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Leitura
Bíblica em Classe
Mateus
7.24-29
Introdução
I.
A InfâI. Ensino nas Escrituras
II. Jesus, o Mestre dos Mestres
III. A prática do ensino de Jesus
Tema
deste Subsídio
Seguindo o Mestre em ensinar
Autores:
Kenneth O Gangel &
Howard G. Hendricks
Obra: Manual
de Ensino para o Educador Cristão.
4º Ed.Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
INTRODUÇÃO
Jesus era o Mestre de quinta-essência.
Ele fornece o padrão de ensino, o exemplo de perfeição da
Pedagogia. Ele era a autoridade e o protótipo máximos do
ensino, ainda que nunca tivesse discutido o assunto. Suas ações
modelaram a disciplina.
Embora se tenha escrito mais
sobre Jesus como pessoa do que qualquer outra figura da História,
Seu papel como Mestre tem sido um tanto quanto minimizado,
talvez por causa da reação negativa à imagem de mestre que
caracterizou o liberalismo do século XIX. Herman Harrell
Horne nomeia essa negligência de “uma mina inexplorada”.
No Novo Testamento, mais de
quarenta epítetos descrevem a pessoa e obra de Jesus Cristo.
Por exemplo, Ele é Senhor, Messias, Salvador, Filho de Deus,
Filho do homem, etc. Às vezes, é freqüente enfatizar-se um
mais que o outro.
Nos evangelhos, o termo Mestre é
uma das designações mais usadas para identificar Jesus;
ocorre quarenta e cinco vezes. Em quatorze ocasiões Ele é
chamado de Rabi. Assim, é óbvio que uma das proeminentes funções
de nosso Senhor durante Seu ministério público foi a de
ensinar.
Com freqüência os pesquisadores
bíblicos estudam o conteúdo dos evangelhos, mas tendem a
negligenciar a metodologia destes textos sagrados. Precisamos
nos lembrar que o que Jesus disse e o que Ele fez foram
igualmente inspirados por Deus. Em toda cena e circunstância
da vida de Cristo, Ele poderia dizer: “Eu faço sempre o que
lhe agrada” (Jo 8.29).
Este estudo tende a ser sugestivo
não exaustivo. É comprometido com a proposição de que, ao
ensinar, na maioria das vezes o processo é maior que o
produto. Por essa razão, o leitor é induzido a usar o
material apresentado como incentivo ao estudo indutivo pessoal
adicional. É projetado para provocar — não paralisar — o
pensamento.
Como a dona de casa, o motorista
de caminhão, o analista de sistema, o esteticista ou o médico
podem tornar-se mestre, talvez por apenas uma hora por semana?
Trata-se de tarefa hercúlea. Mas todos podemos nos beneficiar
do exemplo do maior Mestre, a quem Nicodemos perceptivamente
chamou de “mestre vindo de Deus” (Jo 3.2).
I. O HOMEM
O Senhor era distintivo como
pessoa. Seu nascimento, vida, morte e ressurreição foram
todos sem igual. Esta singularidade também permeia Sua
pedagogia.
1. Jesus era coerente.
O que Jesus disse e fez era uma
coisa só. Ele nunca realizou algo que contradissesse o que
Ele ensinou. Esta coerência proporciona o modelo consistente,
porque Ele cumpriu toda a justiça.
O ensino de Jesus é grande
somente se o conteúdo do Seu ensinamento se conforma com a
realidade. Um mestre criativo que ensina falsidade não é um
grande mestre. Um mestre medíocre que lida inadequadamente
com a verdade não se torna grande só porque tenta confrontar
grandes questões. Mas um grande mestre que traz perspectivas
genuínas acerca da realidade — ah, há a sementeira para o
verdadeiro ensino! Há o ensino de Y’shua!
Se Jesus não fosse quem
reivindicava ser, então Ele não era um bom mestre. Ele teria
sido charlatão e enganador. Em Israel, o falso mestre, bem
como o falso profeta, era condenado e não gratificado.
