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Leitura
Bíblica em Classe
Colossenses 2.4-11
Esboço da Lição
Introdução
I.
Os Ardis de Satanás
II.
A Perícia dos Heresiarcas
III.
As Sutilezas do Erro
IV.
Os Rudimentos do Mundo
Conclusão
Tema
deste Subsídio
A Sedução
da Filosofia – uma advertência aos estudiosos da Bíblia.
Autor
Norman
L. Geisler. Diretor
do Southern Evangelical Seminary, erudito em apologética com
mais de 40 obras publicadas, entre elas Resposta
às Seitas pela CPAD.
Tradução
Gordon
Chown
Adaptação
Setor de Educação
Cristã
Palavras-chaves
Filosofia; Proto-gnóstico; Naturalismo; Racionalismo;
Anti-sobrenaturalismo; Mitologia; Agnosticismo; Evolucionismo;
Ceticismo; Alta Crítica; Progressivismo; Historicismo;
Existencialismo.
Introdução
A exortação do apóstolo Paulo no sentido de termos cuidado
com a filosofia (Cl 2.8) é tão urgente hoje quanto o era no
século I, ou talvez ainda mais. E essa verdade é aplicável,
não somente aos cristãos que se chamam de filósofos, mas àqueles
que não o são, mormente para os exegetas bíblicos.
1.
Por que devemos ter cuidado com a filosofia?
Embora
o contexto de Cl 2.8 provavelmente faça referência a uma
filosofia do tipo proto-gnóstico em Colossos, que consistia
de uma mistura desastrosa de legalismo, ascetismo, e
misticismo com o cristianismo, as implicações da exortação
de Paulo – “tenham cuidado com a filosofia” – são
aplicadas, de modo apropriado, a outros sistemas alheios de
pensamento que
têm, a partir de então, invadido o cristianismo no decurso
das eras [1].
2.
Filosofias atuais
Existem
muitas filosofias na atualidade com as quais devemos tomar
cuidado.
Mas antes de lidar com elas, vou mencionar, de leve, algumas
das ideologias mais perniciosas desses últimos séculos.
Entre elas, poucas têm sido mais destrutivas do que o
naturalismo, tanto da espécie metafísica quanto da espécie
metodológica.
2.1.
Cuidado com o Naturalismo
O
naturalismo é a filosofia que nega que existam intervenções
sobrenaturais no mundo. Jaz à raiz da crítica bíblica
negativa moderna, que teve seu início em 1670 com a publicação
do Tractatus Theologico-Politicus.
a)
Principal Proponente: Baruque Spinoza
Spinoza
argumentava que “nada, pois, chega a acontecer na
natureza que seja contrário às suas leis universais; pelo
contrário, todas as coisas concordam com essas leis e delas
provêm, pois... ela mantém uma ordem fixa e imutável.” Realmente,
para ele “um milagre, seja em contravenção contra a
natureza, seja além dela, é puro absurdo.”
Esse panteísta judeu holandês de renome foi nada menos que
dogmático no tocante à impossibilidade dos milagres.
Proclamou, enfaticamente: “Podemos, portanto, ter
certeza absoluta de que todos os eventos que são descritos
corretamente nas Escrituras aconteceram necessariamente de
conformidade com as leis naturais, assim como todas as
demais coisas” [2].
*
Racionalismo
naturalístico.
Seu racionalismo naturalístico levou-o à conclusão de
que, posto que existem muitas passagens no Pentateuco que
Moisés não poderia ter escrito, segue-se que a crença
de que Moisés fosse o autor do Pentateuco é infundada e
até mesmo irracional” [3].
Pelo contrário,
insistiu Spinoza, foi escrito pela mesma pessoa que
escreveu o restante do Antigo Testamento – pelo escriba
Esdras [4].
Spinoza também rejeitava os relatos da Ressurreição nos
Evangelhos.
No tocante ao cristianismo, disse que “os apóstolos
que vieram depois de Cristo pregaram o cristianismo a
todos os homens como religião universal somente em
virtude da Paixão de Cristo.” [5]
Para
Spinoza, não houve ressurreição. Posto que o
cristianismo ortodoxo tem mantido, desde os tempos mais
antigos, tanto com base nas Escrituras (1Co 15.1-14)
quanto nos credos, que à parte da verdade da ressurreição
de Cristo, o cristianismo seria uma falsa religião, sem
esperança, segue-se que o ponto de vista de Spinoza está
diametralmente oposto à ortodoxia [6].
