|
É
apologista e o maior especialista em modismos teológicos no
Brasil, alerta sobre movimentos religiosos que distorcem o
conteúdo do Evangelho e como tratar vítimas dessas
distorções.
Matéria publicada na Revista
Resposta Fiel.
Paulo
Romeiro, 53 anos, é um dos maiores nomes da apologética
cristã no Brasil. Casado com a psicóloga Simone Romeiro e
pai de Alyne, 18, e Adryel, 10, ele se converteu a Cristo no
Brasil, em 1971, na Assembléia de Deus, e foi ordenado pastor
em 1984, pela Assembléia de Deus norte-americana do Distrito
Sul da Califórnia, Estados Unidos, onde morou por sete
anos.
Formado
em Jornalismo, mestre em Teologia e doutor em Ciência da
Religião, Romeiro hoje pastoreia a Igreja Cristã Trindade,
em São Paulo, uma igreja independente fundada por ele, mas
com a mesma Teologia das Assembléias de Deus.
“As revistas de Escola Dominical da minha igreja são da
CPAD”, enfatiza
o líder, que tem livre trânsito na denominação.
Romeiro
foi um dos fundadores do Instituto Cristão de Pesquisas (ICP),
de onde saiu para fundar e dirigir a Agência de Informações
Religiosas (Agir). Autor de quatro livros, um deles publicado
pela CPAD (Desmascarando as seitas, com co-autoria do
pastor Natanel Rinaldi), ele fala nesta entrevista sobre os
estragos provocados no Brasil pelos recentes modismos teológicos
e como tratar os crentes que encontram-se decepcionados com a
igreja devido a distorções pregadas em muitos lugares.
RF
-
Quais
foram os principais modismos teológicos dos últimos tempos
que causaram maiores estragos ao povo de Deus no Brasil?
PR
- A
Teologia da Prosperidade é um, depois outras doutrinas que
foram aparecendo como a Quebra de Maldição Hereditária, o
G-12 e as distorções na área de batalha espiritual, porque
a ênfase passa a ser nos demônios, em espíritos
territoriais. São várias as distorções na área de batalha
espiritual. Vimos também os abusos na área dos milagres. E
como combater isso? Só existe um meio: com a Bíblia. É
preciso voltar aos fundamentos, ao básico, à Palavra de
Deus.
RF
-
Recentemente
entrevistamos o professor James Packer, que nos disse que a
Teologia da Prosperidade já não tem força nos EUA como
antes. O senhor acredita que a Teologia da Prosperidade ainda
terá muito fôlego no Brasil e na América Latina?
PR
-
Ela terá por causa da tirania do mercado. Ela precisa de
dinheiro para sobreviver e as igrejas que pregam a Teologia da
Prosperidade conseguem arregimentar a multidão. Essa doutrina
prega o que as pessoas querem ouvir. Ela oferece uma ajuda
imediata para problemas imediatos. “Você, que não consegue
casar, vem aqui e vou lhe arranjar um parceiro”. Ou “Você,
que não consegue prosperar, faz a corrente aqui e vai
prosperar”.
RF
-
Quem
é o culpado pela ênfase nas soluções imediatas para os
problemas?
PR
-
Esse
é o grande problema. Muitas igrejas não pregam mais a Salvação.
Elas pregam a solução de problemas. Mudaram o foco. Elas não
têm, por exemplo, um trabalho a médio e longo prazo com os
seus membros, porque aí precisam falar de vida eterna. Você
já viu, por exemplo, essas igrejas falarem sobre Céu,
Santificação e Volta de Cristo? Tem pregador que nem quer
que Jesus volte, porque ele está tão bem na vida hoje que a
Volta de Cristo irá estragar os planos dele.
RF
-
O
senhor tem falado ultimamente que tem aumentado no Brasil o número
de crentes desiludidos e frustrados com a fé cristã por
terem acreditado na Teologia da Prosperidade. Como tratar os
crentes nessa situação?
PR
-
Os
pesquisadores e sociólogos chamam isso de “trânsito
religioso”. Há uma igreja em trânsito hoje. São milhares
e milhares de crentes, talvez milhões, que não conseguem
mais parar em igreja nenhuma. Eles transitam. Qual a igreja
que oferece a melhor proposta ou o melhor entretenimento? Qual
a igreja que vai oferecer o melhor show daquele fim de
semana?
Converti-me
ao Evangelho em 1971 e, naquela época, nunca esperava que um
dia algumas denominações chamassem um culto evangélico de show.
