Conteúdo Adicional para as aulas de Lições Bíblicas Mestre
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

Subsídios extras para a lição A busca do caráter cristão
3º trimestre/2007


Lição 10 - Sara, uma mulher submissa



Leitura Bíblica em Classe

 Gn 12.4,5; 1 Pe 3.1-6



Introdução

I. Contexto da vida de Sara

II. O Caráter de Sara

III. Recomendações bíblicas aos maridos

Conclusão

Tema deste subsídio: Sarai: uma visão crítica da ação de Sarai 

Autor: Pr. Esdras Costa Bentho[i]



[i] Autor das obras Hermenêutica Fácil e Descomplicada e A Família no Antigo Testamento – história e sociologia, ambos editados pela CPAD. Visite o blog do autor: www.teologiaegraca.blogspot.com

 

Palavras-chave

Abraão; Sara; Sarai; Concubinato; Promessa; Fé.


I. Mais informações sobre a lição.

Introdução

A proposta deste ensaio é refletirmos a respeito de algumas considerações pertinentes à vida de Sara, principalmente no que diz respeito aos seus atos como esposa. Seguimos uma orientação diferente da lição, apresentando a influência de Sara em algumas decisões de Abraão, entre elas, o da concubinagem com Agar.  

 

 Sara, seu nome seu destino

O substantivo próprio Sara, é uma transliteração do substantivo hebraico śārâ, cujo sentido literal é "princesa", "rainha" ou "dama da corte". É o feminino de śar, isto é, "príncipe". 

O sentido, como é corrente em inúmeros textos onomásticos[i] é imediatamente informado: "e será mãe das nações; reis de povos sairão dela" (Gn 17.16). O nome "Sarai", do hebraico śārây, e "Sara", ao que parece, são cognatos, isto é, possuem um étimo comum. O sentido está muito mais no conceito estabelecido pelo próprio contexto do que no significado etimológico, uma vez que o sentido de śārây, segundo Strong, "dominadora", está no mesmo campo semântico de śārâ. [ii]  

Mas, assim como Abrão, "pai exaltado", tem seu nome alterado para "Abraão", "pai de uma multidão" (Gn 17.5), e com isto uma nova ênfase quanto ao destino e vida do patriarca, assim também em Sara é assinalado uma nova vida e missão. Sarai a estéril, será chamada e conhecida como "Sara, a mãe de reis e príncipes". 

O nome Sara enfatiza a função e participação da mulher de Abraão nas promessas e alianças feitas ao patriarca. A bênção sobre Abraão também é dádiva graciosa sobre a vida de Sara. O mesmo Deus que muda os nomes é o mesmo que transforma a história de vida e destino de seus filhos. O novo nome além de celebrar o pacto de Deus com Abraão, marca uma mudança de rumo na história dos povos. Reis e príncipes procedentes de Sara dirigirão a vida dos povos; o Messias, descendente de Abraão (Gl 3.16) regerá as nações hostis com vara de ferro (Sl 2).

Observe que em Gênesis 16.1 o nome Sarai aparece relacionado à esterilidade da mesma: "Ora, Sarai, mulher de Abraão, não lhe gerava filhos". Sob este nome estava condicionada a humilhação de esposa do patriarca. Embora "princesa", no que diz respeito à sua condição de mulher e de esposa, não era superior à condição da escrava egípcia, Agar: 

“Disse Sarai a Abrão: Seja sobre ti a afronta que se faz a mim. Eu te dei a minha serva para a possuíres; ela, porém, vendo que concebeu, desprezou-me. Julgue o Senhor entre mim e ti. Respondeu Abrão a Sarai: A tua serva está nas tuas mãos, procede segundo melhor te parecer. Sarai humilhou-a, e ela fugiu de sua presença” (Gn 16.5,6 – ARA). Voltaremos a esse episódio mais adiante, no entanto, aqui observamos que a condição de "princesa" da tribo era marcada pelo conflito de não gerar filhos. Em nossa obra, A Família no Antigo Testamento, dedicamos um capítulo para discutirmos as causas da poligamia entre os patriarcas hebreus, dos quais a esterilidade era uma das causas prementes.

