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Leitura
Bíblica em Classe
1 Co 12.1,4-11,28; Rm 12.6-8
Esboço da
Lição
Introdução
I.
Generalidades sobre os Dons Espirituais
II.
Explanação e Classificação dos Dons
III.
Responsabilidade quanto aos Dons
Conclusão
Tema
deste Subsídio
Dons Espirituais: Reflexões pastorais sobre a
interpretação e uso dos dons
Autor
Pr. Gordon
Chown é missionário britânico no Brasil, professor de
Hebraico, tradutor de diversas obras teológicas e das notas
da Bíblia de Estudo Pentecostal e autor da obra Gramática
Hebraica (CPAD).
Introdução
Ao ser convidado a preparar um artigo, meus
pensamentos foram passando pela literatura lida e escrita
sobre os dons espirituais, durante anos passados, inclusive
pela minha atuação como intérprete e ajudante de missionários
estrangeiros em campanhas de cura
divina. (Aliás, é bom lembrar que hoje, há grande aceitação
mundial dos missionários avivalistas provenientes do Brasil
– talvez o maior país exportador de reavivamento).
Essas lembranças porque, na data do convite, minha tese Os
Dons do Espírito Santo, escrita em caneta e tinta em fins
de 1963, e posteriormente publicada em várias tiragens por
diferentes editoras, acabara de ter uma edição revista lançada
na 17ª Bienal do Livro em São Paulo, em abril de 2002. A
mesma editora me pediu, com urgência, para traduzir
imediatamente em seguida, um livro chamado Os Dons
Milagrosos são para Hoje?, fruto de um simpósio dirigido
pelo Dr. Wayne Grudem, com mais quatro participantes de grande
fama e capacidade. Nele, havia citações de quase uma dúzia
de livros em inglês que já existiam em português, e aos
quais fui consultando. Inclusive algumas dessas obras estive
envolvido desde 1969, tais como Eles falam em outras línguas,
de John Sherrill e Vai, Disse-me o Espírito, de Davi
Duplessis.
Pois bem, foram quarenta dias intensivos nessa
tradução, com as leituras paralelas, e foram trazidas à
mente muitas lembranças, tanto da prática, quanto de alguns
debates religiosos em nível das igrejas. (Tomo a liberdade de
adiantar para possíveis leitores da obra de Wayne Grudem, que
a meu ver, todo o peso da argumentação teológica, enaltece
o Espírito Santo, e que mesmo o “menos pentecostal”
reconhece todos os milagres nos tempos de Jesus e dos apóstolos,
e a operação do Espírito Santo hoje, inclusive na cura
divina).
1. O Cessacionismo
Um dos assuntos levantados, ao lidar com o
volume traduzido agora, foi o “cessacionismo,” defendido
por um dos participantes do debate. É a teoria de que muitos
milagres, bem como dons espirituais, existiam em função da
formação do cânon do Novo Testamento – quer dizer que
houve um poderoso derramamento de milagres na vida de Jesus, e
dos apóstolos, mas que cessou depois de encerrado o cânon do
Novo Testamento. A idéia é que os milagres confirmaram a
divindade de Cristo (fato este que está fora de dúvida) e,
semelhantemente, confirmaram a origem divina da atuação e
doutrina dos apóstolos (outro fato inabalável).
Tudo isso concorreu para os registros em todos
os livros do Novo Testamento serem reconhecidos como obra legítima
e permanente de Deus, parte integrante das Escrituras
Sagradas. E isso também é certo. Quando me converti a
Cristo, a conversão envolveu a aceitação da inspiração
plenária, inerrância e infalibilidade da Bíblia. Inclusive
entendo que qualquer conceito da Bíblia que não a reconhece
assim, está fora do arraial do cristianismo.
a) Quando cessou a atuação do Espírito na Igreja? Só que é mais difícil entender como o cessacionismo vai
explicar em qual momento, uma vez completadas as Escrituras, o
Espírito Santo, de quem elas falam e que justamente foi
prometido por Jesus à Igreja, antes da sua crucificação e
ascensão, especificamente para continuar com os fiéis, para
fazer as vezes de Jesus, de ser sua presença real entre nós
hoje – quando teria cessado a atuação do Espírito Santo?
