Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

Subsídios extras para a lição As Doutrinas Bíblicas Pentecostais
3º trimestre/2006


Lição 10 - O Espírito Santo e a Obra Missionária



Leitura Bíblica em Classe

Atos 13.1-9, 11, 12


Esboço da Lição

Introdução

I.    A Grande Comissão

II.   A Urgência da Obra Missionária

III.  A Assistência do Espírito na Grande Comissão

Conclusão


Tema deste Subsídio

Projeto Missionário Pentecostal.

Autor

Robson Brito é líder da AD em Maringá (PR), bacharel em Teologia e Direito, licenciado em Letras, Mestre em Teologia e conferencista.

Palavras Chaves

Missões; Missiologia; Evangelical; Pentecostalismo.

Introdução

“Não atravessaria a rua para levar à Índia uma nova teologia; a Índia tem mais teologia do que ela mesma possa entender. Não atravessaria a rua para levar à China um novo código de ética; a China conta com uma imensidão de códigos morais. Não atravessaria a rua para levar ao Japão uma nova literatura religiosa; o Japão dispõe de uma rica literatura religiosa, mais expressiva até que sua própria vida religiosa. Mas, iria, em volta do mundo, agora e em outras oportunidades, segundo a vontade divina, para proclamar à Índia, à China, ao Japão, à África e ao resto do mundo que: ‘Há uma fonte carmesim/ que meu Jesus abriu/ no dia em que na cruz por mim/ morreu e me remiu’”.            

            Com essa linguagem poética, W. F. McDowell deixa implícitos alguns conflitos que têm ocorrido nesses tempos pós-modernos que envolvem a ação da igreja para fora de suas fronteiras geográficas, bem como mostra qual é o cerne da mensagem da Grande Comissão, que temos a obrigação de proclamar até os confins da Terra. 

Há mais de um conceito dessa ação da Igreja. Por isso, a seguir, veremos a distinção entre os projetos missionários romanistas, o ecumênico e o evangelical a fim de salientarmos o projeto missionário pentecostal.

 

Projeto Romanista

            Os católicos romanos tentam agir missionariamente pelo exposto no Concílio Ecumênico Vaticano II, a maior convocação de bispos da História (de 1962 a 1966, em Roma). Nesse conclave, os romanistas expuseram a preocupação e o desejo de avançar com seus dogmas por todo o planeta, dizendo estarem dispostos a dialogarem com todos os povos e solidarizando-se com os mais pobres.

            Na missiologia católica, vemos que na prática missionária há alguns conceitos extremamente errados, os quais ainda são praticados – principalmente aquele que decreta que “fora da Igreja Romana não há salvação”.

 

Projeto Ecumênico

            O entendimento ecumênico sobre Missão passou a ser paulatinamente construído a partir do final  do século 19 e no início do século 20. Foram realizadas três outras conferências mundiais de Missão pelos protestantes tradicionais: em Liverpool (1860), em Londres (1888) e em Nova Iorque (1900). Todavia, o marco principal para a construção de um conceito ecumênico de missão foi a Conferência de Edimburgo, em 1910. Esse conclave se torna o marco inicial do movimento ecumênico mundial.

            Foi uma enorme conferência, politicamente correta, porque procuraram não discutir temas conflitantes e nem tomaram quaisquer resoluções de caráter doutrinal ou eclesiológico. No relatório final desse encontro, fala-se “da necessidade de procurar implantar, em cada país não-cristão,  uma Igreja não dividida”. Até a realização dessa conferência, houve um processo que envolveu as sociedades missionárias e os respectivos missionários que estavam espalhados pelo mundo. Na seqüência, foram realizadas outras conferências, sendo uma das últimas em Salvador (1996). Em linhas gerais, podemos afirmar que, nesses conclaves, o conceito ecumênico de Missão foi-se transformando, paulatinamente, sempre de acordo com a perspectiva que atendia ao projeto missionário do momento. 

            O conceito de missão ecumênica está no propósito declarado do Conselho Mundial de Igrejas, que é trabalhar uma paz mundial e ter um mundo mais justo e uma sociedade participativa. Mas, é preciso que se diga que a teologia produzida nos referidos concílios não está embasada nas Escrituras. Pelo contrário, fere princípios inegociáveis. Ainda que ela use o mesmo vocabulário que usamos, sua nomenclatura tem outro sentido. Ela não leva muito a sério a salvação eterna, bem como a doutrina da punição eterna. A Bíblia é usada muito fora de contexto.