Sarai e seu drama

O nome de Sarai está ligada ao drama da esterilidade (ver Gn 11.30), enquanto Sara à promessa da maternidade (cf. Gn 16.5,6; 17.15-22). Antes de tornar-se agraciada pela promessa divina, Sarai usou os recursos legais disponíveis para ludibriar a sua incapacidade física de gerar uma criança. Valendo-se de leis como as de Nuzi, ou de Hamurabi (veja a nossa obra Família no Antigo Testamento), Sarai pensara que em Agar resolveria o problema da esterilidade. 

Neste episódio observamos o quanto Sarai estava determinada a gerar uma criança, nem que para isso colocasse sua família em risco. Uma falha pela qual ela seria também lembrada. As ações da mulher cristã também determinam o modo como será lembrada. Por falta de discernir concretamente a vontade de Deus já apresentada a Abraão em Gênesis 15.1-6, Sarai convence seu marido a entrar em conúbio com a escrava Agar. O discernimento espiritual deve ser uma prioridade; os problemas cotidianos não devem ofuscar a visão espiritual da mulher que crê. Percebemos neste fato o poder de argumentação de Sarai e a influência da mesma sobre o patriarca. Uma mulher ardilosa ou sábia pode alterar os rumos de uma família ou nação. Sarai era uma mulher linda, porém ardilosa. A beleza é uma bênção, mas acompanhada de ardil é uma ferramenta austera (Et 2.2,16,17;5.1ss). Lembremos que a Abraão o Senhor falou diretamente impedindo-o de fazer seu escravo como herdeiro e também lhe fez uma promessa a partir de seu descendente natural (Gn 15.1-6; 17.1-10). Diz a Bíblia que Abraão "creu no Senhor, e foi-lhe imputado isto por justiça" (Gn 15.6; Gl 4.3), mas aqui observamos Sarai influenciando negativamente a fé do patriarca. Fato pelo qual Sarai lamentará profundamente. Sarai, como diz a nossa lição, era uma mulher submissa, no entanto, não podemos deixar de considerar seu poder de persuasão sobre o patriarca. Se Strong estiver certo quanto ao significado do nome śārây, "dominiadora", talvez nesse episódio possamos tirar uma ilação. Sarai era também uma líder na administração e organização dos escravos domésticos, razão pela qual escolheu friamente a escrava que seria concubina de Abraão.

Agar uma vez concebido e dado à luz uma linda criança, voltou-se contra Sarai, desprezando-a de sua condição de mulher e esposa. Pode ser que Agar pensasse que teria a primazia, pois estava gestante e não muito tempo depois seria mãe em lugar de sua senhora. Entretanto, a lei determinava que o filho seria entregue a Sarai, e esta, e não Agar, seria a mãe do menino. Com este ato Sarai comprometeu a linhagem santa e a descendência de Abraão; pôs em risco a promessa sobre a vida de Abraão. 

Cansada de ser humilhada e não podendo vender Agar a qualquer tribo beduína ou a outro parente, Sarai age de conformidade com o Código de Hamurabi, que implicitamente concedia à senhora o poder de tratar a escrava com austeridade. O preço de sua incredulidade era "pago em suaves prestações" de dor, agravo, descontentamento e aborrecimentos.

O vocábulo hebraico ‘ānâ (Gn 16.6) traduzido por “humilhou” (ARA) ou “afligiu” (ARC) é a mesma que descreve o sofrimento dos judeus no Egito em Êxodo 1.11 o que pode significar que Sarai não apenas afligiu Agar verbalmente, mas também lhe dando atividades que não era capaz de executar, embora isso não descarte o espancamento ou a tortura física.[i] A incredulidade é o atalho mais curto, porém o mais perigoso e doloroso. Neste episódio, Sarai, a despeito da vontade do patriarca ordena que expulse a escrava e o seu filho Ismael (Gn 21.14-21). Abraão resignado, consente (Gn 22.11). Deus manifesta-se ao patriarca, a fim de orienta-lo (Gn 22.12). Baseados nesse texto, afirma os exegetas hebreus que Sarai era melhor profeta do que Abraão.

 

Esdras Costa Bentho

www.teologiaegraca.blogspot.com


[i] BENTHO, Esdras Costa. A família no Antigo Testamento: história e sociologia. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.29,30.


[i] Textos onomásticos na exegese bíblica referem-se às perícopes bíblicas que descrevem as mudanças de nomes dos personagens, seguidos de sua interpretação.

[ii] Etimologia ou étimo em hermenêutica refere-se à origem, raiz e genealogia da palavra investigada.

 

 

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