O cessacionismo quer declarar que os dons milagrosos do Espírito
Santo cessaram com a morte dos apóstolos e com a definição
do conteúdo do Novo Testamento.
b) Cânon Fechado. A intenção dos
cessacionistas parece ser preservar o “cânon fechado”
contra novas revelações que se colocariam de encontro com o
Novo Testamento que possuímos. Contudo, nenhum crente
pentecostal, que eu possa imaginar, está pensando que algum
dom de profecia ou de línguas com interpretação vá
diminuir, substituir, ou acrescentar à Bíblia que, por si só,
é obra do Espírito Santo. Jesus disse, ao prometer a vinda
do Espírito Santo aos fiéis, que seria para nosso bem que
Ele iria embora. Foi para poder nos enviar o Espírito Santo (Jo
16.7), que estará conosco para sempre (Jo 14.16). E a atuação
do Espírito Santo fica semelhante àquela narrada nos
Evangelhos e em Atos. “O Espírito Santo que o Pai enviará
em meu nome lhes ensinará todas as coisas
e lhes fará lembrar o que eu lhes disse”, Jo 14.26.
Este texto refere-se ao conteúdo didático. A aplicação de
ensinos existentes está em: “Aquele que crê em mim fará
também as mesmas obras que tenho realizado. Fará
coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o
Pai”, Jo 14.12. Que é o conteúdo prático, já que o Espírito
Santo confirmava com milagres a divindade de Jesus e a
doutrina dos apóstolos. Ele continuará com a confirmação
dos mesmos fatos, por onde quer que os cristãos levarem a fé.
2. Línguas em Atos 2
Nos debates sobre a palavra “línguas” em
Atos 2, vejo que é incomum reconhecer que se trata de duas
palavras no original. Há chamas em forma de “línguas”
(v3). Há palavras
faladas com a operação do Espírito Santo sobre a língua física
humana – “línguas” (v4). O que o povo ouviu nessa ocasião,
eram “idiomas” (grego dialektos) (v. 6 e 8). E o
resumo é que o povo escutava as glórias a Deus sendo faladas
nas suas próprias “línguas” – o dom de línguas em
operação, com a interpretação milagrosa fornecida pelo Espírito
Santo.
Notei na exegese teológica em Cambridge a
desculpa, para não levar em conta a atuação sobrenatural do
Espírito Santo, é que é “imponderável” e um fator difícil
de medir. Daí me ocorreu que a diferença entre o orçamento
para construir uma casa num terreno, e para fazer obra idêntica
debaixo do mar, também seria bem complicada – mas isso não
quer dizer que o mar não existe!
Vejo que os escritos dos Profetas canônicos na
Bíblia atacam abertamente o suborno, a corrupção e muitos
males da sociedade moderna, mas parece que há pessoas que
procuram mais “futurologia” do que instruções
para a ética na vida pessoal e coletiva. Entendo que
“profecia” é mais “falar da parte de Deus” às
pessoas. As pessoas que acham que os dons espirituais não
devem existir hoje, estão mais preocupadas com o dom da
profecia, por pensarem que possa surgir nova revelação além
da Bíblia, e até mesmo contrária a ela.
Mas, em primeiro lugar, entendo que, mediante a
inspiração do Espírito Santo é que a Bíblia é infalível,
inerrante e de inspiração verbal plenária. Portanto,
nenhuma mensagem proveniente do Espírito Santo estaria
contraditória às eternas Palavras de Deus.
Classifico como seita herética qualquer grupo
que vai inventando “novas profecias” para tomar o lugar da
Bíblia ou mesmo para existir em paralelo a ela. Nada de “Bíblia
mais Papa”, “Bíblia mais Livro de Mórmon” , “Bíblia
mais Helen White”, “Bíblia mais a interpretação dos
russelitas”, nem sequer “Bíblia mais teólogos”, pois
onde existir mais carne humana, a própria Bíblia acaba sendo
desrespeitada, e seu Autor, o Espírito Santo, repudiado.