            O CMI é muito influente em algumas igrejas (especialmente tradicionais) do Terceiro Mundo, porque ele forneceu a essas igrejas um status que elas não tinham no passado, principalmente suporte financeiro para muitas causas, principalmente as que eles dizem ser “de libertação de regimes opressivos”.

 

Projeto Missionário Evangelical

            O termo “evangelical” é utilizado por Billy Graham desde os anos 50. O termo surgiu para designar as igrejas e teólogos que não são nem liberais e nem tão pouco fundamentalistas, pelo menos no contexto norte-americano. 

           No Brasil, a expressão “evangelical” é usada descuidadamente como sinônimo de protestante. Um dos maiores expoentes dentro do evangelicalismo é John Stott, pastor anglicano, autor de 34 livros e um dos expositores bíblicos de maior renome entre os evangélicos. Stott foi redator do Pacto de Lausanne. Reconhecidamente hábil na liderança e nas teses que desenvolve em seus livros e palestras, ele tem tido boa aceitação no Brasil. Até mesmo nossa CPAD publicou uma ótima obra dele.

            Os evangelicais, a partir da Grande Comissão, admitem que o envio de missionários a todas as nações do globo terrestre é de máxima importância. Para eles, a missão é um instrumento da ação divina na História para a consumação de seus propósitos às criaturas humanas. Porém, a missiologia da maioria dos evangelicais é influenciada por sua visão escatológica. De um lado, os evangelicais pós-milenistas entendem que o milênio é de um tempo indeterminado e não localizado geograficamente neste mundo, de modo que onde há indivíduos que recebem Cristo e reconhecem sua soberania sobre suas vidas, aí está o Reino de Deus. Com certeza, essa forma de entender a Escatologia também influencia a falta de vontade de alguns em fazer missões.

            Por outro lado, os que são amilenistas acreditam que o número mil de “milênio” é simbólico e deve ser entendido como um tempo de “completude absoluta”, que fica entre a Primeira Vinda e a Segunda Vinda de Cristo. Ele governa simbolicamente no coração dos homens. Em função disso, alguns amilenistas acabam reduzindo a missão evangelizadora em missões sociais. É  preciso admitir que boa parte do investimento em Missões no mundo é feito por este grupo. Para os evangelicais, a Missão não é a simples “proclamação” do plano redentor salvífico, mas também a proclamação de todos os atributos que constituem este Reino. Por isso, alguns deles criticam a nós, pentecostais, acusando-nos de pregar um Evangelho que somente salva a alma, mas que não salva o corpo (aspecto social) e tão pouco a mente (aspecto emocional).

Dizem que reduzimos o amplo conceito de Missão à evangelização, em sua forma puramente proselitista.             

            Alguns evangelicais chegam a declarar que o conceito de Missão como puramente o envio de missionários às terras distantes ainda não cristianizadas perdeu seu sentido. Para eles, essa prática é “obsoleta”. Chegam a dizer que há um sensacionalismo nos pentecostais, quando propomos uma evangelização até os confins da Terra. Julgam que isso é uma continuação da Teologia de Missões (catequética e proselitista) da Igreja Romana desde seu período medieval.

            De certa forma, têm razão quando dizem que o Evangelho não pode ser pregado apenas em palavras. Esse conceito foi amplamente defendido e explorado a partir do notório Congresso Internacional de Evangelização Mundial em Lausanne, Suíça, entre 16 e 25 de julho de 1974. Nesse evento, Missão tomou o seu sentido mais amplo, como aquela que exerce atividade profética sobre a sociedade.

             Os congressistas chegaram à conclusão da necessidade de se pregar o Evangelho aplicando seu conteúdo em todos os seguimentos da sociedade, como na luta contra as misérias sociais, corrupção política, econômica, entre outras. A partir desta visão, foi que Stephen Neill declara que “a era das missões chegou ao fim, começou a era da Missão”. Na perspectiva missiológica evangelical, a Missão tem sua essência voltada para o alcance não apenas do homem pecador (indivíduo), mas também da sociedade pecadora.

                   Atualmente, no Brasil, na opinião do ex-batista, hoje assembleiano, educador em Teologia, Eduardo Sales, o projeto missionário evangelical continua apoiado sobre o pensamento antigo, sem respeitar a cultura do destinatário, porque não perceberam a realidade vivencial de missões, e estão presos ao aspecto conceitual ou voltados unicamente para a perspectiva social. Embora afirmem as idéias do Concílio de Lausanne, na prática, missões, para eles, tem se tornado um movimento mecânico. Semelhante à estrutura romanista, “levam o Evangelho aos bárbaros”, vão até os confins da Terra, exploram a Janela 10x40, mas não valorizam o indivíduo, e sim o conteúdo.

