumanidade do gênero humano é capaz, a crueldade, o sofrimento. Temos de nos lembrar. Depois de assistir tais filmes, a pessoa não só foi entretida, mas também desafiada a pensar na mensagem. Outras mídias, igualmente sem intenção, comunicam indiretamente. Produtores, escritores e diretores comunicam freqüentemente seus valores em parábolas, estimulando a reflexão da audiência pela sutileza, ironia e ambigüidade. Alguns diretores tencionam que a audiência lute com o material que produzem e descubram, por si mesma os valores plantados nas histórias. 

e) Mensagens Culturais Não Intencionais: Finalmente, as mensagens culturais podem não ser intencionais, mas nem por isso são menos significantes. Independente se a produção é um filme de horror, comédia, drama, ou um comercial, pontos de vista ideológicos específicos estão sendo expressos com valores estéticos e morais. As audiências podem ler as atitudes morais em alguma imagem, mesmo que a mensagem no final das contas seja absurda. Como a Duquesa disse para Alice: “Ora vamos, criança. Tudo tem uma moral, é só você encontrar”. Um programa aparentemente irracional, como Beavis and Butthead, recomenda certo modo de olhar a realidade. Embora seja intencionalmente uma sátira da própria audiência da MTV, os espectadores, sobretudo as crianças, ainda podem ler outras mensagens morais, como fez o menino que botou fogo em outra criança depois de assistir determinado episódio. 

f) A Cultura de Mídia e Comportamentos: A cultura da mídia de entretenimento recomenda certo modo de olhar o mundo e oferece comportamentos específicos como modelos. Os cristãos que vêem a cultura da mídia de entretenimento têm de aprender a ler essas imagens e rejeitar as que são incompatíveis com os padrões cristãos e a Escritura.

II. A Sedução da Cultura

A cultura, como a natureza, detesta o vazio. Apressa-se em encher o vácuo do desejo humano. Nesse processo, as pessoas podem ser seduzidas pelo aparecimento da cultura popular, que são falsificações da voz de Deus. O vazio espiritual do coração (vazio que Agostinho via como inquietação até que se aquietasse em Deus) pode ser depressa, mas frivolamente enchido com a falsa religião da cultura popular, envolvendo a adoração do dinheiro, sexo, poder, objetos e fama. Nesta seção descreverei um cenário lúgubre para que não menosprezemos descuidadamente os perigos de nosso tema. Mas lembre-se, porquanto esta discussão trate do lado mais escuro de nosso tema, nem sequer a escuridão deve intimidar os filhos da luz. Os cristãos devem ser a luz do mundo, o que inclui o lado escuro de uma cultura de entretenimento freqüentemente irreligiosa.

a) A Sedução das Imagens: Simulacros, ou imagens virtualmente reais, podem facilmente nos seduzir. Começamos com um movimento lento e descuidado no ciberespaço, um mundo artificial e aparentemente infinito, onde os humanos viajam nas auto-estradas da informação e interagem digitalmente em vez de estarem face a face. Esta “nova” realidade é quase neognóstica (negando a realidade do mal), exaltando um novo tipo de espiritualidade, uma versão eletrônica, acima do mundo comum. Seus cidadãos preferem uma imagem artificial a uma pessoa de carne e osso, porque a imagem é mais fácil de manipular, em geral para o próprio prazer da pessoa. 

No antigo Israel, os portadores primários das mensagens narrativas e ideológicas eram os profetas e sacerdotes. Uma tentação ao povo hebreu era entregar esta função vital a influências pagãs. Os profetas advertiam repetidamente os hebreus dizendo que os ídolos pagãos eram meros paus e pedras; mesmo assim, esses paus e pedras eram muitas vezes sedutores. De modo análogo, as imagens dos filmes têm a capacidade de seduzir. Elas criam uma maneira de ver o mundo e moldar o espectador inconsciente no seu tipo de espectador. Como os ídolos antigos de madeira e pedra, nosso celulóide e imagens digitalizadas ativam as emoções e as respostas fisiológicas que adequadamente pertencem à vida real e à verdadeira adoração.