Certamente deve haver uma caminhada lado a lado dos dons com
os frutos do Espírito Santo. E o poder do Espírito Santo com
a vida espiritual semelhante à de Jesus Cristo, que enviou o
Espírito para nos tornar reais a pessoa e as palavras Dele
mesmo.
Pensando na responsabilidade de cada crente ler
bastante a Bíblia, por conta própria, deixando o Espírito
Santo falar ao seu coração, deparei no título de um livro: A Libertação da Teologia, e consegui adquiri-lo,
imaginando que se tratasse da fé íntima que não dependeria
demais dos sistemas teológicos organizados. Tinha muitas páginas falando de
“espiritualidade” intercaladas com outras sobre a teologia
– mas a “teologia” atacada era o próprio estudo
individual das Sagradas Escrituras! Classifico como
espiritismo semelhantes conceitos.
Vejo a obra do Espírito Santo brotando da fé
bíblica, da conversão, da santificação – sendo todas
estas, por si só, são milagres do Espírito Santo – mas
acho que buscar visões, milagres, sinais sem instrução bíblica
na igreja, sem leitura bíblica devocional prolongada e
fervorosa pelos membros, fazem com que os alicerces fiquem
fracos.
3. As Profecias
3.1. No Antigo Testamento
Quanto à profecia, sem se tratar de mensagens
inscrituradas de modo perpétuo através do Espírito Santo,
vemos grande quantidade de profetas, profecias, e profetizar
nos livros históricos da Bíblia. Esses livros eram chamados Os
profetas anteriores pelos judeus antigos – desde Josué
até Neemias – principalmente porque neles surgiam, de
tempos em tempos, e sem aviso prévio, servos de Deus (muitos
deles anônimos) que interviam com mensagens da parte de Deus,
ou que inclusive dominavam a narrativa por algum tempo, tais
como Samuel, Elias, Eliseu. E também havia grupos de
profetas, escolas de profetas, dos quais se diz apenas que
“profetizavam.” Até mesmo temos Saul “profetizando”,
sem prever o futuro nem ditando Escrituras.
No contexto histórico, esse verbo dá mais a
impressão de fervoroso louvor e glorificação. Nenhuma
tentativa de concorrer com novas doutrinas. Por contraste com
os “Profetas Posteriores” – de Isaías até Malaquias
– cuja doutrina é registrada por toda a eternidade.
3.2. No Novo Testamento
Semelhantemente, no “dom da profecia” no
Novo Testamento, temos profecias “ad hoc” – aplicadas à
situação momentânea de uma ou mais pessoas, sem
transmitirem nova doutrina – é somente “adiáfora” matéria
que não faz diferença ao conteúdo da fé. O contexto é
idealmente uma reunião da igreja, com leitura bíblica, pregação,
louvor, orações espontâneas, com a presença do Espírito
Santo em plena manifestação (e não uma presença
“alegada” como no caso de um Concílio do Vaticano). Num
culto assim, surge milagrosamente uma mensagem de profecia, ou
em línguas, seguida de interpretação, que é exatamente o
que alguém está precisando naquele exato momento – e é
pelo Espírito que esse alguém reconhece que se trata de Deus
falando ao seu coração. Acaba sendo um duplo milagre –
assim como em Atos 2, os apóstolos falaram segundo o dom das
línguas milagrosas, e os circunstantes entendiam segundo seus
idiomas ou dialetos maternos. Repudiável seria fazer um
registro de semelhantes mensagens, e guardar na igreja como
uma preciosidade perpétua; já ouvi, também, de
“profetisas” abrirem “consultórios” particulares, de
profecias sob encomenda – até pagas! É melhor ter os dons
no seu ambiente espiritual, como flores no seu próprio
canteiro.