Projeto Missionário Pentecostal

            Não seria exagero dizer que os pentecostais constituem o povo mais apaixonado por missões. Há um apego deliberado aos textos sagrados, onde aparece a chamada Grande Comissão. Vemos na Bíblia de Estudo Pentecostal que essa incumbência compromete todos os seguidores de Cristo, em todas as gerações, também declara o alvo, a responsabilidade e a outorga da tarefa missionária da Igreja. 

             Para os editores da BEP, a igreja deve ir a todo o mundo e pregar o Evangelho a todos, em conformidade com a revelação do Novo Testamento, da parte de Cristo e dos apóstolos. Essa tarefa inclui a responsabilidade primordial de enviar missionários a todas as nações (At 13.1-4).

            Os pentecostais entendem que a intenção de Cristo não é simplesmente o crescimento numérico de sua Igreja e nem cristianização da sociedade ou muito menos assumir o controle do mundo, mas, sim, que seus seguidores façam discípulos Dele. Entretanto, ressalvam que os seguidores obedientes de Jesus devem ir a todas as nações e testemunhar somente depois que do alto sejam revestidos de poder conforme Lucas 24.49 e Atos 1.8. John V. York também faz essa mesma análise quando declara que os pentecostais “vêem o poder do Espírito Santo não como algo emocional, mas como uma benção disponível a todos os crentes verdadeiros como um meio de realizar a colheita. E este mesmo Espírito os capacitará para ministrar às necessidades dos que clamam enquanto levam o Evangelho a todas as nações”.             O pastor Loren Triplet, diretor executivo da Divisão de Missões Internacionais das Assembléias de Deus, em Springfield, Missouri, Estados Unidos, em seu texto De volta ao básico em Missões, expõe que o Movimento Pentecostal sempre levou a sério esse mandato de ir até os confins da Terra. Para ele, a Grande Comissão não se trata de uma grande sugestão; é uma ordem inalterável e literal. Certos fatores básicos fornecem os fundamentos de nossa visão e dever mundiais a todos os povos da Terra. Triplet nos lembra que o derramamento do Espírito Santo, ocorrido no início do século 20, assumiu responsabilidades e visão missionárias imediatas. Havia uma força motriz dentro daquele avivamento que só pode ser explicado pelo poder do Espírito.

            O novo avivamento pentecostal espalhou-se rapidamente ao redor do mundo. Triplet vai fundo em seu conceito quando preceitua que o pastor pentecostal cumprirá melhor suas responsabilidades da Grande Comissão se entender e praticar a verdade da capacitação da Grande Comissão. O missiólogo americano é contundente: “O pastor pentecostal que não leva a igreja a obedecer mundialmente à Grande Comissão é, em termos, uma contradição. O pastor pentecostal terá um coração missionário e reconhecerá que recebeu esse coração missionário,  quando foi batizado com o Espírito Santo. Ser pentecostal é ser missionário”.  

            George W. Peters apresenta o conceito defendido por W. O. Carver que define missões como “a extensa realização do propósito redentor de Deus em Cristo Jesus através de mensageiros humanos”. Para o próprio Peters, “Missões é a objetivação progressiva do propósito eterno e benevolente de Deus que se origina em seu próprio ser e caráter e envolve todas as eras, raças e gerações. (...) É a efetivação histórica da salvação de Deus obtida em nome de toda humanidade através de Cristo Jesus devido a sua encarnação, morte e ressurreição. (...) É a realização prática da obra do Espírito Santo neste mundo em nome do eterno propósito de Deus e da aplicação efetiva da salvação, obtida através de Cristo Jesus nas vidas de inúmeros indivíduos, tribos, povos e inúmeras famílias”.

Opção Pelo Engajamento

            O projeto missionário pentecostal parece ser o que mais privilegia o trabalho de cada crente das milhares comunidades de fé esparramadas pelo mundo. As igrejas que vivem o genuíno Movimento Pentecostal estimulam seus membros à verdade de que missões não é tarefa de um grupo seleto de clérigos.

Cada crente é desafiado a ser uma testemunha de Jesus por ter a virtude do Espírito e simplesmente por que Jesus determinou que fôssemos até os confins da Terra (At 1.8). Vemos que, ao agirem assim, os pentecostais mostram, mesmo que inconscientemente, que o modo de entender missões remonta ao que Deus fizera com o movimento dos irmãos morávios, liderados pelo conde Nicolaus Ludwig von Zinzendorf. 