b) Mídia, Ideologia e Moralidade: Hoje, o vídeo e a mídia eletrônica tornaram-se portadores primários da ideologia e moralidade. A mídia de entretenimento busca pressionar a igreja e ser a autoridade dominante na comunicação de valores. Mas ainda mais significativo é que estas novas autoridades têm uma influência em nossa atenção que é mais poderoso, penetrante e constrangedor do que o da igreja. As estátuas e vitrais nas catedrais de Notre Dame e Chartres parecem mudas e silenciosas em comparação às imagens explosivas criadas pela indústria do cinema.

c) Cultura Popular e Impacto Visual: A cultura popular também é particularmente forte em seu impacto visual de outras maneiras. Apresentando, por exemplo, a forma feminina como imagem a ser consumida por espectadores, reduz toda mulher a uma mercadoria erótica e reconstrói o homem num voyeur, ou abelhudo, que comete adultério com a imagem. A deusa Aserá renasceu nas telas. Vivemos numa cultura de incredulidade, sexo, violência e morte. Vivemos num mundo de publicidade, artifício e cultos à personalidade. O fato terrivelmente perturbador é que a maioria dos espectadores conhece mais das celebridades do que dos vizinhos da casa ao lado, ou possivelmente até da própria família em que vive.

d) Cultura de Entretenimento e Heresia: A cultura de entretenimento sempre está nos oferecendo narrativas que celebram a heresia pelágica, a falsa doutrina de que os seres humanos são pessoas essencialmente boas. Esta heresia antiga, contudo moderna, permeia a cultura popular americana do século XX. O cinema clássico hollywoodiano está fundamentado no sonho americano, em que o indivíduo (geralmente homem) pode, por graça, força muscular, sorte, bondade inerente ou mera firmeza de caráter determinar sua própria salvação e destino. O racionalismo ocidental, o individualismo, uma crença dogmática na bondade dos heróis e a autodeterminação governam o padrão narrativo da maioria dos filmes de Hollywood. Os heróis (quase nunca as heroínas) atiram nos vilões, ganham as mulheres, destroem o universo mau e triunfam por sua própria habilidade e garra. São senhores de sua vida e do universo imaginário. O que o Rambo ou Rocky deseje, ele consegue. Mas tal ideologia opõe-se à doutrina cristã de estar perdido no pecado e em necessidade desesperada da graça de Deus e uns dos outros na comunidade da igreja. Não obstante, muitos filmes e programas de televisão pregam o contrário.

                                         e) Sedução Midiática: A sedução pela mídia pode ocorrer nos âmbitos teológicos, éticos ou até estéticos. O cinema e a televisão nos tentam com visões do mundo que são niilistas ou utópicas. Provocam-nos com histórias que dizem que nossas ações não têm conseqüência moral, que podemos escapar do salário do orgulho, da vingança, da luxúria, do roubo e de outros pecados. Ou procuram nos hipnotizar com imagens que sejam excessivamente românticas ou asquerosas.


No entanto, este poder sedutor não é mau em si, senão nos propósitos a que são usados. Os filmes também podem seduzir, encantar ou nos persuadir à bondade, coragem, caridade, esperança, fidelidade, santidade e prazer. Os filmes tão diversos quanto Forrest Gump, O Homem Elefante, O Príncipe do Egito, Amistad e A Lista de Schindler estimulam a reflexão e discussão saudáveis.


Reconhecendo o poder da cultura popular em persuadir, afetar, influenciar — e, sim, seduzir —, que modelos nos são disponíveis e úteis quando nos engajamos na cultura popular? Apresento a seguir dois modelos bíblicos que dão advertência clara sobre os perigos da cultura popular e diretrizes cuidadosas para participar nela.

III. O Modelo Discernente de Daniel

a) Criacionista e Conversionistas: A história do povo de Deus interagindo com a cultura popular oscilou entre o criacionista e o conversionista, as versões extremas das quais são o desesperadamente ingênuo e o rigidamente legalista. Há um problema em assumir só uma perspectiva. Nenhum modelo é por si só satisfatório. O criacionista pode ser muito ingênuo e não notar os efeitos da Queda em todos os seres humanos. Todos nós estamos aquém da bondade e nenhum de nós é imune à tentação. Mas o otimismo do criacionista é um cheque e equilíbrio necessários ao pessimismo do conversionista. Ao saber que o pecado está no mundo e em nós, tendemos a reagir legalistamente e, então, nos tornamos judiciosos. Buscamos nos separar de culturas que sejam diferentes da nossa. 

