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Leitura
Bíblica em Classe
Hebreus 11.32-37.
Esboço da
Lição
Introdução
I. Os
Mercadejores da Palavra de Deus
II. Os Heróis da Fé
III. Exegese e Eisegese
IV. O Estudo da Palavra
de Deus
Conclusão
Tema
deste Subsídio
O
Cuidado com a Mercadologia da fé.
Autor
Esequias
Soares. O autor é Pastor da AD em Jundiaí (SP), Presidente
da Comissão de Apologia da CGADB, Conferencista
Internacional, Professor de Hebraico, Grego e Apologia Cristã,
Comentarista das Lições Bíblicas e autor de várias obras
apologéticas.
Adaptação
Setor de Educação
Cristã
Palavras-chaves
Marketing; Mercadejar; Estratégia de Marketing; Propaganda;
Triunfalismo; Teologia da Prosperidade.
Introdução
A
obra de Deus se faz com milagres e recursos financeiros. Ben
Gurion disse que Israel vive dos missim e nissim, jogo
de palavras hebraicas que significam “impostos e
milagres”. A igreja não é diferente e isso tem levado
muitos a confundirem a fé cristã com negócios. Negócios
envolvem marketing e colocar a igreja nessa esfera é um risco
em potencial de banalizar o sagrado e reduzir as coisas de
Deus à categoria de mero produto comercial. Muitos já estão
aplicando na igreja os mesmos princípios de marketing do
mundo dos negócios, o que é preocupante. Confundir
novas estratégias de evangelização com técnicas seculares
de marketing pode ser fatal para o ministério.
1.
O MARKETING DA FÉ
Numa
entrevista intitulada Como vender a fé, publicada na revista
Veja, edição de 9/6/99, o administrador de empresas, Antonio
Miguel Kater Filho, apresentado na citada revista como
“Marketeiro de instituições católicas”, defende
praticamente os mesmos princípios de marketing na fé. Em
muitos pontos fala acertadamente, mas sequer usa o nome do Espírito
Santo e nem a sua atuação como aquele que persuade o pecador
a reconhecer sua necessidade de uma reconciliação com Deus,
mediante a fé em Jesus. Mesmo alegando ser católico devoto,
na sua avaliação, o sucesso da comunicação do Evangelho
depende mais da estratégia de marketing do que mesmo da atuação
do Espírito Santo.
1.1.
A Falácia do Marketing Comercial
a)
A falácia da Mensagem:
Kater Filho reconhece a preocupação de Jesus com as
necessidades materiais e espirituais das pessoas, mas o
considera como o maior marqueteiro da História e avaliou o
sucesso das pregações de Jesus como resultado de estratégia
de marketing. Citou alguns exemplos, mas fora do contexto,
afirmando que Jesus teria dito as mesmas coisas que o judaísmo
de maneira nova: “Jesus pegou o mesmo produto, a salvação
do homem, e reposicionou no mercado”. Diz ainda que Jesus
“utilizava muito bem as ferramentas disponíveis na época.
Para falar à multidão, ele subia à montanha e usava o eco
da sua voz para um maior número de pessoas pudesse ouvi-la.
Também escolhia o local em que praticaria os milagres.
Fazia suas curas estrategicamente em cidades onde havia
grande trânsito de viajantes”.
Kater
Filho citou um grande publicitário que afirma ser a cruz o
melhor logotipo já criado. “O símbolo diz tudo e é
muito fácil de ser reproduzido, até por crianças. É
facilmente identificada em qualquer cultura”.
b)
Erros quanto à pessoa e propósitos do ministério de Jesus:
Essas considerações fazem de Jesus um simples homem apenas
dotado de sabedoria incomum, e não é isso que encontramos
nos Evangelhos. É verdade que Jesus ensinou muita coisa do
judaísmo de maneira nova, mas não foi só isso. Ele trouxe
à tona o espírito da Lei de Moisés e sua autoridade foi
reconhecida, em princípio, pelos milagres e depois os
homens o receberam pela iluminação do Espírito
Santo.
*
Ele não procurou
grandes centros urbanos para ostentação e nem operou
maravilhas meramente para impressionar as pessoas, ele não
veio para fazer espetáculo a fim de agradar o público,
isso sim, seria estratégia de marketing.
