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Leitura
Bíblica em Classe
Gênesis 2.18,21-24
Esboço da
Lição
Introdução
I.
O casamento, o lar e a família
II.
Os ataques contra o
casamento
III.
Os ataques contra a família
IV. Fortalecendo o lar
contra os ataques do mal
Conclusão
Tema
deste Subsídio
Os tempos proféticos do Novo Testamento
Autor
Pr.
Esdras Costa Bentho
Palavras-
Chave
Família; Casamento; Divórcio; Adultério;
Imagem de Deus.
1. Família, Projeto Divino
Na
sociedade hebraica a família era o âmago da estrutura
social. Na Tanach, exclusivamente em Berê’shîth
(Gênesis), encontramos o princípio judaico-cristão da família
no texto que diz: “Não é bom que o homem esteja só;
far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele. Então, o
Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este
adormeceu; e tomou uma das suas costelas e cerrou a carne em
seu lugar. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem
formou uma mulher; e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é
agora osso dos meus ossos e carne da minha carne; esta será
chamada varoa, porquanto do varão foi tomada. Portanto,
deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apergar-se-á à
sua mulher, e serão ambos uma carne. E ambos estavam nus, o
homem e a sua mulher; e não se envergonhavam” (Gn
2.18,21-25). Segundo o filósofo Lévi-Strauss, o princípio
da família é dado pelo texto da Escritura que diz: “deixará
o varão o seu pai e a sua mãe”, regra infrangível ditada
a toda sociedade para que possa estabelecer-se e durar.
2. Família,
Centro de Comunhão
Deus
é quem decidiu criar a família. Esta foi formada para
ser um centro de comunhão e cooperação
entre os cônjuges. Um núcleo por meio do qual as bênçãos
divinas fluiriam e se espalhariam sobre a terra (Gn 1.28). Não
era parte do projeto célico que o homem vivesse só, sem
ninguém ao seu lado para compartilhar tudo o que era e tudo o
que recebeu da parte de Deus.
O
homem sente-se pessoa não apenas pelo que é, mas também
quando vê o seu reflexo no outro que lhe é semelhante.
Portanto, a sentença divina ecoada nos umbrais eternos
expressa o amor e o cuidado celeste para com a vida afetiva do
homem. Para Deus, “não é bom que o homem esteja só”. O
verbo estar, no presente do subjuntivo (esteja),
tradução do hebraico hāyâ, expressa um estado
circunstancial e transitório do ser. A solidão é um agravo
à saúde psicofísica da criatura humana e, por mais esta razão,
Deus não deixaria a criatura feita à sua imagem sem um
semelhante para comungar.
O
próprio Deus não estava solitário na eternidade, mas
partilhava de incomensurável comunhão com o Filho e o Santo
Espírito. Deus é um ser pessoal e sociável às suas
criaturas morais. No entanto, contrapondo a natureza divina à
humana, concluímos que o intrínseco relacionamento entre a
divindade e o ente humano dá-se em níveis transcendentais,
metafísicos.
Por
conseguinte, faltava ao homem alguém que lhe fosse
semelhante, ossos dos seus ossos, carne de sua carne, alguém
que se chamasse “varoa” porquanto do “varão” foi
formada. Essa correspondência não foi encontrada nos seres
irracionais criados, mas na criatura tomada de sua própria
carne e essência. A mulher era ao homem o vis-à-vis
de sua existência. Seu reflexo. Partida e chegada. Como
sabiamente afirmou Derek Kidner, “a mulher é apresentada
integralmente como sua associada e sua réplica”. Nisto,
inferimos que a comunhão entre os cônjuges envolve a plena
identificação com o outro. Deus se identifica com o homem, e
este, com Deus, pela imagem divina que no homem está. O homem
e a mulher se identificam mutuamente por compartilharem da
mesmíssima imagem divina: “E criou Deus o homem à sua
imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou”
(Gn 1.27).
Homem
e mulher, portanto, fazem parte do mesmo projeto celífluo.
Sentem-se tão necessários à existência do outro quanto
dependem individualmente do ar que respiram. Esta interdependência
é inerente à formação moral e espiritual do próprio ser.
Faz parte do mistério, da teia de encontros e desencontros,
de fluxo e refluxo que cercam a união entre homem e mulher. A
união conjugal, portanto, antes de ser um contrato jurídico,
era um ato de amor, companheirismo e cumplicidade em que as
principais necessidades humanas eram plenamente satisfeitas.
Homem e mulher se auto-realizavam um no outro. Para o sábio
era mais fácil entender o caminho da cobra na rocha; o do
navio no meio do mar, ou, ainda, da águia no céu do que o
“encontro” de um homem com uma mulher (Pv 30.18,19). O
espanto do sábio só se compara ao de Ismene à Antígona ao
dizer: “De fogo é o teu coração em atos que me
gelam”.
