Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

Subsídios extras para a lição Heresias e Modismos

 
Lição 01 - A Sutileza de Satanás no Fim dos Tempos



Leitura Bíblica em Classe

Colossenses 2.4-11


Esboço da Lição

Introdução

I.   Os Ardis de Satanás

II.  A Perícia dos Heresiarcas

III. As Sutilezas do Erro

IV. Os Rudimentos do Mundo

Conclusão


Tema deste Subsídio
A Sedução da Filosofia – uma advertência aos estudiosos da Bíblia.

Autor
Norman L. Geisler. Diretor do Southern Evangelical Seminary, erudito em apologética com mais de 40 obras publicadas, entre elas Resposta às Seitas pela CPAD.

Tradução
Gordon Chown

Adaptação
Setor de Educação Cristã

Palavras-chaves
Filosofia; Proto-gnóstico; Naturalismo; Racionalismo; Anti-sobrenaturalismo; Mitologia; Agnosticismo; Evolucionismo; Ceticismo; Alta Crítica; Progressivismo; Historicismo; Existencialismo.

Introdução
A exortação do apóstolo Paulo no sentido de termos cuidado com a filosofia (Cl 2.8) é tão urgente hoje quanto o era no século I, ou talvez ainda mais. E essa verdade é aplicável, não somente aos cristãos que se chamam de filósofos, mas àqueles que não o são, mormente para os exegetas bíblicos. 

1. Por que devemos ter cuidado com a filosofia?

Embora o contexto de Cl 2.8 provavelmente faça referência a uma filosofia do tipo proto-gnóstico em Colossos, que consistia de uma mistura desastrosa de legalismo, ascetismo, e misticismo com o cristianismo, as implicações da exortação de Paulo – “tenham cuidado com a filosofia” – são aplicadas, de modo apropriado, a outros sistemas alheios de pensamento que têm, a partir de então, invadido o cristianismo no decurso das eras [1].

2. Filosofias atuais

Existem muitas filosofias na atualidade com as quais devemos tomar cuidado. 
Mas antes de lidar com elas, vou mencionar, de leve, algumas das ideologias mais perniciosas desses últimos séculos. Entre elas, poucas têm sido mais destrutivas do que o naturalismo, tanto da espécie metafísica quanto da espécie metodológica.

2.1. Cuidado com o Naturalismo

O naturalismo é a filosofia que nega que existam intervenções sobrenaturais no mundo. Jaz à raiz da crítica bíblica negativa moderna, que teve seu início em 1670 com a publicação do Tractatus Theologico-Politicus.

a) Principal Proponente: Baruque Spinoza

Spinoza argumentava que “nada, pois, chega a acontecer na natureza que seja contrário às suas leis universais; pelo contrário, todas as coisas concordam com essas leis e delas provêm, pois... ela mantém uma ordem fixa e imutável.” Realmente, para ele “um milagre, seja em contravenção contra a natureza, seja além dela, é puro absurdo.” 
Esse panteísta judeu holandês de renome foi nada menos que dogmático no tocante à impossibilidade dos milagres. Proclamou, enfaticamente: “Podemos, portanto, ter certeza absoluta de que todos os eventos que são descritos corretamente nas Escrituras aconteceram necessariamente de conformidade com as leis naturais, assim como todas as demais coisas” [
2].

* Racionalismo naturalístico. Seu racionalismo naturalístico levou-o à conclusão de que, posto que existem muitas passagens no Pentateuco que Moisés não poderia ter escrito, segue-se que a crença de que Moisés fosse o autor do Pentateuco é infundada e até mesmo irracional” [3]. Pelo contrário, insistiu Spinoza, foi escrito pela mesma pessoa que escreveu o restante do Antigo Testamento – pelo escriba Esdras [4]. Spinoza também rejeitava os relatos da Ressurreição nos Evangelhos. 
No tocante ao cristianismo, disse que “os apóstolos que vieram depois de Cristo pregaram o cristianismo a todos os homens como religião universal somente em virtude da Paixão de Cristo.” [
5] Para Spinoza, não houve ressurreição. Posto que o cristianismo ortodoxo tem mantido, desde os tempos mais antigos, tanto com base nas Escrituras (1Co 15.1-14) quanto nos credos, que à parte da verdade da ressurreição de Cristo, o cristianismo seria uma falsa religião, sem esperança, segue-se que o ponto de vista de Spinoza está diametralmente oposto à ortodoxia [6]. 