*
Às vezes, até proibia
a divulgação das maravilhas que operava (Mt 8.4; 9.30 e
Mc 5.43). Veja também as passagens bíblicas da
transfiguração de Jesus (Mt 17.9 e Mc 9.9). Até seus
irmãos estranharam o fato de Jesus não procurar as
grandes cidades (Jo 7.3-4).
*
Jesus operou sinais,
prodígios e maravilhas porque se compadecia do povo e dos
necessitados (Mt 14.14), pois o povo andava como ovelhas
que não têm pastor (Mt 9.36 e Mc 6.34). Herodes esperava
ver Jesus operar muitos milagres. Se seu ministério fosse
calcado em estratégias de marketing, teria chegado o
momento para demonstrar seus poderes, mas Jesus sequer deu
resposta a Herodes (Lc 23.8-11). Quão longe isso está
das avaliações de Kater Filho sobre a fé cristã, mas
é resultado de quem pensa que fé e negócio são a mesma
coisa.
*
É verdade que a cruz
é um logotipo fácil de se reproduzir, mas não foi por
isso que ela tornou-se símbolo do cristianismo. As
narrativas dos Evangelhos mostram que nosso Senhor Jesus
Cristo morreu numa cruz. Há mais de 50 referências à
cruz no Novo Testamento com suas implicações teológicas
profundas. Na cruz Jesus efetuou a nossa redenção, e
essa foi a principal razão que fez da cruz um símbolo
para representar o cristianismo (1 Co 1.18).
Reconhecemos
a necessidade do uso de estratégias específicas, não de
marketing, para levar o Evangelho aos pecadores. Não sou
contrário à criação de mecanismos para que eles ouçam a
Palavra de Deus, mas tudo na direção do Espírito Santo,
seguindo o modelo bíblico. Usar os mesmos princípios de
marketing no mundo espiritual não funciona. Nem mesmo com
todo esse aparato mercadológico, a Igreja Católica
resolveu o seu problema. Kater Filho justifica o fracasso
dos católicos por meio da péssima estratégia de venda. Em
outras palavras, afirma que não sabem “vender o peixe”,
apesar das mais de 8 mil paróquias e cerca de 140 emissoras
de Rádio. Os católicos investiram muito na Rede Vida e
no padre Marcelo Rossi, que foi aluno de Kater Filho, que
considera esse padre como excelente marqueteiro. Os shows
com a presença do cantor Roberto Carlos e outras
celebridades são estratégia de marketing. O problema deles
não é questão de estratégia de marketing, está no
produto adulterado, a salvação está em Jesus e não em
Maria (1Tm 2.5).
2.
OS MARQUETEIROS ESPIRITUAIS
O Senhor
Jesus nunca procurou agradar a ninguém para vender suas idéias.
Ele ensinou a Lei como ela é, despida de casuísmo e de
preconceito, o que era muito diferente das interpretações
subjetivas das autoridades religiosas da época. Mas os
marqueteiros da fé de hoje procuram agradar as pessoas sem
levar em consideração o ensino da Palavra de Deus. Estão
dispostos a tudo para verem seus templos cheios. Nesse grupo há
os que confundem crescimento com inchaço de igrejas.
2.1.
Conseqüências do uso do marketing sem a ação do Espírito
Santo.
As
“igrejas ônibus” estão sempre lotadas, mas sua
rotatividade é muito grande. Quem retornar a elas, depois de
certo tempo, encontrará outro público, os outros ou
desistiram, ou procuraram outras igrejas, depois de concluírem
que não se trata de uma coisa real. São igrejas que vivem de
aparências, como os ônibus lotados que em cada estação
sobe um grupo de passageiros, mas também desce outro. A
explicação para essa grande rotatividade é o resultado das
estratégias de marketing sem o Espírito Santo. Essas
pessoas, mais cedo ou mais tarde terminam descobrindo que
foram manipuladas e por isso tomam a decisão de sair desses
movimentos.
a)
Sucesso e manipulação:
No mundo mercadológico vale tudo para obter o sucesso. O
marketing se preocupa em vender o peixe e não em divulgar a
verdade. Aplicar conhecimentos mercadológicos no mundo
espiritual pode ser um desastre, por causa do risco da
falsificação. É prática comum desses “marqueteiros
espirituais” manipularem seus ouvintes concernente a
contribuição financeira, indo além dos limites dos dízimos
e das ofertas regulares instituídas na Bíblia, pregando um
Evangelho adulterado.