3. A Constituição do Núcleo Familiar
A
constituição do núcleo familiar a priori foi
composta por um homem e uma mulher. Mais tarde, acrescentou-se
ao casal os filhos gerados dessa união. A partir do
nascimento dos primeiros filhos, a família tornou-se o
primeiro sistema social no qual o ser humano é
inserido.
A
primeira família, formada apenas por duas pessoas, tornou-se
numerosa por meio dos filhos que, ao serem gerados, se
inseriram no núcleo familiar assumindo diversos papéis
dentro do sistema: filho, irmão, neto, primo, etc. A família
não foi criada, portanto, como um sistema fechado, mas dinâmico,
e, com o passar do tempo, o número de seus membros foi
aumentando gradativamente, e, destes, formando novos núcleos
familiares ligados por consangüinidade e afinidade. Para
mencionar mais uma vez Lévi-Strauss, este considerava que o
grupo familiar tem sua origem no casamento. Este núcleo é
constituído pelo marido, pela mulher e pelos filhos nascidos
dessa união, bem como por parentes afins aglutinados a esse núcleo.
No
contexto desse sistema familiar, cada membro do grupo passa
por uma série de funções ou papéis sociais determinados
tanto por fatores exógenos, que estão ligados aos cenários
sociais próximos a ele, como por fatores endógenos, ligados
a idade, sexo e maturação psicológica.
4.
Terminologia e Conceito de Família no Antigo Testamento
O hebraico do Antigo
Testamento costuma usar três palavras para família: bayît,
bêt, mishpāhâ.
a) A primeira delas
é bayît, que designa tanto uma “residência”, “templo”, “lar”,
a “parte interior de uma casa”, “casa”, quanto também
o conceito de “família” ou “os moradores de uma mesma
casa”. O sentido de habitação é um dos mais freqüentes
usos do termo (Êx 12.7; Lv 25.29; Dt 11.20).
b) Outro vocábulo
muito freqüente é bêt, cujo sentido literal é “casa” e
ocorre juntamente com outros termos formando uma idéia
completa tal qual bêt’ēl (Casa de Deus), bêt
lehem (Belém ou “casa de pão”), e assim por
diante. O termo bêt designa “pessoas de uma casa”,
ou juntamente com ’āb designa “casa do
pai”.
c) O terceiro vocábulo,
mishpāhâ, literalmente significa “família”,
“parentes” ou “clã”. A ênfase está nos laços sangüíneos
que existem entre as pessoas de um mesmo círculo. Segundo
Harris, o termo “se emprega como subdivisão de um grupo
maior, tal qual uma tribo ou nação (Nm 11.10)”.
5.
Divórcio, mazela que afeta a saúde da Família
5.1.Divórcio. O vocábulo divórcio, do latim divortiu, corresponde no
texto hebraico do Antigo Testamento ao termo gārash,
que significa “repudiar”, “expulsar”, “pôr fora”.
Outra palavra hebraica traduzida por “divórcio”,
“desligamento” ou “repúdio” é kerîtût,
que procede de uma raiz que significa “cortar”,
“dividir”. Desse termo provém à expressão “romper
relacionamentos” e “demitir”. No Antigo Testamento é
traduzido por “divórcio” na ARC nos textos de Isaías
50.1 e Jeremias 3.8, e por “repúdio” em
Deuteronômio 24.1,3. Em Isaías 50.1, o sentido de
“romper relacionamento”, “desligamento” é mais
veemente por ser usado com o verbo shālah,
“mandar embora”, “deixar ir”, “soltar”,
“desatar”, usado em Gênesis 3.23 quando Deus expulsa
(“lança fora”) o homem do jardim do Éden (cf. 12.19,20).
Assim entendido, o divórcio caracteriza-se por romper o
relacionamento com a esposa; desligar-se do cônjuge;
mandar a mulher embora; lançar fora a esposa; e
deixar a esposa ir. O repúdio, conforme os textos em
questão, só se tornava público e oficial quando era lavrada
a carta de divórcio, também chamada de escrito de
repúdio, ata de desligamento, termo de divórcio
ou livro de repúdio. Estes são a tradução da
expressão sēper
kerîtût, traduzido pela LXX por biblion
apostasiou, isto é, “livro de divórcio” ou “livro
de abandono” (Dt 24.1,2; Is 50.1). Atualmente
os judeus chamam-no de sefer-critut, ou “documento de
rompimento”.
5.2. Razões pelas quais o divórcio é
contrário à vontade de Deus.
O repúdio é contrário à vontade de Deus, e trata-se,
juntamente com a poligamia e o adultério, de mais um atentado
contra a harmonia familiar.