* Negação dos milagres da Bíblia. A verdade é que Spinoza negava categoricamente todos os milagres na Bíblia. Elogia como “ser inteligente qualquer pessoa que procura as verdadeiras causas dos milagres e se esforça para compreender os fenômenos naturais...” [7]. 
Não somente chegou à conclusão de que “todos os eventos... nas Escrituras aconteceram, necessariamente, assim como todas as demais coisas, de conformidade com as leis naturais,” [
8] mas também de que as próprias Escrituras fazem a asseveração de que o decurso da natureza é “fixo e imutável”[ 9]. Em poucas palavras: 
os milagres são impossíveis.

Finalmente, Spinoza argumentava que os profetas não falavam por “revelação” sobrenatural e que “os modos de expressão e argumento adotados não foram escritas por revelação e ordem divinas, mas “meramente pelos poderes naturais dos autores, e segundo o juízo destes” [10]. 
O naturalismo de Spinoza levou diretamente à primeira crítica negativa sistemática moderna da Bíblia. Tem tido um efeito devastador na interpretação bíblica. Sua obra serviu de inspiração para Richard Simon, que passou a ser conhecido como o “Pai da Crítica Bíblica Moderna.” 

Adotar o naturalismo de Spinoza é um exemplo claro e evidente de negligenciar atenção à advertência do apóstolo no sentido de “tomar cuidado com a filosofia.”

b) David Hume – Ceticismo e Naturalismo Filosófico.

O cético escocês David Hume (1711–1776) continuou o anti-sobrenaturalismo de Spinoza, mas de uma maneira que menos ofende o conceito moderno da lei científica. No Livro Dez do seu afamado Inquérito a respeito do Entendimento Humano (1748), deslanchou seu ataque contra os milagres [11]. Nas próprias palavras de Hume, o raciocínio se desenvolve assim:

1) “Um milagre é uma violação das leis da Natureza”;

2) “A experiência firme e inalterável estabeleceu essas leis 
[da natureza]”;

3) “O sábio proporciona sua crença com as evidências”;

4) Por isso, “a comprovação contra os milagres...é tão inteiro quanto qualquer argumento proveniente da experiência que possa ser excogitada”.

Em resumo, Hume escreveu: “Deve, portanto, existir uma experiência uniforme contra cada evento milagroso. Doutra forma, o evento não mereceria aquele apelativo.” Portanto: “nada é considerado milagre se já aconteceu no decurso comum da natureza”[12]. 

* Conseqüências do Naturalismo Filosófico. Os resultados do naturalismo filosófico de Hume têm sido desastrosos para o cristianismo. Seu amigo, James Hutton (1726–1797) aplicou o anti-sobrenaturalismo à geologia, e assim inaugurou quase dois séculos do naturalismo na ciência. Não muito tempo depois de Hume, David Strauss (1808–1874) escreveu a primeira versão dessobrenaturalizada da vida de Cristo. Conforme diz a linguagem popular: o resto é História. Ou, melhor: o resto é a destruição da História – mormente a História dos milagres registrada nas Escrituras.

Outra conseqüência do anti-sobrenaturalismo tem sido a negação da profecia vaticinadora futurista. 
Foram inventados dois Isaías, e as profecias de Daniel foram pós-datadas para depois dos eventos assombrosos que tinham previsto. 