Na teologia protestante clássica
somos encorajados a pensar em Jesus Cristo como possuidor de
três ofícios principais. São eles: o Profeta, o Sacerdote e
o Rei. Como Profeta, Jesus é superior a Moisés. Como
Sacerdote, Ele é mais grandioso que Arão. Como Rei, Ele é
mais excelente que Davi.
É hora de fazermos um acréscimo
à nossa compreensão dos ofícios de Jesus. Há um ofício de
Cristo que é negligenciado por nós. Ele é também o Mestre.
Y’shua é o Sábio cuja sabedoria ultrapassa Salomão. Jesus
é o Filósofo cuja sabedoria foi antecipada pela imagem da
Senhora Sabedoria de Provérbios 1 a 9. Jesus é o magnífico
Rabi, o Mestre de todos os séculos, que veio para explicar o
próprio Deus: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho
unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo
1.18). O apóstolo Paulo afirma que em Cristo “estão
escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl
2.3).
No Seu ensino e estilo de vida
Ele une realisticamente o saber e o fazer (cf. Mt 5.36;
7.24-27). Saber e não fazer é não saber coisa alguma. Para
Jesus, toda a aprendizagem se relaciona com o fazer a vontade
de Deus (Jo 7.15-17) e reforçamos o saber pelo processo do
fazer.
Como LeBar sucintamente declara:
Jesus Cristo era o Mestre por
excelência, porque Ele mesmo encarnava perfeitamente a
verdade. [...] Ele entendia perfeitamente Seus discípulos, e
usava métodos perfeitos para mudar as pessoas. Ele próprio
era “o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6). Ele
conhecia todas as pessoas individualmente e sabia como era a
natureza humana e o que havia genericamente no homem (Jo
2.24,25).
Ronald Allen ressalta a
singularidade de Jesus com estas palavras:
Temos a tendência de unir um
grande mestre com uma grande instituição. Jesus não tinha
tais ligações.
Temos a tendência de pensar em
um grande mestre como aquele que torna as coisas difíceis
menos complexas. Jesus parecia apresentar complexidades novas
mesmo nas coisas simples.
Temos a tendência de esperar que
um grande mestre nos ajude a enfrentar a vida com mais
independência. Jesus insistia que a nossa existência deve
ser vivida em completa dependência uns dos outros.
Temos a tendência de associar um
grande mestre com a linguagem técnica do seu campo de estudo.
Jesus usava uma linguagem simples e as coisas do seu
dia-a-dia.
Temos a tendência de reunir um
grande mestre com seus brilhantes e eruditos alunos. Os que
melhor aprendiam de Jesus eram os pobres, os solitários, os
simples.
Temos a tendência de imaginar um
grande mestre no ambiente de uma classe na escola. A sala de
aula de Jesus era uma ladeira que dava para o mar da Galiléia,
um canto de uma sala de estar, um passeio ao longo do caminho,
um pequeno espaço num barquinho.
Hoje, temos a tendência de
procurar um mestre que use as ferramentas da multimídia. Os
instrumentos pedagógicos de Jesus eram os céus, os campos,
as montanhas, os pássaros, as tempestades, as ovelhas, uma
videira, um poço e uma festa. Em suma, o que quer que
estivesse ao Seu redor Ele usava como ferramenta de ensino.
2. Jesus era orientado à
realidade.
Ele não se ajustava ao status
quo. Estudar a vida de Jesus, portanto, sempre nos remete à
realidade. A realidade — não o ritual — era Sua principal
preocupação.
Assuntos como vida e morte, Céu
e Inferno, dinheiro, oração, preocupação e crianças
faziam parte do Seu currículo. Ele não deu qualquer aula na
qual se pedia aos discípulos: “Escrevam isto, porque algum
dia vocês precisarão”. Todos os Seus ensinos aconteceram
nas situações da vida cotidiana.
Do nascimento em uma manjedoura
à morte em uma cruz, o Salvador sempre foi extraordinário.