*
Negação
dos milagres da Bíblia.
A verdade é que Spinoza negava categoricamente
todos os milagres na Bíblia. Elogia como “ser
inteligente qualquer pessoa que procura as verdadeiras
causas dos milagres e se esforça para compreender os fenômenos
naturais...” [7].
Não somente chegou à conclusão de que “todos os
eventos... nas Escrituras aconteceram, necessariamente,
assim como todas as demais coisas, de conformidade com as
leis naturais,” [8]
mas também
de que as próprias Escrituras fazem a asseveração de
que o decurso da natureza é “fixo e imutável”[ 9].
Em poucas
palavras:
os milagres são impossíveis.
Finalmente,
Spinoza argumentava que os profetas não falavam por
“revelação” sobrenatural e que “os modos de
expressão e argumento adotados não foram escritas por
revelação e ordem divinas, mas “meramente pelos
poderes naturais dos autores, e segundo o juízo
destes” [10].
O
naturalismo de Spinoza levou diretamente à primeira crítica
negativa sistemática moderna da Bíblia. Tem tido um
efeito devastador na interpretação bíblica. Sua obra
serviu de inspiração para Richard Simon, que passou a
ser conhecido como o “Pai da Crítica Bíblica
Moderna.”
Adotar
o naturalismo de Spinoza é um exemplo claro e evidente de
negligenciar atenção à advertência do apóstolo no
sentido de “tomar
cuidado com a filosofia.”
b)
David Hume – Ceticismo e Naturalismo Filosófico.
O
cético escocês David Hume (1711–1776) continuou o
anti-sobrenaturalismo de Spinoza, mas de uma maneira que
menos ofende o conceito moderno da lei científica. No Livro
Dez do seu afamado Inquérito a respeito do Entendimento
Humano (1748), deslanchou seu ataque contra os milagres
[11]. Nas próprias palavras de Hume, o raciocínio se
desenvolve assim:
1)
“Um milagre é uma violação das leis da Natureza”;
2)
“A experiência firme e inalterável estabeleceu essas
leis
[da natureza]”;
3)
“O sábio proporciona sua crença com as evidências”;
4)
Por isso, “a comprovação contra os milagres...é tão
inteiro quanto qualquer argumento proveniente da
experiência que possa ser excogitada”.
Em
resumo, Hume escreveu: “Deve, portanto, existir uma
experiência uniforme contra cada evento milagroso. Doutra
forma, o evento não mereceria aquele apelativo.”
Portanto: “nada é considerado milagre se já aconteceu no
decurso comum da natureza”[12].
*
Conseqüências
do Naturalismo Filosófico.
Os resultados do naturalismo filosófico de Hume têm sido
desastrosos para o cristianismo. Seu amigo, James Hutton
(1726–1797) aplicou o anti-sobrenaturalismo à geologia,
e assim inaugurou quase dois séculos do naturalismo na
ciência. Não muito tempo depois de Hume, David Strauss
(1808–1874) escreveu a primeira versão
dessobrenaturalizada da vida de Cristo. Conforme diz a
linguagem popular: o resto é História. Ou, melhor: o
resto é a destruição da História – mormente a
História dos milagres registrada nas Escrituras.
Outra
conseqüência do anti-sobrenaturalismo tem sido a
negação da profecia vaticinadora futurista.
Foram inventados dois Isaías, e as profecias de Daniel
foram pós-datadas para depois dos eventos assombrosos que
tinham previsto.
Dessa
maneira, uma explicação puramente naturalista podia ser
suprida. Em tudo isso, temos evidências das
conseqüências de não prestar atenção obediente à
injunção “tomem cuidado com a filosofia.” Se, pois,
existe um Deus sobrenatural que sabe o futuro, não existe
nada que possa impedi-lo de predizê-lo de antemão.