Dessa maneira, uma explicação puramente naturalista podia ser suprida. Em tudo isso, temos evidências das conseqüências de não prestar atenção obediente à injunção “tomem cuidado com a filosofia.” Se, pois, existe um Deus sobrenatural que sabe o futuro, não existe nada que possa  impedi-lo de predizê-lo de antemão. Portanto, datar Daniel para depois dos eventos da história mundial que ele predisse ou postular outro Isaías porque, de outra forma, Ciro teria sido mencionado um século e meio antes de o Isaías original ter nascido, baseiam-se, no fundo, numa rejeição do sobrenatural. A partir disso, fica claro que a ascensão e disseminação da alta crítica negativa é fundamentalmente uma questão filosófica, à parte dos fatos. 

Na realidade, as evidências factuais têm progredido em direção aos pontos de vista conservadores durante quase um século, conforme foi demonstrado nas opiniões cada vez mais conservadoras do afamado arqueólogo e paleógrafo William F. Albright. À medida que entravam as evidências, Albright, de modo diferente de tantas outras pessoas, dispunha-se a abrir mão das suas pressuposições, e a aceitar os fatos históricos. Foi por isso mesmo que avançava cada vez mais numa direção mais conservadora.

  c) Rudolph Bultmann – Evangelhos e Mitologia

Recentemente, empregando a mesma pressuposição anti-sobrenaturalista herdada de Spinoza e Hume, Rudolph Bultmann (1884–1976) transformou a história nos Evangelhos em mitologia evangélica. Por quê? Porque, segundo as próprias palavras dele, acreditava ser tanto insensato quanto impossível não re-conhecer os Evangelhos como mito. “Seria insensatez, porque nada há de especificamente cristão no conceito mitológico do mundo propriamente dito. Não passa da cosmologia de uma era pré-científica” [13]. Ainda mais: “Seria impossível, porque ninguém pode adotar um conceito do mundo mediante a sua própria vontade – esse conceito já é determinado para ele por seu lugar na História”[14]. 
A razão para isso, diz Bultmann, é que “todo o nosso pensamento hoje é moldado, por bem ou por mal, pela ciência moderna.” Portanto, “a aceitação cega da mitologia do Novo Testamento seria irracional...envolveria um sacrifício do intelecto... Envolveria aceitar, em nossa fé e religião, uma cosmovisão que negaríamos todos os dias em nossa vida” [
15]. 

Com confiança ilimitada na modernidade, Bultmann declarou que o quadro bíblico dos milagres era impossível para o homem moderno. Isso porque “o conhecimento e domínio do mundo por parte do homem avançou a tal ponto, através da ciência e tecnologia, que já não é mais possível alguém manter com seriedade a cosmovisão neotestamentária – e, realmente, quase não existe ninguém que a mantenha. Portanto, a única maneira honesta de recitar os credos é arrancar o arcabouço mitológico da verdade nele perpetuado...” [
16]. Isso significa que “a  ressurreição de Jesus é igualmente difícil de ser crida, pois envolveria um evento através do qual um poder sobrenatural opera...Para os biólogos, semelhante linguagem é destituída de significado” e “semelhante noção [a idealista] considera intolerável” [17]. 

* Naturalismo Metodológico. Embora os evangélicos não tenham aceito o naturalismo metafísico de Spinoza ou de Hume, nem por isso deixaram de ficar acossados pela descendência daqueles: o naturalismo metodológico tanto na ciência (através do evolucionismo teístico) quanto na crítica bíblica. Neste último caso, o naturalismo tem sido ingerido principalmente através de metodologias tais como a crítica da redação, que toma por certo um desenvolvimento literário gradual do texto. Quanto a isso, é um refrigério ler a obra penetrante da notável crítica bíblica Eta Linnemann, que antes era bultmaniana, no seu livro recém-publicado em alemão, que em inglês receberá o título de Higher Criticism in the Dock (A Alta Crítica no Banco dos Réus), desnuda os pés de barro da crítica bíblica negativa.