b) O Desafio Babilônico: A Babilônia era o centro de um império do antigo Oriente Próximo que estabelecia um nível de esplendor e beleza artísticas e arquitetônicas inigualáveis no mundo pagão. Os jardins da Babilônia eram uma das sete maravilhas (culturais) do mundo antigo. Os edifícios da cidade eram notáveis por sua arquitetura, e seus muros eram inconquistáveis e imponentes. O rei Nabucodonosor ostentou: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a força do meu poder e para glória de minha magnificência?” (Dn 4.30). A este centro poderoso e prestigioso da cultura chegaram certos filhos inteligentes de Israel, para servirem de servos civis da administração real. Um deles, Daniel, superou os outros. Ele representa um modelo para explorar a questão delicada e controversa de como o povo de Deus pode se relacionar com a cultura popular.

                                        c) A Cultura Imagética da Babilônia: A cultura de Babilônia, como a nossa, era opressivamente orientada a imagens. A estética dominante da cultura babilônica foi vista na construção de uma espetacular estátua de ouro que Nabucodonosor fez de si mesmo. Imagens esculpidas em ouro, prata, bronze, ferro, madeira, pedra e pinturas brilhantemente coloridas poderiam ser achadas em todo canto e recanto, orientando e governando a vida do grande império. Também como a nossa, a cultura deles encontrava consolo no misticismo, com videntes, mágicos, astrólogos, conjuradores e toda sorte de adivinhadores. Contudo, tal “sabedoria” não pôde evitar que Nabucodonosor ficasse louco e pastasse como um boi (Dn 4.28-33).

A cultura da Babilônia acentuava a beleza, a excelência, a inovação, a vaidade e a intemperança. Facilmente poderia ter seduzido um jovem religioso que caísse em seu regaço de luxúria. Contudo, Daniel criou uma contracultura consistente, que transcendeu a opulência babilônica. Num país de paganismo subjugante e atraente, o jovem israelita recusou firmemente a comida e os favores reais. Sua recusa era algo mais que o ascetismo de um purista. Era uma afirmação clara sobre coisas que realmente importavam — sua fé e herança hebraica.

d) O Exemplo de Daniel: Dois princípios chaves podem ser extraídos do exemplo de Daniel:

* Primeiro, ele estava bem firme em sua fé. Ele conhecia a lei de Deus intimamente. Depois de anos no cativeiro, Daniel e seus companheiros permaneceram solidamente fiéis à Palavra de Deus, não só quando a obediência deles significava correr contra a maré da cultura dominante, mas também quando significava que poderiam morrer por ela. 

* Segundo, Daniel viu e compreendeu a cultura babilônica com mais clareza do que a maioria iluminada dos seus contemporâneos. Ele era homem que possuía “o espírito dos deuses santos”, como a rainha, esposa de Belsazar, o descreveu. Era conhecido por estar cheio de “luz, e inteligência, e sabedoria”. Deus tinha dado a ele e a seus amigos conhecimento e inteligência em todo ramo da literatura e sabedoria; Daniel até entendia todos os tipos de visões e sonhos (Dn 1.17). Ele era a última palavra em tudo, o melhor crítico da mídia de seus dias. Chegava a descrever e interpretar sonhos que não tinha visto, prever futuro e interesses imperiais. Como tal, Daniel permanecia como protótipo recomendável para o povo de Deus que buscava interagir com a cultura popular, um equilíbrio entre a abordagem criacionista e conversionista. Daniel testava suas visões do mundo babilônico à luz da fé que tinha. Ele aceitava a cultura babilônica pelo que era e buscava entendê-la melhor que seus cidadãos. Mas quando exigiam que Daniel adorasse o rei ou qualquer coisa que a sua fé hebraica considerava inaceitável, ele rejeitava. 

* Daniel recebeu de Deus o dom de discernir a cultura babilônica e de saber o que era bom e o que não era. Com certeza a vida de oração de Daniel, o estudo da Escritura e o julgamento circunspeto servem para os cristãos contemporâneos de exemplo recomendável de como interagir com a cultura popular.


Para Saber Mais:

PALMER, Michael D. Panorama do pensamento cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

 

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- Outras lições
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