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Leitura
Bíblica em Classe
2
Pe 1.16-21
Introdução:
I. O que é a Bíblia
II. As grandes reivindicações da Bíblia
III. Como ler a Bíblia
IV. Os efeitos da Bíblia em nossa vida
Conclusão:
Autor deste comentário: Esdras
Costa Bentho
Palavras-chaves:
Exegese; Leitura Bíblica; Leitura Orante; Interpretação
Bíblica.
Título deste subsídio: Ler e Compreender, atos necessários à exegese bíblica
Ler
e Compreender, atos necessários à exegese bíblica
O
termo “exegese” procede do grego eksēgēsis, isto
é, “narrativa”, “explicação” ou “interpretação”.
O substantivo deriva-se do verbo eksēgēomai, palavra
de significado elástico nas páginas do Novo Testamento cujo
sentido e tradução nos textos de Lucas 24.35, João 1.18;
Atos 10.8; 15.12,14 e 21.19, abrange os vocábulos
“contar”, “explicar”, “interpretar”,
“descrever”, “relatar” e “revelar”. O significante
eksēgēsis é constituído pelo tema verbal composto
“ek”, “fora de” e “hēgeomai”, que se traduz
primariamente por “liderar”, “guiar”, “conduzir”,
e pelo sufixo “sis”, que indica ação. Literalmente quer
dizer “conduzo para fora”, “extraio”. [1]
Segundo o uso mais remoto, o
eksēgētes era o “expositor”,
“narrador”, "ledor" ou “intérprete” das
leis, seja divina ou não, ou simplesmente um “escriba”,
“escritor” ou “sábio” (cf. J 1.18).
De
acordo com as seis ocorrências do termo nas páginas
neotestamentárias, conforme o contexto, traduz-se por
“narrativa”, “explicação” e “interpretação”.
Exegese, segundo o étimo, significa a
ciência que narra, explica, traduz e interpreta
textos quer sacro ou profano. A exegese bíblica,
portanto, é a extração, explicação, narração ou
interpretação dos textos bíblicos. Todavia, o comentário
da perícope bíblica, tradicionalmente chamado de exegese,
somente é realizado pelo exegeta após a leitura e compreensão
do texto em análise. Portanto, antes de explicar o texto é
necessário ler e compreendê-lo. Essa dimensão da interpretação
foi captada maestricamente pelo filósofo do sentido, Paul
Ricoeur, quando afirmou que “a exegese se propõe a
compreender um texto a partir de sua intenção, sobre o
fundamento daquilo que esse texto significa” [2]. Logo, a
exegese quanto ciência da interpretação, se ocupa da
compreensão e explicação do texto;
isto é, do entendimento, elucidação do cuntextum,
de sua trama, contextura e das conexões lógicas que existem
entre as diferentes partes do texto a fim de torná-lo
coerente. De acordo com James R. White, a exegese é o
processo de compreender o texto da Bíblia em seu próprio
contexto.[3] Logo, dois binômios são necessários à tarefa
da exegese: compreender e explicar. O primeiro
procede da investigação metódica e conscienciosa do
exegeta, enquanto o segundo, do resultado derivado da análise.
Ao afirmarmos que a Exegese é a ciência da compreensão
e explicação de textos, isto quer dizer que
devemos acima de tudo entender que na prática existe um
abismo entre “ler” e “compreender”, embora no grego
neotestamentário as duas palavras estejam etimologicamente
relacionadas. É possível ler um texto das Escrituras e não compreender o sentido ou a mensagem do mesmo. O eunuco de Atos
8.30-35 lia
mas não compreendia. Vejamos rapidamente esse pormenor. Embora não perceptível na língua
portuguesa, no grego do Novo Testamento, Filipe usa dois
verbos cognatos: ginōskeis, traduzido pela ARA e
TEB por “compreender”, pela NVI por “entender”, mas
por extensão “ter ou tomar conhecimento”; e, anaginōskeis,
procedente da preposição ana que em composição
inclui o sentido de “sobre”, e ginōskō ,
traduzido em diversas passagens por “saber”,
“conhecer”, “vir a conhecer”, “entender”,
“compreender” (Mt 13.11; Mc 4.13; Jo 8.32, 43; 14.7). O
significado primário de anaginōskeis é “lendo
em voz alta” e, o uso do verbo no imperfeito no versículo
28 (aneginosken), descreve uma ação inacabada, que está em
curso ou duração. Por essa razão, Filipe ouvi-o lendo o
profeta Isaías (v.30) – não é sem razão que os gregos
ainda hoje usam o termo anagnostikós como referência
ao gosto pela leitura.
À semelhança da leitura orante da Bíblia,
à maneira de Carlos Mesters [4], Filipe interroga o eunuco:
“Compreendes o que vens lendo?” Em que, o termo que define
o sentido de “compreender”, participa do mesmo campo semântico
do vocábulo que determina o significado de “leitura”;
pressupondo que a
leitura deve nos conduzir a uma compreensão do texto,
e que o próprio
ato de ler leva-nos ao de compreender. Compreender,
portanto, é alcançar por meio da inteligência o significado
daquilo que se está lendo. Quando compreendemos
o que estamos lendo, percebemos as intenções de quem
escreveu e entendemos aquilo que está contido no
texto.