2.2. Cuidado com o Agnosticismo.

a) Emanuel Kant

O grande pensador alemão, Emanuel Kant (1724–1804) declarou que foi acordado do sono dogmático por David Hume, não aoceticismo, mas ao agnosticismo. Na sua obra de peso: Crítica da Razão Pura (1781) e, menos proclamada mais altamente influente, Religion Within the Limits of Mere Reason 
(A Religião dentro dos Limites da Mera Razão – 1793), argumentou que Deus não pode ser conhecido (nem sequer através da revelação) e que a natureza da religião é moral. Insistia que a nossa mente e sentidos são estruturados de tal maneira que não podemos conhecer a realidade em si mesma (o âmbito numinoso) mas somente aquilo que aparece diante de nós (os fenômenos). A ciência, portanto, é possível porque fala do mundo observável. Mas a metafísica não é possível

* Fatos e Valores. Além disso, Kant fez uma bifurcação entre o âmbito observável dos fatos e o âmbito dos valores. Essa dicotomia tem sido fatal para os estudos bíblicos. Leva a uma negação da importância, ou até mesmo da própria existência, do registro factual e histórico nas Escrituras, e à ênfase [exclusivista] sobre as dimensões morais e religiosas que têm dominado a teologia liberal desde os tempos de Kant. 

* Liberalismo Filosófico. Portanto, o problema com o liberalismo que se origina de Kant não é factual mas, sim, filosófico. Não é exegético mas, sim, ideológico. 
Importa para os estudos bíblicos a metafísica e a metodologia estranhas. O próprio Kant concluiu que a religião cristã devia operar sem a crença nos milagres, e declarou que “se é para ser estabelecida uma religião moral (que consiste, não em dogmas e ritos, mas na disposição do coração para cumprir todos os deveres humanos como mandamentos divinos), todos os milagres que a História associa com a sua inauguração devem, no fim, por sua vez, tornar supérflua a crença nos milagres em geral” [18]. Considerando a influência imensa de Kant sobre o mundo moderno, percebemos, de novo, a importância de nossa tese de “tomar cuidado com a filosofia.”

2.3. Cuidado com o Evolucionismo

a) Herbert Spencer e Charles Darwin

Muitos pensadores sofrem da ilusão de que a evolução é uma ciência empírica quando, na realidade, é uma filosofia. 
A macro-evolução é uma filosofia cujos dogmas naturalísticos foram definidos pelo homem que Charles Darwin chamava de “nosso grande filósofo,” Herbert Spencer (1820–1903) [
19]. Spencer começou sua filosofia enquanto meditava sobre as ondas formadas numa lagoa certo domingo de manhã – algo que, com certeza, nunca teria acontecido se tivesse ficado na igreja meditando na Palavra de Deus!  
Muitos evolucionistas não se satisfaziam com a hipótese de que a vida evoluiu do singelo para o complexo. Aplicaram o mesmo método naturalístico à sociedade e à religião, e alegavam que estas, também, se evolveram. Essa idéia deu origem ao mito, que ainda existe, de que a crença religiosa evoluiu da magia para o politeísmo, e daí para o henoteísmo e, finalmente, para o monoteísmo. Esse conceito tem dominado o cenário desde quando o James Frazer escreveu The Golden Bough em 1890, embora a descoberta da criação monoteísta ex nihilo nas Tábuas de Ebla devesse ter sepultado semelhante teoria, posto que estas são muito mais antigas do que as origens documentárias de Frazer [
20]. 

O próprio Charles Darwin propôs, na sua obra A Descendência do Homem (1871), coisa semelhante. “As mesmas faculdades mentais sublimes... levaram o homem a acreditar em agências espirituais invisíveis e, depois, no fetichismo, no politeísmo e, em última análise, no monoteísmo...” [21]. Baseado na sua  pressuposição naturalista, escreve na sua autobiografia: “A essas alturas, eu chegara paulatinamente a perceber que o Antigo Testamento, com sua história universal manifestamente falsa, inclusive a Torre de Babel, o arco-íris como um sinal etc, não era mais fidedigna do que os livros sagrados dos hindus, ou as crenças de qualquer bárbaro” [22]. Resumindo, Darwin concluiu que “Tudo na Natureza é resultado de leis fixas.” Acrescentou: “Ao refletir, ainda, que evidências claríssimas seriam necessárias para levar qualquer homem, que não fosse louco, a crer nos milagres nos quais se baseia o cristianismo, – que quanto mais sabemos a respeito das leis fixas da Natureza, mais incríveis se tornam os milagres – que os homens daqueles tempos eram ignorantes e crédulos a um ponto que nos é quase incompreensível, – que não se pode comprovar que os Evangelhos foram escritos simultaneamente com os eventos – que diferem entre si quanto a muitos pormenores importantes, muito importantes demais (conforme me parecia) para serem aceitos como inexatidões usuais das testemunhas oculares – mediante reflexões tais como estas... Cheguei paulatinamente a descrer no cristianismo como uma revelação divina” [23]. 

