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Leitura
Bíblica em Classe
João
1.1-10,14
Introdução
I.
O significado do termo Verbo
II.
As
afirmações doutrinárias de João 1.1
III.
Qualidades divinas do Verbo
Conclusão
Tema
deste Subsídio
O
Verbo de Deus
Autor
Benny
C. Aker
1. Prefácio (1.1-18)
Embora
esta parte do Evangelho funcione como prefácio, é mais que
isso. Escrito em forma poética, sobretudo os primeiros treze
versículos, preparam o leitor para o que vem a seguir e, de
fato, resume todo o Evangelho. Nesta parte encontramos por um
lado rejeição e conflito, e por outro revelação, salvação
e vida. Outrossim, o autor apresenta a pessoa e obra de Jesus
e como Ele se encaixa no plano eterno de Deus. Os versículos
6 a 13 fornecem o resumo de João 1.19 a 12.50 e os versículos
14 a 18, dos capítulos 13 a 21. Estes temas originaram-se do
Antigo Testamento, do pensamento corrente dentro do judaísmo
e da literatura sapiencial não-canônica (veja comentários
mais adiante).
1.1. A Palavra na Eternidade (1.1-5)
João
1.1 começa de modo muito semelhante a Gênesis 1.1: “No
princípio”. É intencional e em harmonia com o plano do
Evangelho. João pretende provar que, com Jesus, Deus criou
algo novo — a Igreja. O conflito entre o cristianismo e o
judaísmo aparente neste Evangelho dizia respeito a qual era o
verdadeiro herdeiro do Antigo Testamento. Visto que o judaísmo
apelava para lugares santos, personalidades e outras tradições
do Antigo Testamento, João teria sido menos eficaz em suas
argumentações caso ele tivesse apelado para os mesmos
materiais. João na verdade apelou para as tradições e
textos do Antigo Testamento, até de modo semelhante ao judaísmo,
mas sua crença e experiência com Jesus como Senhor fez a
diferença. Textos do Antigo Testamento não ocorrem com freqüência
em João de maneira notória. Todavia o Antigo Testamento
aquiesce o Evangelho a cada ponto.
Esta
seção focaliza a Palavra (o Verbo), o Logos. Muitas são as
tentativas em traçar a fonte do termo Logos. É mais que provável que o termo e seu
conceito provenham da literatura e pensamento judaicos, embora
estivesse ambientado dentro do mais extenso mundo
greco-romano. Os dois temas de sabedoria e agência estão
juntos no “Logos”. Começando no Antigo Testamento, a
sabedoria e a lei (Torá, palavra hebraica para designar lei e
associada com os cinco livros de Moisés) estão associados e
tornam-se um. Especialmente Provérbios 8 não só
personalizou a sabedoria, mas a colocou ao lado de Deus antes
da criação e a envolveu nela. A lei, o epítome da
sabedoria, sofreu maiores desenvolvimentos na literatura
judaica mais tardia (Siraque, Sabedoria de Salomão, as traduções
aramaicas das Escrituras hebraicas, os comentários rabínicos
e Filo, escritor judeu).
Também
implícita nesta combinação de lei/sabedoria está a idéia
de agência. A sabedoria era o meio pelo qual Deus criou o
mundo (Pv 8.30). Particularmente nas traduções aramaicas
chamada targuns, a palavra aramaica memra,
traduzida por “palavra”, funcionava como a agência pela
qual Deus criou o mundo. Enquanto que Memra neste caso ajudou
alguns no judaísmo a se guardarem de profanar o nome de Deus
(era um modo indireto de se referir a Deus), também serviu ao
autor do Evangelho de João como modo de expressar a agência
criativa da Palavra (cf. Sl 33.6, onde diz que Deus criou por
meio de “a palavra”). João tomou um tema comum nos
contextos litúrgicos judaicos, ampliou seu significado e o
usou para expressar a doutrina do Filho de Deus, o Logos.
O
autor também usa a revelação do tema inerente na
sabedoria/lei. No Evangelho de João, o Logos é a plena
revelação de Deus, da mesma maneira que a lei, proveniente
da escrita das Escrituras hebraicas até a sua época, era uma
revelação de Deus. O tema de que a Palavra (o Verbo), o
Filho de Deus, revelou Deus completamente conclui esta seção no versículo 18.
Estas
idéias de sabedoria, agência e revelação apresentam para o
crente uma visão da criação e redenção centradas em
Cristo. Não se pode saber o propósito último da criação
ou redenção, nem entender a existência diária de Deus ou
qualquer revelação espiritual, sem passar pelo Logos, o
Filho de Deus.