            A esse respeito Kenneth Latourette afirmou que o século 19 (grande século das Missões) foi marcado pelo despertamento missionário. Naquela época, esse movimento deu uma nova vitalidade às Missões devido às suas características peculiares: (1) Cada cristão deveria entregar-se totalmente a Cristo para trabalhar em qualquer lugar do mundo e com total amor à família humana. (2)Cada cristão é um missionário e deve compartilhar sua fé onde está. (3) Cada missionário é um trabalhador e sustenta a si próprio e sua família.

            Teólogos respeitados do Movimento Pentecostal implicitamente admitem a missio Dei, mas sempre enfatizam a necessidade do revestimento de poder para realizar a missão de Deus. Na obra Teologia Sistemática, editada por Stanley Horton, vemos o capítulo escrito por Byron D. Klaus (Presidente do Seminário Teológico da Assembléia de Deus em Springfield, Missouri) no qual cita que para o cristão realmente entender o que ele realmente é, faz-se indispensável a afirmação de que a missão da reconciliação, revestida pelo poder do Espírito Santo, fornece a essência de nossa identidade: “Somos um povo vocacionado e revestido pelo poder do alto (At 1.8) para sermos cooperadores de Cristo na sua missão redentora”. Klaus cita Ernest Swing Williams, que, corroborando com essa idéia, defende que, a partir desse raciocínio, “o que significa ser um pentecostal está pelo menos parcialmente incorporado à avaliação da natureza e do resultado do batismo no Espírito Santo, conforme registrado em Atos 2. Os pentecostais têm afirmado historicamente que esse Dom, prometido a todos os crentes, é o poder para a missão”. 

 

            Byron D. Klaus ainda apresenta uma consideração interessantíssima feita pelo célebre missiólogo pentecostal Melvin Hodges, que declarou que os pentecostais recebem esse nome “porque acreditam que o Espírito Santo virá aos crentes nos tempos atuais assim como veio aos discípulos no Dia de Pentecostes. Um encontro desse tipo resulta na presença poderosa do Espírito, que passa a assumir a liderança. O resultado também inclui manifestações evidentes do seu poder para redimir e para levar a efeito a missão de Deus”. 

            Muito relevante é o pensamento de John V. York, que, na obra Missões na era do Espírito Santo, declara que o conceito de missão na perspectiva dos pentecostais é definido a partir de seis paradigmas que enfatizam a identidade pentecostal. 

Para esse missiólogo, que deu 25 anos de sua vida na missão na África, o primeiro paradigma refere-se ao fato de que os pentecostais acreditam que o Espírito  Santo tem sido derramado sobre a Igreja como um revestimento de poder para discipulado das nações.

            Em segundo lugar, a experiência pentecostal resulta na convicção do pecado. Quando as igrejas não crescem, a abordagem pentecostal desse problema é mais freqüentemente espiritual do que metodológica: os crentes jejuam, oram e partem em busca dos perdidos em seu meio até que algo mude.

 

            O terceiro paradigma é uma forte identificação com os pobres, os sofredores e os marginalizados da sociedade. Um quarto aspecto dos pentecostais reside no fato de que eles têm sido sempre o povo dos milagres. Para York, em geral, os pentecostais enxergam seu próprio movimento como algo que veio para corrigir: no sentido de restaurar na Igreja o senso do sobrenatural roubado pelo Iluminismo. E, nessa perspectiva, outro padrão é que os pentecostais esperam que haja crescimento. Outro aspecto do paradigma pentecostal de missões é um resgate efetivo do sacerdócio universal dos crentes. Uma última marca do modo de ser da missão pentecostal é a sua ênfase na centralidade da Bíblia como sendo a Palavra escrita de Deus.

 

            Portanto, o conceito de Missões na perspectiva pentecostal é o que tem motivado o reavivamento e o crescimento das igrejas pentecostais ao redor do globo, especialmente nos países do Terceiro Mundo. Isso é um eloqüente testemunho de que a forma de entender a Grande Comissão, por parte do povo que tem se aberto para o enchimento do Espírito Santo, tem operado em grande parte promovendo o Reino de Deus pelos quatro cantos da Terra. David Barret informa que o Movimento Pentecostal/Carismático cresceu de 16 milhões, em 1945, para 405 milhões, até 1990. Devemos glorificar a Deus, com humildade e com senso de responsabilidade por Jerusalém, por nossa Judéia, por nossa Samaria e até pelos confins da Terra, mas podemos ser motivados apenas pela verdade de que as dez maiores igrejas no mundo são pentecostais. 


 

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