Portanto, datar Daniel para depois dos eventos da
história mundial que ele predisse ou postular outro
Isaías porque, de outra forma, Ciro teria sido mencionado
um século e meio antes de o Isaías original ter nascido,
baseiam-se, no fundo, numa rejeição do sobrenatural. A
partir disso, fica claro que a ascensão e disseminação
da alta crítica negativa é fundamentalmente uma questão
filosófica, à parte dos fatos.
Na realidade, as evidências factuais têm progredido em
direção aos pontos de vista conservadores durante quase
um século, conforme foi demonstrado nas opiniões cada
vez mais conservadoras do afamado arqueólogo e
paleógrafo William F. Albright. À medida que entravam as
evidências, Albright, de modo diferente de tantas outras
pessoas, dispunha-se a abrir mão das suas
pressuposições, e a aceitar os fatos históricos. Foi
por isso mesmo que avançava cada vez mais numa direção
mais conservadora.
c) Rudolph Bultmann – Evangelhos e Mitologia
Recentemente,
empregando a mesma pressuposição anti-sobrenaturalista
herdada de Spinoza e Hume, Rudolph Bultmann (1884–1976)
transformou a história nos Evangelhos em mitologia evangélica.
Por quê? Porque, segundo as próprias palavras dele,
acreditava ser tanto insensato quanto impossível não
re-conhecer os Evangelhos como mito. “Seria insensatez,
porque nada há de especificamente cristão no conceito mitológico
do mundo propriamente dito. Não passa da cosmologia de uma
era pré-científica”
[13]. Ainda
mais: “Seria impossível, porque ninguém pode adotar um
conceito do mundo mediante a sua própria vontade – esse
conceito já é determinado para ele por seu lugar na História”[14].
A razão para isso, diz Bultmann, é que “todo o nosso
pensamento hoje é moldado, por bem ou por mal, pela ciência
moderna.” Portanto, “a aceitação cega da mitologia
do Novo Testamento seria irracional...envolveria um sacrifício
do intelecto... Envolveria aceitar, em nossa fé e religião,
uma cosmovisão que negaríamos todos os dias em nossa vida”
[15].
Com confiança ilimitada na modernidade, Bultmann declarou que
o quadro bíblico dos milagres era impossível para o homem
moderno. Isso porque “o conhecimento e domínio do mundo
por parte do homem avançou a tal ponto, através da ciência
e tecnologia, que já não é mais possível alguém manter
com seriedade a cosmovisão neotestamentária – e,
realmente, quase não existe ninguém que a mantenha.
Portanto, a única maneira honesta de recitar os credos é
arrancar o arcabouço mitológico da verdade nele
perpetuado...” [16].
Isso significa
que “a ressurreição
de Jesus é igualmente difícil de ser crida, pois envolveria
um evento através do qual um poder sobrenatural opera...Para
os biólogos, semelhante linguagem é destituída de
significado” e “semelhante noção [a idealista] considera
intolerável” [17].
*
Naturalismo
Metodológico.
Embora os
evangélicos não tenham aceito o naturalismo metafísico
de Spinoza ou de Hume, nem por isso deixaram de ficar
acossados pela descendência daqueles: o naturalismo
metodológico tanto na ciência (através do evolucionismo
teístico) quanto na crítica bíblica. Neste último
caso, o naturalismo tem sido ingerido principalmente através
de metodologias tais como a crítica da redação, que
toma por certo um desenvolvimento literário gradual do
texto. Quanto a isso, é um refrigério ler a obra
penetrante da notável crítica bíblica Eta Linnemann,
que antes era bultmaniana, no seu livro recém-publicado
em alemão, que em inglês receberá o título de Higher
Criticism in the Dock (A Alta Crítica no Banco dos Réus),
desnuda os pés de barro da crítica bíblica negativa.
2.2.