Os
versículos 1 a 4 narram o estado preexistente de Jesus e como
Ele agia no plano eterno de Deus. “No princípio” (v. 1a)
fala da existência eterna da Palavra (o Verbo). As duas
frases seguintes expressam a divindade de Jesus e sua relação
com Deus Pai. Esta relação é uma dinâmica na qual
constantemente são trocadas comunicação e comunhão dentro
da deidade. O versículo 2 resume o versículo 1 e prepara
para a atividade divina fora da relação da deidade no versículo
3. No versículo 4 Ele é o Criador mediado. O uso da preposição
“por” informa o leitor com precisão que o Criador
original era Deus Pai que criou todas as coisas pela Palavra.
Os
verbos que João usa nestes versículos fazem distinção
entre o Criador não-criado, a Palavra (o Verbo) e a ordem
criada. Numa boa tradução, a RC observa esta distinção: a
Palavra (o Verbo) “era” mas “todas as coisas foram
feitas”.
O
versículo 4 conta várias coisas para o leitor.
1) A Palavra divina, como
Deus Pai, tem vida em si mesma, vida incriada (ou seja, é a
fonte da vida eterna).
2) Esta vida revelou a
pessoa e natureza de Deus para todas as pessoas.
3) “Luz” neste ponto
pertence à revelação autorizada e autêntica de Deus; é
melhor explicada em termos do Antigo Testamento, talvez
conectando-se com “no princípio” de Gênesis 1. “Luz”
ocorre pela primeira vez aqui numa série de conceitos que se
opõem um ao outro. O oposto da luz são as trevas (mais tarde
neste Evangelho, outros termos surgirão como opostos).
“Luz” também se refere ao caráter justo de Deus, em
oposição ao mundo injusto de trevas. Esta palavra também
assumirá o significado de “glória” na seção seguinte
ao Prefácio. Este conjunto de termos opostos era comum no
mundo antigo.
O
versículo 5 expressa a resposta que este povo injusto deu à
luz: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a
compreenderam”. A tradução “compreenderam” transmite a
incapacidade de os pecadores entenderem Deus. Ainda que esta
tradução (RC) seja aceitável, a tradução da NVI deve ser
preferida: “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a
derrotaram”. Ou seja, devido ao tema do conflito com o judaísmo
encontrado no Evangelho, João está afirmando que a trevas não
venceram a luz.
1.2. A Luz: A Palavra no Mundo (1.6-13)
Esta
seção amplia os temas do último parágrafo e acrescenta
dois elementos-chave: João (este Evangelho não o chama
“Batista”) e a “testemunha”. João Batista, embora
enviado por Deus, é inferior à Palavra. Um foi criado, o
outro é incriado. Um é a testemunha da Luz, o outro é a
verdadeira Luz. Esta declaração sugere que João Batista
desempenhou papel significativo na mente dos leitores
originais e que seus seguidores podem ter sido parte do
problema na congregação de João. Esta situação é
verificada pelas informações sobre João Batista no
Evangelho de Lucas e no Livro de Atos (esp. At 19.1-7).
A
palavra “testemunha” cumpre função importante no
Evangelho de João. A palavra, usada com relação a idéias e
pessoas como “sinal”, Abraão, o Espírito e o Pai,
verifica e testemunha que Jesus é verdadeiramente o Filho de
Deus. O testemunho de João também ajuda outros a crerem na
Luz.
O
“mundo” é introduzido aqui pela primeira vez (v. 9) no
Evangelho. Esta palavra se refere às pessoas entre as quais
Jesus veio. Elas o rejeitaram como a verdadeira Luz, porque
eram pecadoras. João aqui presume a queda de todas as
pessoas. A queda significa que as pessoas nesta condição não
podem conhecer Deus. Sua busca religiosa se perdeu, e elas não
podem encontrá-lo sem a Luz. Mas suas tradições são sua
segurança e elas tropeçam cegamente. Assim, os pecadores
rejeitam a Luz quando Ele vem ao mundo.
Ainda
que o mundo rejeite o Criador, Ele lhe dá uma medida de luz.
Esta medida é expressa em nossos dias por graça comum — a
graça de Deus que atrai e vai para cada pessoa. Esta é uma
das possíveis interpretações do versículo 9. A interpretação
depende de qual substantivo a expressão “que vem ao
mundo” modifica. Modifica “a luz verdadeira” ou “todo
homem”? No texto grego, esta frase vem depois de “todo
homem” e assim provavelmente o modifica.
Depois
de dizer que o mundo rejeitou a Luz, João estreita
especificamente sua janela para comentar a exceção. Nos versículos
12 e 13, ele faz um contraste bem definido entre eles e
comenta o que fez a diferença. “Receber” significa
“crer”. “Crer” enfatiza não o evento de um tempo,
como ocorre na chamada ao altar, mas é um ato contínuo, um
estilo de vida ou um estado. Com a crença habitual vem o
“poder” de ser filhos de Deus. Em resposta à crença,
Deus faz com que as pessoas nasçam como filhos dEle. O verbo
“nascer” usado com Deus contém um elemento causativo. A
imagem é esta: Deus é o pai, não a mãe.