No âmbito de Sua moralidade, Ele foi totalmente previsível;
no âmbito de Seus métodos, totalmente imprevisível.
Ele nunca foi imprevisível
apenas para ser diferente, mas porque era diferente. Ele era
irritante. Aonde quer que fosse gerava uma crise. Ele coagia
os indivíduos a decidir, a fazer escolhas. Dorothy Sayers, à
sua maneira caracteristicamente sarcástica, comenta:
Aqueles que crucificaram Jesus
nunca, para fazer-lhes justiça, o acusaram de ser pessoa
chata — muito pelo contrário; consideravam-no extremamente
dinâmico para ser digno de confiança. Foi deixado para as
gerações posteriores encobrirem essa personalidade
perturbadora e cercá-lo com uma atmosfera de tédio. Temos
sido eficientes em aparar as garras do Leão da Tribo de Judá,
em declará-lo “manso e humilde” e em recomendá-lo como
animal de estimação adequado para pálidos ministros e
velhas senhoras piedosas. Entretanto, para os que o
conheceram, de nenhuma maneira Ele sugeriu ser pessoa água-com-açúcar;
eles o objetaram como perigoso atiçador de discórdias. Sim,
Ele era gentil com o desgraçado, paciente com os inquiridores
honestos e humilde diante dos céus; mas Ele insultou os
respeitáveis clérigos ao chamá-los de hipócritas; Ele se
referiu ao rei Herodes como “aquela raposa”; Ele ia às
festas em companhia de gente reles e era considerado como
“comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos
pecadores”; Ele atacou negociantes indignados e lançou a
eles e seus pertences fora do Templo; Ele levou o comum e
ordinário por vários regulamentos sacrossantos e veneráveis;
Ele curava doenças utilizando quaisquer meios disponíveis à
mão, com uma casualidade chocante na questão dos porcos e
propriedade de outras pessoas; Ele não mostrou qualquer deferência
apropriada diante da riqueza ou posição social; quando
confrontado com armadilhas de pura dialética, Ele evidenciava
humor paradoxal, o que afrontava os sisudos, e rebatia fazendo
perguntas desagradavelmente inquiridoras que não podiam ser
respondidas de maneira geral. Decididamente Ele não era indivíduo
insípido e tedioso em Sua vida terrena, e se Ele era Deus,
também não pode haver algo de insípido e tedioso nEle.
Há correlação direta entre a
predição e o impacto. Quanto maior a predição, menor o
impacto.
Observe Jesus em ação, por
exemplo, em Marcos 12.13-17. Os fariseus associaram-se com os
herodianos — combinação estranha e diabólica. Eles
pensaram que tinham imprensado Jesus na parede com um dilema
quando perguntaram: “É lícito pagar tributos a César ou não?
Pagaremos ou não pagaremos?” Qualquer uma das duas
respostas que escolhesse, davam-lhes a certeza de que o tinham
apanhado em falta. Mas Jesus escapuliu pelo lado em que eles não
previram e os compeliu a imaginar: “Afinal de contas, quem
inventou esta pergunta idiota?”
Os evangelhos narram a história
do Homem mais santo que jamais viveu, e, não obstante, foram
os ladrões, os leprosos e as prostitutas que o adoraram,
enquanto que os religiosos odiavam Sua presença. Ele continua
invariavelmente o Cristo controverso, o Divisor de homens. Ele
pode ser rejeitado, mas nunca ignorado.
3. Jesus era relacional.
Seu coração pulsava pelos indivíduos
como também pelas idéias; pelo povo como também pelas
tarefas; pela mudança, não somente pelos conceitos. Jesus
sabia que o maior revezamento pela verdade era os
relacionamentos.
O ensino de Jesus tomou a forma
de sala de aula ambulante com interação máxima entre
professor e aluno. Ele perguntava e era cumulado de perguntas.
Ele fez milagres na presença dos
discípulos. Eles observavam enquanto Ele lutava e vencia a
oposição dos líderes religiosos.