Minha experiência mais notável de uma
profecia, ou mensagem de Deus, através de línguas com
interpretação, foi ao ser batizado na Assembléia de Deus em
Cambridge. Cheguei aí porque me via cercado por teólogos
modernistas – estudantes e professores – e eu, me
dedicando ao estudo da própria Bíblia nos idiomas originais,
sentia-me tão acossado como o profeta Elias, até meditar na
unção que procede do Santo, “a unção que receberam dele
permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine;
mas como essa unção, que é verdadeira e não falsa, os
ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele tal como os
ensinou”, 1 Jo 2.20-27. Vi que precisava da unção do Espírito
Santo, e um universitário (não estudante de Teologia) falou
em eu ser batizado (nas águas) para receber o dom do Espírito
Santo. Com convicção no Espírito, fui assim batizado e, ao
sair das águas, ouvi uma mensagem num idioma que não
entendia, mas que parecia ser da África Central, de Zimbábue,
e a interpretação me dizia para não me afligir com as pressões,
porque a teologia dos modernistas não passava de paganismo
bem organizado, debaixo de uma leve máscara de cristianismo.
A partir de então, nunca me senti oprimido pelo modernismo, só
que agora considero que estudá-lo, mesmo para refutá-lo ou
para fazer parte dos deveres de teólogo, é entrar em diálogo
com Satanás, conforme fez Eva. A partir de então, passei a
considerar a ética ensinada nas epístolas, não mais como as
“letras miúdas” da salvação, mas, sim, como um ambiente
jubiloso de realidade no Espírito Santo.
O pentecostalismo confirma totalmente a fé na
totalidade da Bíblia.
4. Dom de Línguas
No tocante ao dom de línguas, a experiência
de líderes internacionais, tais como Donald Gee e Davi Du
Plessis, baseada em conhecimentos mundiais de movimentos
pentecostais, tem revelado que onde esse dom tem sido deixado
de lado, a igreja tem sofrido em todos os aspectos. Referem-se
aos movimentos pentecostais que surgiram a partir de 1906.
Referindo-me à igreja de modo global, minha convicção é
que se alguém lançar fora uma parte da fé bíblica, a parte
dos dons milagrosos do Espírito Santo, acaba repudiando todos
os milagres na Bíblia, inclusive o nascimento e ressurreição
de Jesus Cristo, a própria inspiração da Bíblia, e até
mesmo a existência de Deus.
Nos países onde o cristianismo nominal oferece
cargos altamente pagos por conta do governo, chegamos a ter
“pastores” e “teólogos” que repudiam todos os
essenciais da fé – é essa a situação que chamo de
“modernismo.” Parece que muitas pessoas que não estão
esperando um derramamento do Espírito Santo com avivamento,
santificação, dons e milagres no fim dos tempos, estão
colocando muitíssima ênfase no Anticristo.
Na Conferência de Niágara em 1895, foi
resolvido excluir os milagres dos Cinco Fundamentos da Fé, e
colocar, no seu lugar, uma cláusula sobre pré-milenismo. Mas
foi em 1906 que, em resposta a uma renovada busca do padrão bíblico,
os estudantes na Rua Azusa receberam o derramamento do Espírito
Santo. Foi aí que muitos receberam a mensagem como aquilo que
mais desejavam na vida, e outros se puseram veementemente
contra. E assim fica forçada, a partir de então, em todas as
igrejas mundialmente, uma decisão pró ou contra a obra do
Espírito Santo.
Uma crítica contra o pentecostalismo hoje diz
que há diversidade de opiniões e interpretações. Mas vejo
que as interpretações humanas da própria Palavra de Deus são
igualmente divergentes – sem isso ser uma crítica contra a
Bíblia, sem se tratar de a Bíblia ser insuficiente.
Os seres humanos distorcem a Bíblia, e também
podem distorcer a obra do Espírito Santo, sem haver falha nem
defeito em uma ou outra. As igrejas oferecem, com razão, métodos
de estudo da Bíblia, manuais, dicionários, e comentários da
Bíblia, recomendam
grupos de oração, meditações, orientação pastoral, apóiam
pregadores, conferencistas, preletores – tudo para haver
entendimento apropriada da Bíblia! Tudo isso é precioso com
a unção do Espírito Santo. Sem ela, tudo em vão. A
democracia espiritual na igreja é cada um ter seu próprio
acesso às Escrituras, e também à pessoa do Espírito Santo.