A resposta do etíope não deixa de ser menos
esclarecedora. Principalmente pelo vocábulo que o historiador
usa para descrever a resposta do leitor interessado. O termo
grego, traduzido por “explicar” na ARA, e “ensinar” na
ARC, é hodēgēsei, procedente do verbo hodēgeō,
que significa “guiar”, “liderar”. O texto ipsis
litteris quer dizer: “Como posso entender se alguém
não me guiar”. “Guiar” na compreensão do texto.
“Guiar” na exata interpretação do conteúdo, tal qual
traduziu a TEB: “E como poderia eu compreender, se não
tenho guia?”. Nunca é demais repisar que a leitura de
um texto é o primeiro passo para compreendê-lo.
Por conseguinte, a leitura exegética do texto bíblico
é, inicialmente, diacrônica, pois está interessada no
desenvolvimento histórico do texto, depois, sincrônica, pois
situa-se no centro de origem lingüística, histórica e
social a que está inserido. Por fim, apresenta ao homem e a
igreja contemporânea a mensagem das Escrituras conforme as
suas interrogações e dilemas. Filipe explica o texto ao
eunuco etíope e, a partir do contexto do profeta Isaías,
“anunciou-lhe a Jesus” (At 8.34,35).
A explicação e narração do texto sagrado foram
além do invólucro dos sinais semânticos e das sínteses
culturais, que às vezes estão longe da cultura e dos
problemas daquele que ouve. Essa superação interpretativa na
prática da evangelização mostra-nos que uma leitura
significativa das Escrituras não é apenas documental e acadêmica,
mas também, e, principalmente, evangelística e
pastoral.
A leitura e compreensão das Sagradas Escrituras
devem conduzir o homem a Deus, por meio de Cristo, o Logos
encarnado. Qualquer leitura crítica da Bíblia que afaste o
homem de Cristo ou da fé apostólica não cumpre os propósitos
pelo qual o Verbo de Deus se manifestou (Jo 1.14).
Shökel sabiamente afirma que "a Palavra de Deus não
é apenas uma informação religiosa, uma informação sobre
Deus; é Deus mesmo se autocomunicando, mais ainda se
auto-revelando". [5]
Deus revela-se por meio do Verbo Encarnado, o Logos
Theou, como também mediante a Sagrada Escritura, a Revelação Epistemológica.
Filipe, a partir das Escrituras, anunciou o nosso
Senhor Jesus ao etíope (At 8.35). O propósito pelo qual
interpretou a Palavra de Deus segue-se imediatamente ao
fechamento da narrativa lucana: "desceram ambos à água,
tanto Filipe como o eunuco, e o batizou" (At 8.38). A
interpretação das Escrituras nessa perícope cumpriu certos
propósitos evangelísticos e poemênicos. Isto não quer
dizer que a exegese e hermenêutica bíblica limitam-se à
evangelização e ao pastoreado, pelo contrário, mas que a ciência
bíblica de análise e interpretação do texto sagrado não
deve omitir-se na tarefa de conduzir o homem a Deus, por meio
de Cristo, pois a Palavra de Deus não é conceito para a
mente, mas vida para o coração.
A exegese, como metodologia da ciência bíblica, deve
promover, por meio da interpretação, o encontro entre o
homem e Deus. No dizer de Weiller, "a dialética da distância
e da proximidade" devem ser aproximadas:
O texto escrito só produz
seu verdadeiro sentido como Palavra do Deus vivo no encontro e
na tensão destes dois pólos históricos. Uma releitura fiel
e engajada da Bíblia, a partir do Espírito que a anima (cf.
Jo 14.26), faz explodir o potencial criador da Palavra de
Deus, fonte geradora da verdadeira vida. [6]
Uma leitura bíblica que podemos chamar de eficaz ou
científica é aquela que usa uma metodologia capaz de
conduzir o leitor ao correto significado do texto. Assim
sendo, tal qual Filipe, a exegese se propõe a conduzir,
liderar, ou guiar o estudante das Escrituras na compreensão
ou entendimento do texto bíblico. Conforme a concepção de
Schnelle, a exegese é um processo de leitura, aprendizado e
compreensão dirigido metodologicamente, cujo objetivo é
realizar um inventário das dimensões históricas e teológicas
dos textos. [7]
Portanto,
a primeira função da exegese bíblica é entender a tessitura
do texto, compreender a trama que dá azo a mensagem do
hagiógrafo. Para o cabal entendimento dessa assertiva, julgo
necessário deslindar o significado de tais proposições
tendo como base os textos de Mateus 13.36, Atos 8.30-38 e
Hebreus 5.11:
| A
exegese envolve uma leitura técnica das Escrituras,
nem sempre acessível a um grande número de leitores. |
| Há
um hiato entre leitura e compreensão.
É possível ler e não entender. |
| A
leitura de uma perícope se realiza através de
diversos níveis:
edificação, liturgia, catequese, dogmática,
exegese. |
| O
tipo de leitura orienta a práxis
interpretativa. |
| Os
textos da Escritura apresentam complexidades léxicas,
literárias, históricas, culturais, proféticas, litúrgicas
e
teológicas nem sempre acessíveis ao leitor
fugaz. |
| Não
é apenas necessário, mas também plausível que se explique
a
perícope. |
| A explicação do texto deve conduzir a edificação,
exortação,
consolação e a Cristo. |
| Certas
explicações exigem maturidade e disposição de
vontade
de quem ouve e de quem a explica. |
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