Sem querer criticar A ou B, a
nossa preocupação está em não entrarmos pelo mesmo
caminho deles, pois já há tendências de imitações. Isso
não nos serve! Deus nos trouxe até aqui do jeito que somos
e dessa maneira nos conduzirá até o fim da jornada da
igreja. Deus não precisa de manipulações para tornar notória
a sua obra, pois Ele “escolheu as coisas loucas deste
mundo para confundir a sábias; e Deus escolheu as coisas
fracas deste mundo para confundir as fortes” (1Co 1.27). A
Bíblia diz: “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor
fraudulosamente...” (Jr 48.10). O objetivo do culto é
adorar a Deus e não fazer espetáculo para agradar ao público.
b)
Estratégias de acordo com os princípios da Palavra:
Não somos contra as novas estratégias para alcançar o
pecador, desde que específicas, e não as mesmas do mundo
dos negócios. Se um método torna-se ineficiente, é necessário
buscar alternativas, desde que estejam de acordo com a
Palavra de Deus. Os princípios não podem mudar, mas sim,
as estratégias. Segundo apóstolo Paulo, essa tendência
mercadológica significa falsificar ou mercadejar a Palavra
de Deus: “Porque nós não somos, como muitos,
falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo
com sinceridade, como de Deus na presença de Deus” (2 Co
2.17).
*
Isso envolve práticas
da simoníase, adulterar a Palavra de Deus, fazer da
religião comércio e faltar com a sinceridade diante de
Deus, visando interesses pessoais. Por iss, esses
marketeiros usam os mesmos recursos de marketing para
persuadir o povo.
*
A palavra grega usada
para “falsificadores” é o verbo kapeleuō,
que segundos os dicionários e léxicos da língua grega
significa “traficar, comerciar, falsificar, adulterar,
lucrar com um negócio”. A Septuaginta usa a palavra kapelos,
“comerciante”, com o sentido de mistura em Isaías
1.22. No contexto do Novo Testamento, o apóstolo está se
referindo tanto aos mercadores, aqueles que usam a Palavra
de Deus, visando interesses
pessoais, como aos falsificadores, que adulteram e
sofismam a Palavra para agradar as pessoas e delas tirarem
vantagens.
*
O sentido aqui, de
acordo com a obra Chave Lingüística do Novo
Testamento Grego, refere-se “àqueles que
mascateariam ou mercadejariam com a Palavra de Deus para
benefício próprio”. A Versão Almeida Atualizada diz:
“Porque nós não estamos, como tantos outros,
mercadejando a palavra de Deus”, a NVI: “Ao contrário
de muitos, não negociamos a palavra de Deus visando
lucro” e a Tradução Brasileira: “Pois não
estamos, como muitos, mercadejando com a palavra de
Deus”.
No
final do versículo anterior o apóstolo pergunta: “E,
para essas coisas, quem é idôneo?”, isso parece mostrar
que Paulo estava respondendo a uma acusação, além de
revelar que seus acusadores eram aproveitadores. Dois pontos
básicos podem ser visto nessa declaração paulina: desde
muito cedo na história do cristianismo já havia
aproveitadores que usavam a Palavra de Deus visando lucros
pessoais, e que havia também os que criticavam o apostolado
de Paulo (1 Co 9.3).
3.
A LEGITIMIDADE
DOS RECURSOS FINANCEIROS NA IGREJA
Apóstolo
Paulo recebeu ajuda e oferta das igrejas, mas isso era
resultado de seu trabalho e não objetivo dele: “Não que
procure dádivas, mas procuro o fruto que aumente a vossa
conta” (Fp 4.17). Quando esteve em Corinto, teve as suas
necessidades pessoais supridas, mas nunca pediu nada a nenhum
dos irmãos daquela cidade, para evitar possível desgaste,
pois aqueles irmãos não eram generosos e foram insensíveis
às necessidades do apóstolo. Ele mesmo afirma que teria todo
o direito de ser sustentado por aquela igreja, mas abriu mão
disso para evitar escândalo: “Mas nós não usamos deste
direito; antes, suportamos tudo, para não pormos impedimento
algum ao evangelho de Cristo” (1 Co 9.12). Eles não tinham
a generosidade dos irmãos filipenses (Fp 4.15-19).