* Conseqüências do Evolucionismo para a Sociedade. O resultado da filosofia do evolucionismo tem sido catastrófico para os estudos bíblicos e teológicos. 
A historicidade e exatidão científica do registro em Gênesis têm sido negadas. A doutrina da Criação tem sido descartada, com graves conseqüências morais em nossa dignidade e sociedade. Hitler, por exemplo, aplicou à sociedade o conceito darwiniano, com conseqüências humanas horrendas, e argumentava que “se a Natureza não deseja que indivíduos mais fracos se acasalem com os mais fortes, deseja, muito menos, que uma raça superior se misture com uma inferior; porque nesse caso, todos os esforços feitos, no decurso de centenas de anos, para estabelecer uma etapa superior evolucionária de existência podem assim ser tornados fúteis.” 
Passou, então, a dizer que “semelhante preservação vai de mãos dadas com a lei inexorável que decreta que são os mais fortes e os melhores que devem triunfar, e que têm o direito de permanecer” [24].  Com isso, trucidou cerca de doze milhões de seres humanos que considerava membros de raças inferiores. Na verdade, o texto evolucionista usado no Estado de Tenessee e que ficou em debate no processo John Scopes era racista, e se referiam à raça caucasiana como “o tipo mais sublime de todos” [25].

* Conseqüências do Evolucionismo para a Teologia. Os danos feitos pelo darwinismo no âmbito da teologia têm sido igualmente indesejáveis. Sem dúvida, alguns estudiosos têm procurado, com bravura mas também com futilidade, reconciliar o evolucionismo e as Escrituras; entre elas havia James Orr e A. A. Strong, mas só conseguiram violar o método gramático-histórico e,  inconscientemente, subverter tanto a dignidade humana quanto a ortodoxia teológica. Deixaram de prestar atenção à advertência de Charles Hodge na sua obra publicada em 1878, com o título What is Darwinism? na qual Hodge respondeu corretamente: “É ateísmo. 
Isso não significa, conforme já dissemos, que o próprio  sr. Darwin e todos quantos adotam as suas teorias sejam ateus; significa, sim, que sua teoria é atéia; que excluir da natureza o desígnio é ... a mesma coisa que o ateísmo.”[26]. Afinal de contas, se não houve desígnio, logicamente não há necessidade de um Projetista. 
E se as coisas não foram criadas, obviamente não houve Criador. Nesse caso, de novo, dores teológicas severas poderiam ter sido evitadas por meio de levar a sério à exortação bíblica: “Tomem cuidado com a filosofia.”

2.4. Cuidado com a Filosofia do Progressivismo

a) Geoge Wilhelm Hegel – Historicismo.

Boa parte da erudição bíblica moderna foi sorvida pela filosofia do historicismo na esteira do panteísmo desenvolvimental de George Wilhelm Hegel (1770–1831). Na sua obra maciça A Fenomenologia do Espírito (1807) e, posteriormente, na sua Encyclopédia da Filosofia (1817), Hegel definiu seu progressivismo histórico naquilo que veio a ser conhecido, através de uma interpretação errônea de Johann Fichte (1762–1814) como uma dialética de tese, antítese e síntese [27]. Apesar disso, Hegel realmente afirmou que a História é o desdobrar do Espírito Absoluto numa dialética desenvolvimentista. 