Ele começava exatamente no ponto
em que Seus discípulos estavam e falava com eles em termos
das imediatas e freqüentemente não percebidas necessidades
que tinham. Considere o caso do inválido no tanque de Betesda
(Jo 5.1-15). Jesus pergunta: “Queres ficar são?” (Jo
5.6). Que pergunta surpreendente e aparentemente tola feita a
alguém que estava inválido por trinta e oito anos! É óbvio
que nenhuma pessoa nesse estado escolheria permanecer doente.
Mas, como sugere Merrill Tenney:
Um exame mais detido da abordagem
feita por Jesus à vítima mostra que Ele estava sondando o
interior do coração do doente: “Você tem o desejo de ser
curado?” A resposta revelou que o homem colocava a culpa de
sua condição no que alguém não tinha feito por ele. Ele
estava preso pelas circunstâncias e não podia insurgir-se
mais além do que uma reclamação fútil. A paralisia
corporal estava acompanhada por uma paralisia parcial da
vontade. A escolha de Jesus por este homem em meio ao grande número
de inválidos no tanque, indicava Seu interesse em
restabelecer os que foram sujeitos à completa desesperança
tanto do corpo como do espírito.
Os relacionamentos de Jesus
invariavelmente enfocam as necessidades pessoais em um nível
mais profundo. Estude o instrutivo processo de nosso Senhor de
construir pontes em vez de muros com a mulher samaritana (Jo
4). Uma prostituta torna-se missionária em apenas um encontro
significativo e sensível.
Parece que havia algo sobre o
modo como Jesus vivia que convidava à imitação. Preste atenção
ao resumo de LeBar dos estudos dela:
Quase a metade dos incidentes
pedagógicos nos evangelhos foi iniciada pelos próprios
estudantes. À medida que os indivíduos eram cativados por
Sua pessoa, pela autoridade de Suas palavras e pela maravilha
de Sua obra, eles se chegavam a Ele com necessidades pessoais
de todos os tipos. O quanto é mais fácil ensinar quando
nossos alunos começam uma lição! Quando eles iniciam,
podemos estar certos do seu interesse, atenção e
envolvimento pessoal.
Considere a vida de oração de
nosso Senhor. Ele orava a respeito de tudo. Estude o evangelho
de Lucas em busca de detalhes. Por que os discípulos pediram
que Jesus os ensinasse a orar? (Lc 11.1). É a única coisa
que os discípulos lhe pediram que os ensinasse, porque toda
vez que iam procurá-lo notavam que Ele estava engajado na oração.
Por isso concluíram: “Isto deve ser essencial para a vida e
o ministério”. Alguém já pediu a você, na qualidade de
mestre, que o ensinasse a orar, pelo fato de o ter encontrado
muitas vezes em oração?
Havia ocasiões em que Ele
conscientemente dava um exemplo e induzia o convite (veja João
13, quando lavou os pés dos discípulos).
Numerosas qualidades pessoais
chamavam a atenção das pessoas para nosso Senhor: Sua
acessibilidade, aparência, amor, gentileza, firmeza,
sensibilidade, coragem, vitalidade e determinação.
É difícil imaginar qualquer
mestre prendendo a atenção de seus líderes potenciais, a
menos que esteja contaminado por um forte senso de missão em
sua vida e compromisso pessoais. Jesus demonstrou isso
claramente. De fato, Ele até o manifestou publicamente no início
de Seu ministério na sinagoga de Nazaré (Lc 4.16-30), quando
declarou Seus objetivos mensuráveis.
II. A MENSAGEM
Jesus é o maior Mestre, mas Ele
nunca pode ser separado do Seu grandioso ensino. Donald
Guthrie, em seu proveitoso capítulo, “Jesus”, explica
detalhadamente a relação entre mestre e ensino:
O Cristianismo tem historicamente
realçado o ensino religioso desde que o próprio Jesus foi o
supremo intérprete da arte. Não se pode deixar de enfatizar
suficientemente Sua influência na educação na Igreja;
contudo precaução faz-se necessária acerca de um aspecto:
Jesus era mais que um pedagogo. Embora Ele possa ser
considerado um Iluminador da mente, Sua missão era mais básica.