É um direito, mas também um dever.
Se os membros não estiverem com a vida espiritual em
dia, a igreja ficará oca, como árvore aparentemente viçosa
que por dentro é escavada por cupins.
Os judeus antigos nos tempos de Cristo
desviavam-se do Antigo Testamento para suas tradições. No
Talmude, existem fartas citações de um rabino que cita
outro, que cita outro, e remonta a ainda outro. Quando Jesus
Cristo surge como o cumprimento do Antigo Testamento, os
fariseus o rejeitaram, porque
já tinham se montado na vida como líderes religiosos na
carne, e Jesus já não se encaixaria no sistema deles. Como
cumprimento do Novo Testamento, Jesus enviou o Espírito
Santo, mas a cristandade, depois de chegar aos poderios e
honrarias carnais, passou a menosprezá-lo e a considerá-lo
assunto para “seitas” fora da igreja oficializada.
Numa convicção pessoal minha sobre os dons,
prefiro enfatizar o conceito de presente da parte de Deus para
o necessitado que pede com fé. Num avivamento de cura divina,
por exemplo, penso em termos de muitas pessoas comparecendo
com esperança em Deus, e Deus querendo atender com compaixão.
Nesse caso, um grupo da igreja, com um pastor ou outro
obreiro, marca uma data e um ponto de encontro, anuncia a
reunião, e as pessoas comparecem. Há hinos, pregação bíblica,
orações, testemunhos. E a fila de curas. E saem bênçãos.
Só que não deve haver exagero de glória para o obreiro,
pois se ele se orgulhar, o Espírito Santo pode operar
soberanamente sem depender de ninguém.
Outra experiência notável foi em Ituverava,
acompanhando como intérprete missionário Burnie Davies, das
Assembléias de Deus dos Estados Unidos. Tinha havido bastante
divulgação, e algumas reuniões preliminares, antes da
chegada do missionário, e da minha. Eu pessoalmente nunca
tinha orado pelos enfermos, e dava todo valor àqueles que
tinham esse dom. Acontece que Burnie chegara com gripe, e o
obreiro norte-americano não conseguia “levantá-lo,”
conforme disse. O pior, é que fui posto para substituí-lo! Não
sei fazer. Então, surge a fila para oração. Uns quinze,
talvez. Por amor à causa de Deus, e aos enfermos, comecei a
orar um por um. Fui orando em voz alta, mas sem capacidade
minha. Lembro-me, por exemplo, no caso de alguém com ferida
na perna. Fui orando para ele não mais chegar bêbado em casa
e bater na esposa. Parece que Deus ia me ajudando naquilo que
devia orar. Tudo estava além das minhas possibilidades.
Depois do que me parecia um “tempão”, levantei os olhos
para ver se a fila estava chegando ao fim. Era bem maior!
Perdi, “então” a consciência do tempo. Foi depois que o
porteiro me contou: as pessoas tinham saído curadas, e
contando aos outros; e vinha mais gente de fora. Foram
estimados em duzentos, e eu numa concentração fervorosa por
mais de duas horas. O resultado final confirma que Deus me
ensinava o que eu devia pedir, pois ele mesmo queria fazer a
obra. Certamente não era caso de eu saber orar para obter da
parte de Deus determinadas bênçãos que as pessoas queriam.
Então pensei comigo mesmo: Deus me capacitou
para a cura divina! E depois me ocorreu que havia outros para
essa obra, mas que eu fora chamado a me formar em Cambridge no
grego e hebraico, com as demais matérias teológicas, para
estudar a Bíblia nas línguas originais, e para transmitir
esses conhecimentos no Brasil, num período em que não havia
ninguém para ocupar a vaga. E assim fiquei no ensino e
literatura bíblicas! Ou seja, no pedacinho do Corpo de Cristo
que me cabia: no texto original da Bíblia como obra do Espírito
Santo.