* Conseqüências do Hegelianismo. Foram desastrosos para a erudição bíblica os resultados desse assim chamado “hegelianismo.” A Escola de Tübingen de F.C. Baur (1792–1860) argumentava que o Evangelho segundo João deve ser considerado como uma síntese, feita no século II, do conflito anterior entre tese e antítese, entre Pedro e Paulo. Essa conclusão foi elaborada mediante uma desconsideração quase total das evidências internas e externas que favoreciam uma data anterior, no século I, para o Evangelho segundo João. As conclusões supostamente “exegéticas,” no entanto, por mais maciças e eruditas que fossem, eram predeterminadas, em grande medida, por uma filosofia então em voga. De novo, o exegeta bíblico deveria ter acatado a advertência: “Tomem cuidado com a filosofia.”

2.5. Cuidado com o Existencialismo

a) Soren Kierkegaard. 

O pai do existencialismo moderno não era um ateu francês do século XX, mas um cristão dinamarquês chamado Soren Kierkegaard (1813–1855), que poderia ter assinado um documento de apoio aos fundamentos históricos da Fé. Escreveu: “De modo global, a doutrina conforme é ensinada [na igreja] é inteiramente sadia” [28]. Apesar disso, poucos dentro do redil evangélico têm feito mais para subverter, de modo metodológico, a ortodoxia histórica do que Kierkegaard. 

* A Neo-ortordoxia. Foi, realmente, seu filho filosófico, Karl Barth, que deu origem à neo-ortodoxia. Kierkegaard chegou à conclusão de que, mesmo se tomarmos por certo que os defensores do cristianismo “tenham conseguido comprovar no tocante à Bíblia tudo quanto qualquer teólogo erudito já desejou, nos seus momentos mais felizes, comprovar a respeito dela”, a saber, 
que esses livros, e nenhum outro, pertencem ao cânone; que são autênticos; que são integrais; que seus autores são fidedignos – poderemos bem dizer, como se todas as letras são inspiradas” – então, pergunta Kierkegaard: “Alguém que anteriormente não tinha fé foi levado a um único passo em direção a adquirir essa fé? Não, nem um único passo” [29]. 

Depois, Kierkegaard postulou o inverso, a saber: 
“Se os oponentes conseguiram comprovar o que querem  no tocante às Escrituras, com uma certeza que transcende o desejo mais ardente da hostilidade mais apaixonada – e daí? Os oponentes aboliram, assim, o cristianismo? 
De modo algum. O crente foi lesado? De modo algum, nem no mínimo” [30]. No mínimo, a bifurcação feita por Kierkegaard entre os fatos e os valores foi axiologicamente mal colocada. Na realidade tem sido biblicamente desastrosa, conforme tem demonstrado Barth, Brunner e Bultmann – ou quaisquer outros “B” [inglês: “abelha”] que andam zunindo nos círculos não-ortodoxos. Basta mencionarmos as crenças, inspiradas por Kierkegaard, de que: 

1) A verdade religiosa localiza-se num encontro pessoal (subjetividade); 

2) A verdade proposicional não é essencial para a Fé; 

3) A alta crítica não é danosa para o cristianismo verdadeiro; 

4) Deus é “totalmente outro” e essencialmente incognoscível, mesmo através da revelação bíblica.

Essas crenças tornam ainda mais relevante a advertência paulina: “Tomem cuidado com a filosofia.” 

(Texto originalmente publicado in Revista RESPOSTA FIEL, Ano 3 – nº 9 set-nov 2003, pg. 26-31.)


Subsídio extra:

Confira a entrevista com o Pastor Enéas Tognini sobre a distribuição de Bíblias e apologética cristã, publicada na Revista Resposta Fiel em junho/2004.


Para saber mais:

GEISLER, Norman L.: RHODES, Ron. Respostas às Seitas. RJ, CPAD, 2000

Revista Resposta Fiel. RJ: CPAD.

 

Notas:

As notas não foram traduzidas. Algumas das obras citadas podem ser encontradas em língua portuguesa.

[1] Ver Norman L. Geisler: “Colosenses,” em The Bible Knowledge Commentary, eds. John F. Walvoord e Roy B. Suck (Wheaton, IL: Victory Books, 1983), 668, 677.