A
estrutura do versículo 13 mostra nítido contraste entre o
esforço humano e a atividade divina. Três elementos
paralelos e negativos: “Os quais não nasceram do sangue,
nem da vontade da carne, nem da vontade do varão”,
contrastam com o único elemento positivo: “mas de Deus”.
Usando estes três elementos, João enfatiza que nenhum esforço
humano pode fazer um filho de Deus — é necessária a
atividade divina. Este contraste desafia coisas como
distintivos étnicos e religiosos, e teria tornado difícil ao
judaísmo receber e crer nisso.
O
Evangelho de João reserva a palavra “filhos” como nome
para os crentes em Jesus (cf. Paulo, que usa o termo “filhos
de Deus”). João, por um lado, faz distinção entre a
natureza do cristão e de Jesus, e, por outro, ainda fala de
semelhança de relação. João usa a palavra “filho” para
aludir a Jesus, mas “filhos” para aludir a todos os
crentes que chamam Deus de Pai, a fonte do novo nascimento.
1.3. A Encarnação: A Palavra na Igreja
(1.14-18)
João
conta aos leitores que “o Verbo [a Palavra] se fez carne”.
A palavra “se fez” é a palavra usada anteriormente com a
criação. AquEle que é Deus agora se faz ser humano. Este é
o significando da encarnação: O Verbo divino (a Palavra
divina), o Filho de Deus, agora é divino e humano. Deus está
presente em todos os lugares, mas a encarnação acrescentou
uma nova dimensão. Agora Deus está presente na mesma esfera
da humanidade (grande fundamento para a verdadeira empatia!).
Na encarnação, Deus se aproxima de uma nova maneira.
A
informação neste versículo pode estar dando uma resposta ao
gnosticismo e ao judaísmo, pois o gnosticismo não cria que
uma pessoa divina também pudesse ser humana, e o judaísmo não
cria que um ser humano pudesse ser ao mesmo tempo divino. O
conhecimento da encarnação, no sentido pretendido por João,
só vem por revelação, e a revelação passa pela atividade
divina da regeneração. A revelação só é revelação
quando é compreendida e somente quando Deus provê este tipo
de capacidade para compreender este tipo de assunto.
João
fala da encarnação em termos de templo. A palavra
“habitou” no versículo 14 está associada com a habitação
de Deus nas Escrituras hebraicas e aqui declara que a encarnação
é o templo de Deus entre seu povo nos últimos dias. Como o
templo de antigamente, este tem “glória”, porém até
mais — o templo é o próprio Deus, cheio de graça e de
verdade. “Graça e verdade” tomam dois atributos-chave de
Deus e depois identificam a Palavra com o Deus do Antigo
Testamento.
O
autor também alude à declaração do Antigo Testamento, de
que ninguém jamais viu a Deus. No tempo do fim, Deus veio em
carne e foi visto somente como Deus pelo povo da fé. Assim
este templo novo e último é imensamente superior ao antigo.
Tem glória que não diminui, como Paulo comentou acerca da glória
em 2 Coríntios 3.7-11. A referência a Moisés no versículo
17 elabora indiretamente sobre esta idéia do Antigo
Testamento. Enquanto Moisés deu uma medida de graça na lei,
a graça superior veio por Jesus Cristo.
A
palavra grega monogenous, no versículo 14, é comumente traduzida por
“Unigênito”. O intérprete tem de evitar a falácia da
raiz quando busca o significado de determinada palavra, ou
seja, tomar o que a raiz significa e aplicá-lo em todos os
lugares em que a palavra é usada. O significado de uma
palavra deve ser determinado por seu contexto. Neste caso, monogenous provém de duas raízes: “um/único” e
“gerado”. O modo como esta palavra é usada nos contextos
bíblicos sugere que esta palavra deva ser entendida por “único”.
O processo criativo (ou seja, “gerado”) não faz parte do
significado desta palavra. O Logos é o único Filho de Deus.
O
versículo 15 parece estar fora de ordem ou então é parentético.
Porém, este testemunho encaixa-se com o que esta seção
ensina. O Logos é a revelação única que Deus faz de si
mesmo. O único modo pelo qual o ser humano pode ver Deus é
pelo Filho, o Logos revelador. O Logos é divino e maior que
João Batista. O Logos divino existia na eternidade antes de
Deus enviar João Batista. O testemunho de João Batista
exalta este fato.
A
partir da evidência do manuscrito existem duas leituras possíveis
no versículo 18 com a repetição da palavra monogenous: “Filho” ou “Deus”. A RC escolheu
“Filho” como a leitura mais provável. Embora a evidência
do manuscrito esteja dividida, o testemunho do próprio
Evangelho apóia a leitura “Deus” (cf. NVI). Esta é a
declaração mais direta da deidade de Jesus no Novo
Testamento.
Para saber mais
ARRINGTON,
F.L.; STRONSTAD, R. Comentário bíblico pentecostal: Novo Testamento. 2.ed., Rio de
Janeiro: CPAD, 2004, p. 495-8.
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