Cuidado com
o Agnosticismo.
a)
Emanuel Kant
O
grande pensador alemão, Emanuel Kant (1724–1804) declarou
que foi acordado do sono dogmático por David Hume, não
aoceticismo, mas ao agnosticismo. Na sua obra de peso: Crítica
da Razão Pura (1781) e, menos proclamada mais altamente
influente, Religion Within the Limits of Mere Reason
(A Religião dentro dos Limites da Mera Razão – 1793),
argumentou que Deus não pode ser conhecido (nem sequer
através da revelação) e que a natureza da religião é
moral. Insistia que a nossa mente e sentidos são
estruturados de tal maneira que não podemos conhecer a
realidade em si mesma (o âmbito numinoso) mas somente
aquilo que aparece diante de nós (os fenômenos). A ciência,
portanto, é possível porque fala do mundo observável. Mas
a metafísica não é possível
*
Fatos
e Valores. Além disso, Kant fez uma bifurcação
entre o âmbito observável dos fatos e o âmbito dos
valores. Essa dicotomia tem sido fatal para os estudos bíblicos.
Leva a uma negação da importância, ou até mesmo da própria
existência, do registro factual e histórico nas
Escrituras, e à ênfase [exclusivista] sobre as dimensões
morais e religiosas que têm dominado a teologia liberal
desde os tempos de Kant.
*
Liberalismo
Filosófico. Portanto, o problema com o
liberalismo que se origina de Kant não é factual mas,
sim, filosófico. Não é exegético mas, sim, ideológico.
Importa para os estudos bíblicos a metafísica e a
metodologia estranhas. O próprio Kant concluiu que a
religião cristã devia operar sem a crença nos milagres,
e declarou que “se é para ser estabelecida uma religião
moral (que consiste, não em dogmas e ritos, mas na
disposição do coração para cumprir todos os deveres
humanos como mandamentos divinos), todos os milagres que a
História associa com a sua inauguração devem, no fim,
por sua vez, tornar supérflua a crença nos milagres em
geral” [18]. Considerando a influência imensa de Kant
sobre o mundo moderno, percebemos, de novo, a importância
de nossa tese de “tomar cuidado com a filosofia.”
2.3.
Cuidado com o Evolucionismo
a)
Herbert Spencer e Charles Darwin
Muitos
pensadores sofrem da ilusão de que a evolução é uma ciência
empírica quando, na realidade, é uma filosofia.
A macro-evolução é uma filosofia cujos dogmas naturalísticos
foram definidos pelo homem que Charles Darwin chamava de
“nosso grande filósofo,” Herbert Spencer (1820–1903)
[19]. Spencer
começou sua filosofia enquanto meditava sobre as ondas
formadas numa lagoa certo domingo de manhã – algo que,
com certeza, nunca teria acontecido se tivesse ficado na
igreja meditando na Palavra de Deus!
Muitos evolucionistas não se satisfaziam com a hipótese de
que a vida evoluiu do singelo para o complexo. Aplicaram o
mesmo método naturalístico à sociedade e à religião, e
alegavam que estas, também, se evolveram. Essa idéia deu
origem ao mito, que ainda existe, de que a crença religiosa
evoluiu da magia para o politeísmo, e daí para o henoteísmo
e, finalmente, para o monoteísmo. Esse conceito tem
dominado o cenário desde quando o James Frazer escreveu The
Golden Bough em 1890, embora a descoberta da criação
monoteísta ex nihilo nas Tábuas de Ebla devesse ter
sepultado semelhante teoria, posto que estas são muito mais
antigas do que as origens documentárias de Frazer [20].
O
próprio Charles Darwin propôs, na sua obra A Descendência
do Homem (1871), coisa semelhante. “As mesmas
faculdades mentais sublimes... levaram o homem a acreditar
em agências espirituais invisíveis e, depois, no
fetichismo, no politeísmo e, em última análise, no monoteísmo...”
[21]. Baseado
na sua pressuposição
naturalista, escreve na sua autobiografia: “A essas
alturas, eu chegara paulatinamente a perceber que o Antigo
Testamento, com sua história universal manifestamente
falsa, inclusive a Torre de Babel, o arco-íris como um
sinal etc, não era mais fidedigna do que os livros sagrados
dos hindus, ou as crenças de qualquer bárbaro” [22].