[2] Baruqe De Spinoza: A Theologico-Political Treatise, trad. R.H.M. Elwes (Nova York: Dover Publications, Inc., 1951), 1:83, 87, 92.

[3] Ibid., 126.

[4] Ibid., 129-30.

[5] Ibid., 170 (grifos nossos).

[6] Ver N.L. Geisler: The Battle for the Resurrection (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1992), capítulo 4.

[7] Spinoza: Ética, trad. A. Boyle (Nova York: E.P. Dutton, 1910), parte 1, proposição 36, apêndice.

[8] Ibid., 92.

[9] Ibid., 159, grifos nossos. Spinoza às vezes diz que os profetas falavam por “revelação,” mas entende que este é o “poder extraordinário... [da] imaginação dos profetas” (ibid., 24).

[11] Hume, na realidade, aqui levanta dois argumentos contra os milagres. O primeiro argumento é um argumento em princípio, que toma por certa a credibilidade das testemunhas. O segundo é um argumento na prática, que duvida, na realidade, se algum milagre já chegou a ter testemunhas fidedignas. David Hume: An Enquiry Concerning Human Understanding: and Other Essays, ed. Ernest C. Mossner (Nova York: Washington Square, 1963).

[12] Ibid., 10.1.122-23.

[13] Rudolph Bultmann: Kerygma and Myth: A Theological Debate, ed. Hans Werner Batsch, trad. Reginald H. Fuller (Londres: Billing and Sons, 1954), 68.

[14] Ibid.

[15] Ibid., 3-4.

[16] Ibid.

[17] Ibid., 8.

[18] Emanuel Kant: Religion With the Limits of Reason Alone, trad. Theodore M. Greene et. al., (Nova York: Harper Torchback, 1960), 79.

[19] Ver Herbert Spencer: Principles of Psychology (1855; reimpressão, Nova York: D. Applelton & Co., 1896); First Principles (1862; reimpressão, Londres: Williams & Norgate, 1911).

[20] Ver Eugene H. Merrill: “Ebla and Biblical Historical Inerrancy,” Bibliotheca Sacra 140, nº 560 (outubro-dezembro 1983): 302-21.

[21] Charles Darwin: The Descent of Man, in Great Books of the Western World, ed. Robert Maynard Hutchins. Traduzido por Constance Garnett. (Chicago: Encyclopaedia Britannica, Inc., William Benton, publicador, 1952), vol. 49, 303.

[22] Charles Darwin: The Autobiography of Charles Darwin, ed. Nora Darwin Barlow, (Nova York: Norton & Co., 1993), 85.

[23] Charles Darwin: The Descent of Man, 86-87.

[24] Adolf Hitler: Mein Kampf (Londres: Hurst and Blackett Ltd., Publishers, 1939), 239–40, 242.

[25] Ver George William Hunter: A Civic Biology: Presented in Problems (Nova York: American

Book Company, 1914). Escreveu: “Na atualidade, existem na Terra cinco raças ou variedades dos seres humanos... Trata-se do tipo etiópico ou negróide...; da raça malaia ou marrom...; do ameríndio; da raça mongol, ou amarela...; e finalmente, o tipo mais sublime de todos: os causasianos, representados pelos habitantes civilizados da Europa e da América do Norte” (196).

[26] Charles Hodge: What is Darwinism? (Nova York: Scribner, Armstrong, and Company, 1878), 177.

[27] Ver o capítulo excelente sobre Hegel em Biblical Errancy: Its Philosophical Roots, ed. N.L. Geisler (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1981).

[28] Soren Kierkegaard: Kierkegaard’s Journals and Papers 6.362 em A Kierkegaard Anthology, ed. Robert Bretall (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1973).

[29] Soren Kierkegaard: Concluding Unscientific Postscript to Philosophical Fragments, trad. Howard V. Hong e Edna H. Hong (Princeton, NJ[[!]]: Princeton University Press, 1985), 29-30.

 


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