O divórcio aparece na lista de coisas às quais Deus tem
aversão, entre elas: os ímpios (Sl 11.5), os difamadores (Zc
8.17), e os ídolos (Dt 16.22). Quando a Escritura diz que o
Senhor odeia alguma coisa, quer-se afirmar que Ele a detesta e
a combate. Embora o divórcio não seja apresentado dentro da
categoria dos pecados de to‘ēbâ ou “costumes abomináveis”,
como ocorre com os três pecados alistados acima, é provável
que Malaquias em sua invectiva assim considerasse. Uma vez que
o pecado de to‘ēbâ
se refere à iniqüidades relacionadas à sexualidade, à
natureza física, à imoralidade, ao culto e à ética, não
seria contrário ao sentimento do profeta se considerarmos o
divórcio nessa categoria de pecado.
O repúdio desagrada a Deus, porque
impede o reflexo da união espiritual entre Yahweh e Israel e
de Cristo com a Igreja. “... como o noivo se alegra com a noiva, assim se
alegrará contigo o teu Deus” (Is 62.5b). A figura
marido/esposa é uma das mais expressivas e singulares comparações
entre Deus/Israel e Cristo/Igreja. A aliança e fidelidade
entre estes são vistas na perspectiva do casamento, enquanto
a infidelidade é apresentada em termos de adultério. Uma das
mais expressivas personagens que ilustra esta assertiva é Oséias
e a sua esposa, Gomer. O Senhor é apresentado como marido de
Israel (Is 55.5; Jr 2.2), e Cristo, da Igreja (1 Co 11.2; 2 Co
11.2; Ef 5.22-33). O casamento monogâmico reflete a união
divina com os homens e, conseqüentemente, o divórcio e o
adultério impedem essa representação (Jr 3.8; Is 50.1). Por
meio do matrimônio monogâmico é apresentada aos fiéis a
união espiritual do crente com Deus e a salvação provinda
dessa união indissolúvel. Considerando assim, o casamento
entre um homem e uma mulher deve ser:
·
Monogâmico,
pois a figura matrimonial apresenta tanto Yahweh quanto Jesus
com apenas uma esposa, Israel e a Igreja respectivamente (Is
55.5; Ef 5.31,32);
·
Indissolúvel,
pois a aliança entre Yahweh e Israel, e entre Cristo e a
Igreja, são assim apresentados (1 Rs 8.9; Is 24.5; Hb
12.24);
·
Santo,
pois reflete o caráter de Yahweh e de Cristo, e de Israel e
da Igreja biblicamente considerados (Êx 19.6; Lv 11.44; 2 Co
11.2; 1 Ts 4.1-5; Hb 13.4).
5.3.Adultério. O adultério é a ruptura da fidelidade e da
aliança nupcial por parte de um dos cônjuges,
constituindo-se no intercurso sexual de uma pessoa casada com
uma outra que não é o seu cônjuge. Etimologicamente, o
termo “adultério” em sua acepção hebraica é a tradução
do termo ni’up, procedente de nā’ap,
cujo sentido literal é “praticar adultério”. O adultério
é, juntamente com o divórcio, um outro ato que demonstra a
crise pela qual as famílias e os cônjuges passam.
Assim como o judeu deveria preservar, segundo o Código de
Santidade, a unidade de seu campo plantando apenas um tipo de
semente, o acasalamento de animais da mesma espécie e a
tecelagem de vestes com apenas um tipo de fio (Lv 19.19 cf. Dt
22.9-11), assim também deveria preservar o uso natural do
sexo, evitando uniões híbridas que contradizem o princípio
moral e natural da imago Dei no homem (Êx
20.14; Dt
22.22-27; Nm 5.12 cf. Jr 3.6-11;
Lv 20.10 – ARA; cf. Dt 22.22).
Desse modo, a descrição do fato constitui argumento eloqüente a favor da
teoria defendida pelos teólogos brasileiros Carlos O. Pinto e
Luiz A. Sayão de que a união sexual entre o ser humano e o
animal é pecado porque viola a imagem de Deus, por unir o que
é expressão da imagem divina com o que não é. A
homossexualidade, por violar a imagem de Deus ao unir duas
expressões iguais dessa imagem, impedindo o reflexo da
pluralidade e criatividade divina evidentes na procriação. A
fornicação, por desonrar a imagem de Deus na outra pessoa. O
incesto, por violar a imagem de Deus ao se unir duas expressões
muito próximas dessa imagem. E o adultério, por violar a
imagem de Deus que pertence a outrem (VOX SCRIPTURAE: Revista
Teológica Latinoamericana. v. V, nº 1, março de 1995, pp.
45,46.)
Leia do mesmo
autor:
A
Família no Antigo Testamento: História e Sociologia. Rio de
Janeiro:CPAD, 2006, 256 pp.
Hermenêutica Fácil
e Descomplicada e a Família no Antigo Testamento: História e
Sociologia.
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