Resumindo,
Darwin concluiu que “Tudo na Natureza é resultado de leis
fixas.” Acrescentou: “Ao refletir, ainda, que evidências
claríssimas seriam necessárias para levar qualquer homem,
que não fosse louco, a crer nos milagres nos quais se
baseia o cristianismo, – que quanto mais sabemos a
respeito das leis fixas da Natureza, mais incríveis se
tornam os milagres – que os homens daqueles tempos eram
ignorantes e crédulos a um ponto que nos é quase
incompreensível, – que não se pode comprovar que os
Evangelhos foram escritos simultaneamente com os eventos –
que diferem entre si quanto a muitos pormenores importantes,
muito importantes demais (conforme me parecia) para serem
aceitos como inexatidões usuais das testemunhas oculares
– mediante reflexões tais como estas... Cheguei
paulatinamente a descrer no cristianismo como uma revelação
divina” [23].
*
Conseqüências
do Evolucionismo para a Sociedade. O resultado da
filosofia do evolucionismo tem sido catastrófico para os
estudos bíblicos e teológicos.
A historicidade e exatidão científica do registro em Gênesis
têm sido negadas. A doutrina da Criação tem sido
descartada, com graves conseqüências morais em nossa
dignidade e sociedade. Hitler, por exemplo, aplicou à
sociedade o conceito darwiniano, com conseqüências
humanas horrendas, e argumentava que “se a Natureza não
deseja que indivíduos mais fracos se acasalem com os mais
fortes, deseja, muito menos, que uma raça superior se
misture com uma inferior; porque nesse caso, todos os
esforços feitos, no decurso de centenas de anos, para
estabelecer uma etapa superior evolucionária de existência
podem assim ser tornados fúteis.”
Passou, então, a dizer que “semelhante preservação
vai de mãos dadas com a lei inexorável que decreta que são
os mais fortes e os melhores que devem triunfar, e que têm
o direito de permanecer” [24]. Com isso, trucidou
cerca de doze milhões de seres humanos que considerava
membros de raças inferiores. Na verdade, o texto
evolucionista usado no Estado de Tenessee e que ficou em
debate no processo John Scopes era racista, e se referiam
à raça caucasiana como “o tipo mais sublime de
todos” [25].
*
Conseqüências
do Evolucionismo para a Teologia. Os danos feitos
pelo darwinismo no âmbito da teologia têm sido
igualmente indesejáveis. Sem dúvida, alguns estudiosos têm
procurado, com bravura mas também com futilidade,
reconciliar o evolucionismo e as Escrituras; entre elas
havia James Orr e A. A. Strong, mas só conseguiram violar
o método gramático-histórico e,
inconscientemente, subverter tanto a dignidade humana
quanto a ortodoxia teológica. Deixaram de prestar atenção
à advertência de Charles Hodge na sua obra publicada em
1878, com o título What is Darwinism? na qual Hodge
respondeu corretamente: “É ateísmo.
Isso não significa, conforme já dissemos, que o próprio
sr. Darwin e todos quantos adotam as suas teorias sejam
ateus; significa, sim, que sua teoria é atéia; que
excluir da natureza o desígnio é ... a mesma coisa que o
ateísmo.”[26]. Afinal de contas, se não houve desígnio,
logicamente não há necessidade de um Projetista.
E se as coisas não foram criadas, obviamente não houve
Criador. Nesse caso, de novo, dores teológicas severas
poderiam ter sido evitadas por meio de levar a sério à
exortação bíblica: “Tomem cuidado com a
filosofia.”
2.4.
Cuidado com
a Filosofia do Progressivismo
a)
Geoge Wilhelm Hegel – Historicismo.
Boa
parte da erudição bíblica moderna foi sorvida pela
filosofia do historicismo na esteira do panteísmo
desenvolvimental de George Wilhelm Hegel (1770–1831). Na
sua obra maciça A Fenomenologia do Espírito (1807) e,
posteriormente, na sua Encyclopédia da Filosofia (1817),
Hegel definiu seu progressivismo histórico naquilo que veio
a ser conhecido, através de uma interpretação errônea de
Johann Fichte (1762–1814) como uma dialética de tese, antítese
e síntese [27]. Apesar disso, Hegel realmente afirmou que a
História é o desdobrar do Espírito Absoluto numa dialética
desenvolvimentista.
*
Conseqüências
do Hegelianismo. Foram desastrosos para a erudição
bíblica os resultados desse assim chamado “hegelianismo.”