É claro que presenciei muitos milagres nos
avivamentos, e isso de maneira bem especial como intérprete,
pois freqüentemente estava com uma mão no ombro de algum
missionário, e a outra segurando o enfermo, e traduzindo a
troca de palavras entre os dois. A maior garantia contra possível
sugestão ou fraude foi o que eu via no Parque da Iberapuera,
ao lado do missionário Morris Cerullo. Fiquei segurando no
colo um nenê cego de nascença e, quando Morris orou, foi
maravilhoso ver o olhar da criancinha que enxergava pela
primeira vez – olhar feliz de admiração!
Na mesma reunião, uma menina surda de nascença.
Morris orava, e batia palmas atrás dela; quando voltou a audição,
ela deu um pulo com o barulho! Em seguida, olhava em
derredor, procurando alguma coisa. Daí correu para a sanfona
no palco. Descobrira o que era som, e que este provinha
de certos objetos!
Voltando à inspiração do Novo Testamento:
entendo que a fidelidade a Ele determina quem faz parte de
igreja, e não a igreja que determina quais escritos devem
pertencer ao NT. Li um livro anglicano, obrigatório no curso,
de Introdução ao Novo Testamento; tudo muito bem, só que no
fim deu a entender que a Mãe Igreja é que escolheu os Livros
para fazer parte do NT – e que ela seria superior a ele.
A diferença entre o NT e os escritos da igreja
posterior é que a carne ia entrando, década após década. O
Espírito Santo faz do NT aquilo que é, e ele mesmo imprime essa convicção da sua inspiração divina
naqueles que se convertem a Cristo. É a autoridade do Espírito
Santo, mais do que a autoridade da Igreja, que determina o que
é Bíblia. Quaisquer discípulos, apóstolos, mestres, profetas neotestamentários,
dependiam do Espírito Santo, e não ele, da confirmação
deles.
A denominação em favor da qual fui estudar em
Cambridge, declarava ter a Bíblia como única norma de fé,
doutrina, e prática. Então eu estava bem dentro, pois
pautava minha vida exclusivamente pela Bíblia. Mas aí surgem
as “normas para o culto,” como acréscimo à Bíblia, e
então não tenho nada mais que ver. Num excelente instituto bíblico
onde fui professor, foi lido um documento no qual foi
esclarecido que, embora Paulo tenha declarado “Não proibais
o falar em línguas” os dirigentes, por receberem sustento
de igrejas não pentecostais, sentenciaram: “Nós, porém,
doravante vamos proibir.” Toda denominação evangélica crê
na Bíblia, mas na hora em que uma ou outra igreja coloca
algumas regras, costumes ou decisões em posição antagonística
à Bíblia, acabará perdendo pontos. Certamente existem
muitos questões que biblicamente estão abertas à consciência
individual, e devemos ter coração amplo de fraternidade
espiritual para nos aceitarmos em mútuo amor. Minha experiência
tem sido: ampla fraternidade entre os crentes em 1959, 1963
etc, mas hoje, minha impressão é que muitos grupos,
pelo rádio, querem “vender seu próprio peixe” e não
ouço mais muita Bíblia nem tanto em conversão a Jesus
Cristo.
Os dons do Espírito Santo são debatidos como
assunto distintivo e específico do pentecostalismo. Tempos
atrás, achei excelente a definição do doutor Ness, da
Igreja Pentecostal do Canadá: “A teologia pentecostal é idêntica
à evangélica tradicional, só que também tem os dons do Espírito
Santo.”
Por outro lado, vejo que um modo
sobrenaturalista de ver as coisas deve permear mais do que
isto. Deve haver uma visão totalmente nova da interpretação
bíblica.
Conheci de perto, por exemplo, Orlando Boyer, e
percebo que nos escritos dele existe um modo de entender
globalmente e espiritualmente a Bíblia, de modo que coloca
seu dedo no âmago do sentido, enquanto volumes teológicos de
tamanho muitas vezes maior não enxergam tanta coisa de valor.