Agora tudo é show. Há igrejas que só funcionam como shows.
É a forma de prender a multidão. “Olha, hoje à noite tem
fulano de tal, amanhã tem beltrano e depois aquele outro”,
e não pára. Porque, se parar,
o povo vai embora.
RF
-
E
como tratar um crente assim?
PR
-
É
preciso ensino da Palavra, porque as pessoas que saem dessas
igrejas chegam cheias de ensinos distorcidos. Elas chegam
falando, por exemplo: “Fulano foi ungido pastor”. Mas na Bíblia
não existe unção para pastor. Na Bíblia as pessoas eram
ordenadas ao ministério por imposição de mãos, e não
ungidas, e a unção não é privilégio de um grupo. Eles vêm
cheios desses cacoetes “Eu declaro”, “Eu reivindico”,
“Eu não aceito”, “Eu determino”, “Eu decreto”,
chegam com distorções doutrinárias.
Aí
você tem que ensinar à pessoa que o fato de ela estar em
crise não quer dizer que é amaldiçoada. Nunca vi isso. Essa
coisa de determinar tudo é falta de ensino. Terão também
que repensar a questão do sofrimento, que faz parte da
Teologia. Muitos pensam que não existe sofrimento para o
crente. O crente não pode adoecer, sofrer, ter dívidas etc.
Às vezes fico pensando: até que ponto a pessoa pode
acreditar na aguinha em cima do rádio, na cruz pregada na
parede, nos sabonetes ungidos...batismo no Espírito Santo com
pó de ouro! Há ainda o tapete ungido, a campanha para os
adeptos ganharem na loteria etc. O ser humano tem a habilidade
de crer em qualquer coisa.
O
discipulado é também muito importante. Esses crentes passam
a viver uma crise de conversão. As igrejas por onde passaram
são fortes na sua ação evangelizadora, atraem o povo, mas são
fracas na sua ação discipuladora. Elas não conseguem mais
discipular. Porque, para discipular, gasta-se tempo,
envolvimento, e isso não existe mais.
Além
disso, muitos pregadores de hoje vivem no avião, falam com as
pessoas da tevê, não têm mais relacionamentos, a não ser
com empresários. Precisamos ajudar as pessoas a crescerem
para que possam ajudar outras depois. Uma coisa muito
importante ainda é o acolhimento. É preciso acolher essas
pessoas, não olhá-las com suspeitas, porque, na verdade,
elas já se decepcionaram onde estiveram.
RF
-
O
Movimento Pentecostal foi, sem dúvida, um dos últimos
avivamentos que a igreja experimentou nos últimos séculos,
afetando o crescimento e a História da Igreja no mundo. No
final do século 20, uma versão diferente desse movimento
surgiu, com modismos sem base bíblica. Deixando de lado esses
desvios, quais os benefícios do Movimento Pentecostal para a
Igreja, especialmente no Brasil?
PR
-
A
grande contribuição do Movimento Pentecostal foi a
evangelização. Ele é o maior movimento evangélico do
mundo. Não tem maior. Mas não foi só a AD, outras igrejas
também enfatizavam a evangelização. Hoje, porém,
infelizmente, muitas igrejas estão substituindo a evangelização
pela competição, pelo proselitismo. Tem muito mais crente
mudando de igreja do que pecador aceitando a Cristo. Há
igrejas que crescem hoje por competição e não pela
evangelização, e com isso aí o Reino de Deus não cresce. Só
se muda o peixe do aquário.
RF
-
O
que é preciso para se fazer apologética cristã saudável?
PR
- Principalmente
equilíbrio. Há pessoas que são apologistas, mas exageradas,
sensacionalistas. É preciso amor. Vejo muitos apologistas
hostis, atacando as pessoas. Não gosto nem mais de usar o
termo seita ou heresia. Acho muito pejorativo. Hoje falo de
fenômeno religioso ou movimentos religiosos.
A
apologética precisa aprender a construir pontes e não
levantar muros. Se ela já chega atirando, o pessoal corre. Os
apologistas precisam aprender a dialogar. Não precisa ser
hostil. A Bíblia diz: “Falai a verdade com amor”. Além
disso, a informação a ser transmitida deve ser apurada.
Entrevista
cedida a:
Revista
RESPOSTA FIEL - Ano Ano
5, nº 17, set/out/nov de 2005, p.10-12.
|