3.1.
Digno é o obreiro de seu salário.
Desde a antiguidade que os judeus aprendiam pelo menos uma
profissão alternativa, em virtude das constantes perseguições
e ameaças de extinção. A profissão alternativa de Saulo
de Tarso era de “fazedor de tendas” e dela se valeu em
Corinto, quando precisou no exercício do seu ministério
apostólico (At 18.3). Somente depois que ele saiu de
Corinto é que lançou em rosto a mesquinhez daqueles irmãos,
dizendo que outras igrejas o sustentaram para que o mesmo
pudesse servir aos coríntios (2 Co 11.8). Depois que o apóstolo
deixou a cidade apresentou a sua defesa, baseada no sistema
sacerdotal estabelecido na Lei de Moisés (1 Co 9.9-10) e
nas palavras do próprio Senhor Jesus (1Co 9.14). O Senhor
Jesus disse que “digno é o obreiro de seu salário” (Mt
10.10 e Lc 10.7) expressão que foi citada pelo apóstolo
Paulo (1 Tm 5.18). Esse conceito vem deste o Velho
Testamento, pois os profetas, como os demais seres humanos têm
suas necessidades básicas que precisam ser supridas. Deus
proveu sustento para todos os chamados para uma obra específica,
e na atualidade não é diferente.
3.2.
Os dízimos e os levitas.
A Bíblia diz que os dízimos são dos levitas e sacerdotes
(Nm 18.21-24 e Hb 7.5) para que haja mantimento na Casa de
Deus (Ml 3.10). Eles por sua vez pagavam deles os dízimos
dos dízimos (Nm 18.26). Não tiveram possessão da terra (Nm
18.23, 24 e Dt 12.12). Eles eram sustentados pelos dízimos
(Nm 18.2; Dt 18.1-4) e tinham permissão para residir em 48
cidades separadas para sua habitação (Nm 35.1; Js 21.1)
seis delas foram designadas como cidades de refúgio.
A
função deles estava ligada ao ritual da purificação,
transporte do Tabernáculo e auxílio aos trabalhos dos
sacerdotes (Nm 3.6-10; 4.3; 8.5, 24-26). Suas terras não
podiam ser vendidas: eram heranças perpétuas (Lv
25.32,34), por isso não podiam possuir bens de produção,
mas apenas bens de consumo. Estão no seio da Igreja tanto
os genuinamente chamados por Deus para o trabalho como também
os que se aproveitam da situação para ganharem a vida.
O
uso das modernas técnicas de comunicação e marketing pode
ajudar muito na comunicação do Evangelho, mas isso pode
confundir o sagrado com o profano. Mas, nós não estamos
vendendo coisa alguma, mas oferecendo a salvação gratuita
em Jesus (Rm 6.23). O preço da salvação já foi pago na
cruz do Calvário para que se tornasse grátis para o homem.
Visto que se trata de algo gratuito isso requer métodos
especiais os quais encontramos na Bíblia. O marketing é
para vendas e não para algo que se quer doar.
(Texto
originalmente publicado na Revista OBREIRO, Ano 26, nº 26,
pg.25-29.)
Glossário:
Conheça
o significado de termos e expressões utilizados no estudo
deste trimestre.
Para
saber mais:
1.
A respeito do Triunfalismo
SOARES,
Esequias. Heresias e modismos: uma análise crítica das
sutilezas de Satanás. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.
320-34.
HANEGRAAFF,
Hank. Cristianismo em crise. 4.ed., Rio de Janeiro:
CPAD, 2004, p. 68-109.
2.
A respeito da Exegese e Eisegese
BENTHO,
Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada.
3.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 55-87
3.
A respeito de Marketing
CARVALHO,
César M. Marketing para a escola dominical. Rio de
Janeiro:CPAD, 2006.
Revista
Resposta Fiel. RJ: CPAD.
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