Donald Stamps também vinha muitas vezes ao meu
escritório no sítio, e vi nele um herói da fé –
inclusive, quanto aos seus comentários de Jó, Eclesiastes, e
dos Salmos de aflição. É o único teólogo que sabia
entender essas partes da Bíblia do ponto de vista de quem
estava morrendo de câncer. Myer Pearlman também tinha a unção
pentecostal nos seus comentários bíblicos. Nas aulas em
escolas bíblicas pentecostais, sempre falo que é imperdoável
quando os alunos não lêem esses autores. A interpretação bíblica
tem que ser no Espírito; ou seja, com a ajuda do próprio
autor.
Existem movimentos que criticam o
“espiritualizar” – como se fosse o caso de “tornar
espiritual” aquilo que não o é. Fico boquiaberto ao ver
grupos pentecostais aceitarem uma interpretação “na
carne,” mormente do Apocalipse. Da mesma forma, espero que o
Espírito Santo nos dê gosto pela música especificamente
“sacra” ou “espiritual.” Os hinários contêm música
e letra que inspiram, e acho que o rebaixamento do gosto
musical, adotando ritmos mundanos, não deve ser considerado
sinal de pentecostalismo.
Quando dou um curso sobre Atos dos Apóstolos, além de
explicar que é um manual de orientação para a igreja hoje,
e falando nos milagres que confirma a pregação cristã,
menciono que houve alguns milagres de castigo: Simão Mago,
Elimas, Herodes, e Ananias e Safira. Nas igrejas “binitarianas”,
faltas morais parecem passar como coisas corriqueiras.
Numa reunião pentecostal, porém, a situação
seria “mentir contra o Espírito Santo” – isto é,
contra tudo aquilo que Deus está derramando. Procura-se o Espírito
Santo para bênçãos e poder, mas recebendo essa obra
sobrenatural, o
Espírito Santo também deve
ser procurado para a santidade, para o temor a
Deus, para uma vida de resistência às tentações.
Depois de Os Dons do Espírito Santo também
escrevi O Espírito Santo na Vida de Paulo (CPAD), cujo
intuito foi demonstrar que o Espírito Santo também
impulsiona à obra, com dedicação e sacrifício. Não sei se
esse aspecto também gozou de popularidade entre os irmãos.
Nesse sentido, sendo que o Espírito Santo age conforme quer,
não nos é possível faltar nos nossos deveres ministeriais,
pensando que o Espírito Santo terá que “abençoar” a
nossa preguiça. Depois de o Espírito Santo me ter dado,
inesperadamente, durante as celebrações de Pentecostes em
Zimbábue, a capacidade milagrosa de entender o Afrikaans de
um momento para outro, vi-me diante do hebraico. Tenho ainda,
em mãos, a Gramática Elementar da Língua Hebraica que
usei – a página interna está cheia de orações tiradas
dos hinos que decorei em Afrikaans. O hebraico envolveu cinco
mil horas de estudo em silêncio por três anos (isto, só a
gramática básica). Nenhum milagre estrondoso, mas a disposição
para estudar, e a renúncia envolvida, não deixa também de
ser uma bênção espiritual.
Jesus, nas suas obras milagrosas, explicou que
Deus continua operando no sábado, e Ele, também. Podemos
dizer que o Espírito Santo não nos deixou órfãos, não nos
deixou desamparados com a ascensão de Jesus, com o último
suspiro do último dos Doze Apóstolos, nem com a última
letra do Novo Testamento.
A Igreja de Cristo não é um acidente da natureza, uma instituição
contrária à vontade de Deus, e assim como o Novo Testamento
nos apresenta Jesus Cristo e também a obra do Espírito
Santo, assim também a fé cristã continua sendo em Deus Pai,
Deus Filho, e em Deus, o Espírito Santo.
Para
saber mais:
PALMA,
Anthony D. O batismo no Espírito Santo e com fogo: os
fundamentos bíblicos e a atualidade da doutrina pentecostal.
Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
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