Ele veio para trazer redenção, a qual era a chave do Seu
ensino. Mesmo que Ele não fosse o Redentor, Seu ensino, tanto
no conteúdo como no método, seria sem igual. Sua verdadeira
reivindicação pela preeminência repousa no fato de que a
praticabilidade e relevância do Seu ensino dependem de Sua
obra de expiação.
Há características seminais do
Seu ensino.
1. Sua mensagem foi revelada.
Jesus disse que não falava de Si
mesmo, mas fazia exatamente o que Seu Pai lhe ordenava.
Examine as seguintes passagens bíblicas: Mateus 11.27; João
3.27; 5.19; 8.28. Em cada uma Cristo é o canal para a
comunicação da verdade divina, enquanto reafirma uma
continuidade entre Ele e o Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo
10.30).
Becky Pippert encapsula o
conceito biblicamente:
Ele informou às pessoas que
conhecê-lo era o mesmo que conhecer a Deus (Jo 8.19), vê-lo
era idêntico a ver Deus (Jo 12.45), crer nEle era igual a
crer em Deus (Jo 12.44) e recebê-lo era a mesma coisa que
receber a Deus (Mc 9.37).
As pessoas constantemente
entravam em conflito com Jesus, principalmente por causa de
Suas ousadas reivindicações. Em Seu discurso na sinagoga de
Nazaré, lendo o profeta Isaías, Ele disse: “Hoje, se
cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4.21). Em
outras palavras: “Vocês estão olhando para o seu
cumprimento”. Porquanto a princípio as pessoas tenham
falado bem dEle e ficado maravilhadas com as graciosas
palavras que Ele dizia, ao refletirem, ficaram tão
enfurecidas que tentaram matá-lo.
C. S. Lewis chamou a atenção
contra a afirmação que se ouve de que Jesus foi apenas um
bom mestre, mas que não era quem afirmava ser — o Filho de
Deus. Como Ele poderia ser bom, se mentiu acerca do principal
tema do Seu ensino — a saber, Ele mesmo?
“Estou disposto a aceitar que
Jesus foi um grande mestre da moral, mas não aceito Sua
reivindicação de ser Deus”. Isso é algo que não devemos
dizer. Um homem que foi somente um homem e disse o tipo de
coisas que Jesus disse, não seria um grande mestre da moral.
Ou Ele seria um lunático — no nível de alguém que diz que
é um ovo escaldado — ou então Ele seria o próprio diabo.
Você tem de fazer sua escolha. Ou este homem era, e é, o
Filho de Deus; ou então um louco ou algo pior. Você pode
tachá-lo de bobo, cuspir nEle e matá-lo como um demônio; ou
cair aos Seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não me
venha com qualquer tolice condescendente sobre Ele ser um
grande mestre. Ele não deixou essa possibilidade aberta para
nós. Não foi essa Sua intenção.
Ele curou no sábado porque era o
Senhor deste dia da semana. Ele disse que era Deus e agiu como
tal. Ele informou aos líderes religiosos que era maior do que
Jonas e Salomão e provou isso quando ressuscitou.
Porque Jesus era Deus e homem,
ensinou pelas obras como também pelas palavras. Significados
espirituais estavam embutidos em atos espirituais.
Repare no extenso uso de
imperativos empregados em Seu ensino: “Vigiai e orai”;
“Estai apercebidos”; “Vinde”; “Vede”; “Ide”;
“Pregai”. Ele coage ao compromisso.
2. Sua mensagem era pertinente.
Pelo fato de Sua mensagem ter
sido revelada, era pertinente. Ele nunca respondeu perguntas
que ninguém fizesse. Ele satisfazia as necessidades que as
pessoas tinham.