A Escola de Tübingen de F.C. Baur (1792–1860)
argumentava que o Evangelho segundo João deve ser
considerado como uma síntese, feita no século II, do
conflito anterior entre tese e antítese, entre Pedro e
Paulo. Essa conclusão foi elaborada mediante uma
desconsideração quase total das evidências internas e
externas que favoreciam uma data anterior, no século I,
para o Evangelho segundo João. As conclusões
supostamente “exegéticas,” no entanto, por mais maciças
e eruditas que fossem, eram predeterminadas, em grande
medida, por uma filosofia então em voga. De novo, o
exegeta bíblico deveria ter acatado a advertência:
“Tomem cuidado com a filosofia.”
2.5.
Cuidado com o Existencialismo
a)
Soren Kierkegaard.
O
pai do existencialismo moderno não era um ateu francês do
século XX, mas um cristão dinamarquês chamado Soren
Kierkegaard (1813–1855), que poderia ter assinado um
documento de apoio aos fundamentos históricos da Fé.
Escreveu: “De modo global, a doutrina conforme é ensinada
[na igreja] é inteiramente sadia” [28]. Apesar disso,
poucos dentro do redil evangélico têm feito mais para
subverter, de modo metodológico, a ortodoxia histórica do
que Kierkegaard.
*
A
Neo-ortordoxia. Foi, realmente, seu filho
filosófico, Karl Barth, que deu origem à neo-ortodoxia.
Kierkegaard chegou à conclusão de que, mesmo se tomarmos
por certo que os defensores do cristianismo “tenham
conseguido comprovar no tocante à Bíblia tudo quanto
qualquer teólogo erudito já desejou, nos seus momentos
mais felizes, comprovar a respeito dela”, a saber,
que esses livros, e nenhum outro, pertencem ao cânone;
que são autênticos; que são integrais; que seus autores
são fidedignos – poderemos bem dizer, como se todas as
letras são inspiradas” – então, pergunta Kierkegaard:
“Alguém que anteriormente não tinha fé foi levado a
um único passo em direção a adquirir essa fé? Não,
nem um único passo” [29].
Depois, Kierkegaard postulou o inverso, a saber:
“Se os oponentes conseguiram comprovar o que
querem no tocante às Escrituras, com uma certeza
que transcende o desejo mais ardente da hostilidade mais
apaixonada – e daí? Os oponentes aboliram, assim, o
cristianismo?
De modo algum. O crente foi lesado? De modo algum, nem no
mínimo” [30]. No mínimo, a bifurcação feita por
Kierkegaard entre os fatos e os valores foi
axiologicamente mal colocada. Na realidade tem sido
biblicamente desastrosa, conforme tem demonstrado Barth,
Brunner e Bultmann – ou quaisquer outros “B”
[inglês: “abelha”] que andam zunindo nos círculos
não-ortodoxos. Basta mencionarmos as crenças, inspiradas
por Kierkegaard, de que:
1)
A verdade religiosa localiza-se num encontro pessoal
(subjetividade);
2)
A verdade proposicional não é essencial para a
Fé;
3)
A alta crítica não é danosa para o cristianismo
verdadeiro;
4)
Deus é “totalmente outro” e essencialmente
incognoscível, mesmo através da revelação bíblica.
Essas
crenças tornam ainda mais relevante a advertência paulina: “Tomem
cuidado com a filosofia.”
(Texto
originalmente publicado in Revista RESPOSTA FIEL, Ano 3
– nº 9 set-nov 2003, pg. 26-31.)
Subsídio
extra:
Confira
a entrevista com o
Pastor
Enéas Tognini sobre a
distribuição de Bíblias e apologética cristã, publicada
na Revista Resposta Fiel em junho/2004.
Para
saber mais:
GEISLER,
Norman L.: RHODES, Ron. Respostas às Seitas. RJ, CPAD, 2000
Revista
Resposta Fiel. RJ: CPAD.
Notas:
As notas não foram traduzidas. Algumas das obras citadas
podem ser encontradas em língua portuguesa.
[1]
Ver Norman L. Geisler: “Colosenses,” em The Bible
Knowledge Commentary, eds. John F. Walvoord e Roy B. Suck (Wheaton,
IL: Victory Books, 1983), 668, 677.