Mas Ele não era mero teórico. O
escritor aos Hebreus nos informa: “Porque não temos um sumo
sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas;
porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem
pecado” (Hb 4.15). Ele também explica: “Porque, naquilo
que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são
tentados” (Hb 2.18).
Atingir o âmago da vida de um
aluno requer contato com o indivíduo em sua inteireza, como
ele pensa, sente e deseja. Esta é razão de Jesus ter tão
freqüentemente compartilhado Suas próprias emoções de
compaixão, julgamento, amor, ódio, alegria, tristeza, gratidão
e simpatia.
Tudo isso exercia ação sedutora
sobre um mundo faminto e ferido. Ele era pertinente como ninguém.
3. Sua mensagem tinha autoridade.
Uma das características mais notáveis
do ensino de Jesus jaz na autoridade com que Ele ensinou. Ele
nunca falou de maneira experimental, tímida ou apologética.
Ele conhecia Sua mensagem e nunca hesitou em declará-la. É
isso que tanto impressionava as pessoas.
De fato, à conclusão do Sermão
do Monte, Seu ensino gerou resposta singular: “Porquanto [em
nítido contraste com Seus contemporâneos, Ele] os ensinava
com autoridade e não como os escribas” (Mt 7.29). Ele tinha
autoridade.
Porquanto houvesse muitas
semelhanças, uma profunda diferença surge entre Jesus e os líderes
religiosos dos Seus dias. A chave é a autoridade. Marcos
11.27-33 deixa isso bem claro.
Também vemos a autoridade de
Jesus nas exigências que Ele fazia das pessoas (Lc 14.25-35).
Em cada caso Ele faz uma tríplice repetição: “Não pode
ser meu discípulo”. A finalidade categórica dessas
palavras! A verdade seguramente tem de envolver exclusões,
mas pelo fato de sermos seres humanos caídos e orgulhosos, os
homens acham muito desagradável esta parte do discipulado.
John Stott conclui
convincentemente:
Embora não passasse de um camponês
da Galiléia, um carpinteiro por profissão e um pregador por
vocação, Ele afirmava ser o Mestre e o Senhor dos homens,
Ele disse que tinha autoridade sobre todos para lhes dizer em
que acreditar e o que fazer. Trata-se de reivindicação óbvia
(se é que é indireta) à Deidade, pois nenhum mero homem
jamais pode exercer senhorio sobre mentes e vontades de outros
homens.
A multidão estava pronta para a
mudança: “Nunca tal se viu em Israel” (Mt 9.33). A
explicação dos fariseus: “Ele expulsa os demônios pelo príncipe
dos demônios” (Mt 9.34). Eles eram seus críticos
ferrenhos, mas Ele era muito mais descaradamente crítico
deles. O desafio fora feito.
4. Sua mensagem era eficaz.
Note os resultados do ensino de
Jesus: espanto, medo, silêncio, crença e oposição
violenta, mas nunca indiferença ou neutralidade. Vidas foram
transformadas, porque Seu objetivo de ensino não fornecia
apenas informação mas transformação.
Os indivíduos levavam os amigos
para Jesus, seguiam-no, divulgavam Sua fama no exterior e o
serviam. Eles largavam tudo e o seguiam (cf. Mc 1.18 e 2.14,
para dois exemplos).
Na Grande Comissão, uma das
declaradas metas de Jesus para o processo de discipulado era
“ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho
ordenado” (Mt 28.20). Ávido por perspicácia e mudança com
base em Seu ensino, Jesus não esperava que o conhecimento
automaticamente resultasse em ação.
Em nosso ensino, para quais tipos
de resultados temos de trabalhar? “O pecado não é a marca
de Deus na humanidade: obediência perfeita é.”
III. OS MOTIVOS
O verdadeiro ensino emana de
dentro. Há uma experiência de ressonância entre professor e
aluno, sem a qual o processo de aprendizagem é estéril e, não
pouco freqüente, abortado.