[2]
Baruqe De Spinoza: A Theologico-Political Treatise, trad.
R.H.M. Elwes (Nova York: Dover Publications, Inc., 1951),
1:83, 87, 92.
[3]
Ibid., 126.
[4]
Ibid., 129-30.
[5]
Ibid., 170 (grifos nossos).
[6]
Ver N.L. Geisler: The Battle for the Resurrection (Nashville,
TN: Thomas Nelson, 1992), capítulo 4.
[7] Spinoza: Ética, trad. A.
Boyle (Nova York: E.P. Dutton, 1910), parte 1, proposição
36, apêndice.
[8] Ibid., 92.
[9] Ibid., 159, grifos
nossos. Spinoza às vezes diz que os profetas falavam por
“revelação,” mas entende que este é o “poder
extraordinário... [da] imaginação dos profetas” (ibid.,
24).
[11] Hume, na realidade, aqui
levanta dois argumentos contra os milagres. O primeiro
argumento é um argumento em princípio, que toma por certa a
credibilidade das testemunhas. O segundo é um argumento na prática,
que duvida, na realidade, se algum milagre já chegou a ter
testemunhas fidedignas. David
Hume: An Enquiry Concerning Human Understanding: and Other
Essays, ed. Ernest C. Mossner (Nova York: Washington Square,
1963).
[12]
Ibid., 10.1.122-23.
[13]
Rudolph Bultmann: Kerygma and Myth: A Theological Debate, ed.
Hans Werner Batsch, trad. Reginald H. Fuller (Londres: Billing
and Sons, 1954), 68.
[14]
Ibid.
[15]
Ibid., 3-4.
[16]
Ibid.
[17]
Ibid., 8.
[18]
Emanuel Kant: Religion With the Limits of Reason Alone, trad.
Theodore M. Greene et. al., (Nova York: Harper Torchback,
1960), 79.
[19]
Ver Herbert Spencer: Principles of Psychology (1855; reimpressão,
Nova York: D. Applelton & Co., 1896); First Principles
(1862; reimpressão, Londres: Williams & Norgate, 1911).
[20] Ver Eugene H. Merrill:
“Ebla and Biblical Historical Inerrancy,” Bibliotheca
Sacra 140, nº 560 (outubro-dezembro 1983): 302-21.
[21]
Charles Darwin: The Descent of Man, in Great Books of the
Western World, ed. Robert Maynard Hutchins. Traduzido
por Constance Garnett. (Chicago:
Encyclopaedia Britannica, Inc., William Benton, publicador,
1952), vol. 49, 303.
[22]
Charles Darwin: The Autobiography of Charles Darwin, ed. Nora
Darwin Barlow, (Nova York:
Norton & Co., 1993), 85.
[23]
Charles Darwin: The Descent of Man, 86-87.
[24]
Adolf Hitler: Mein Kampf (Londres: Hurst and Blackett Ltd.,
Publishers, 1939), 239–40, 242.
[25]
Ver George William Hunter: A Civic Biology: Presented in
Problems (Nova York: American
Book Company, 1914).
Escreveu: “Na atualidade, existem na Terra cinco raças ou
variedades dos seres humanos... Trata-se do tipo etiópico ou
negróide...; da raça malaia ou marrom...; do ameríndio; da
raça mongol, ou amarela...; e finalmente, o tipo mais sublime
de todos: os causasianos, representados pelos habitantes
civilizados da Europa e da América do Norte” (196).
[26]
Charles Hodge: What is Darwinism? (Nova York: Scribner,
Armstrong, and Company, 1878), 177.
[27] Ver o capítulo
excelente sobre Hegel em Biblical Errancy: Its Philosophical
Roots, ed. N.L.
Geisler (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1981).
[28]
Soren Kierkegaard: Kierkegaard’s Journals and Papers 6.362
em A Kierkegaard Anthology, ed. Robert Bretall (Princeton, NJ:
Princeton University Press, 1973).
[29]
Soren Kierkegaard: Concluding Unscientific Postscript to
Philosophical Fragments, trad. Howard V. Hong e Edna H. Hong
(Princeton, NJ[[!]]: Princeton University Press, 1985), 29-30.
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