Vários motivos aparecem em nosso
estudo dos evangelhos. Os apresentados a seguir são básicos.
1. O motivo do amor.
Jesus sempre teve os melhores
interesses de um amado chefe supremo em Seu relacionamento. João,
o apóstolo do amor, diz: “Como havia amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até ao fim [mostrou-lhes agora a
total extensão do Seu amor]” (João 13.1).
Mas não era baboseira
sentimental; era amor firme. Por exemplo, Ele repreendeu os
discípulos, não por razões superficiais mas substantivas.
“Por que sois tão tímidos?”, perguntou Ele, “ainda não
tendes fé?” (Mc 4.40).
Observe o contexto. Jesus, o
Mestre dos mestres, há pouco dissertara sobre a fé (Mc
4.1-34). Depois da explicação, Ele lhes passa um teste. Ele
dissera: “Passemos para a outra margem” (Mc 4.35). Eles
deduziram com base na experiência que tinham: “Mestre, não
te importa que pereçamos?” (Mc 4.38). Jesus não dissera:
“Vamos para o meio do lago nos afogar!” Eles foram
reprovados no teste de audição. “Quem tem ouvidos para
ouvir, que ouça” (Mc 4.9,23,24a).
Em outra ocasião Ele repreendeu
Tiago e João, quando estes desejaram pedir fogo do céu para
destruir os samaritanos (Lc 9.54,55). Ele chegou até a
censurar severamente Pedro, o líder dos discípulos, na
presença do grupo inteiro. “Retira-te de diante de mim,
Satanás!”, disse Jesus, “porque não compreendes as
coisas que são de Deus, mas as que são dos homens” (Mc
8.33).
A repreensão sempre depende da
base do relacionamento. Ele amava os discípulos como eles
eram, mas Seu amor era tanto que não lhes permitiria ficar
como estavam sem que interferisse. Ele repreendia, mas nunca
rejeitava.
A despeito de Suas exigentes
declarações relativas ao custo do discipulado, Ele nunca
exigiu uma fé completamente desenvolvida no começo da
peregrinação espiritual de alguém. Ele nunca rejeitou alguém
por causa de sua fé incompleta e hesitante ou por alguma
falta em viver segundo as leis de Deus.
Ele era o cumprimento da profecia
de Isaías referente ao Messias (Is 42.3), citada em Mateus
12.20: “Não esmagará a cana quebrada e não apagará o
morrão que fumega”.
Com sua habitual lucidez, C. S.
Lewis pondera sobre o amor cristão:
Se tenho certeza de algo é que
Seu ensino nunca foi projetado para confirmar minha preferência
congênita por investimentos seguros e responsabilidades
limitadas. [...]
Ame qualquer coisa, e certamente
seu coração será vergado e possivelmente partido. Se você
quer se assegurar de mantê-lo intato, não o entregue para
ninguém, nem mesmo para um animal. Envolva-o cuidadosamente
com passatempos e um pouco de luxo; evite toda a complicação;
encerre-o seguro no porta-jóias ou caixão do seu egoísmo.
Mas nesse porta-jóias — seguro, escuro, imóvel, abafado
— ele mudará. Não será partido; ficará inquebrantável,
impenetrável, irredimível. A alternativa para a tragédia,
ou pelo menos para o risco da tragédia, é a danação. O único
lugar, fora do Céu, onde você pode estar perfeitamente
protegido de todos os perigos e perturbações do amor é o
Inferno.
2. O motivo da aceitação.
A aceitação é o primeiro passo
do ensino eficaz. Note a multidão que o cerca: prostitutas,
coletores de imposto sem escrúpulos, pecadores, os magoados e
sem esperança, leprosos, etc. Certamente não é uma compilação
de relações públicas da Madison Avenue!
Repare em Sua reputação. “Eis
aí um homem comilão e beberão, amigo de publicanos e
pecadores” (Mt 11.19). A preocupação primária de Jesus não
era Sua reputação, mas Sua responsabilidade.
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