Conteúdo Adicional para as aulas de Lições Bíblicas Mestre
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

Subsídios extras para a lição Jesus Cristo Verdadeiro homem Verdadeiro Deus
1º trimestre/2008


Lição 01 - Jesus, o Verbo de Deus



Leitura Bíblica em Classe
João 1.1-10,14


Introdução

I. O significado do termo Verbo

II. As afirmações doutrinárias de João 1.1

III. Qualidades divinas do Verbo

 

Conclusão

Tema deste Subsídio
O Verbo de Deus

Autor
Benny C. Aker

 

1. Prefácio (1.1-18)

Embora esta parte do Evangelho funcione como prefácio, é mais que isso. Escrito em forma poética, sobretudo os primeiros treze versículos, preparam o leitor para o que vem a seguir e, de fato, resume todo o Evangelho. Nesta parte encontramos por um lado rejeição e conflito, e por outro revelação, salvação e vida. Outrossim, o autor apresenta a pessoa e obra de Jesus e como Ele se encaixa no plano eterno de Deus. Os versículos 6 a 13 fornecem o resumo de João 1.19 a 12.50 e os versículos 14 a 18, dos capítulos 13 a 21. Estes temas originaram-se do Antigo Testamento, do pensamento corrente dentro do judaísmo e da literatura sapiencial não-canônica (veja comentários mais adiante).

1.1. A Palavra na Eternidade (1.1-5)

João 1.1 começa de modo muito semelhante a Gênesis 1.1: “No princípio”. É intencional e em harmonia com o plano do Evangelho. João pretende provar que, com Jesus, Deus criou algo novo — a Igreja. O conflito entre o cristianismo e o judaísmo aparente neste Evangelho dizia respeito a qual era o verdadeiro herdeiro do Antigo Testamento. Visto que o judaísmo apelava para lugares santos, personalidades e outras tradições do Antigo Testamento, João teria sido menos eficaz em suas argumentações caso ele tivesse apelado para os mesmos materiais. João na verdade apelou para as tradições e textos do Antigo Testamento, até de modo semelhante ao judaísmo, mas sua crença e experiência com Jesus como Senhor fez a diferença. Textos do Antigo Testamento não ocorrem com freqüência em João de maneira notória. Todavia o Antigo Testamento aquiesce o Evangelho a cada ponto.

Esta seção focaliza a Palavra (o Verbo), o Logos. Muitas são as tentativas em traçar a fonte do termo Logos. É mais que provável que o termo e seu conceito provenham da literatura e pensamento judaicos, embora estivesse ambientado dentro do mais extenso mundo greco-romano. Os dois temas de sabedoria e agência estão juntos no “Logos”. Começando no Antigo Testamento, a sabedoria e a lei (Torá, palavra hebraica para designar lei e associada com os cinco livros de Moisés) estão associados e tornam-se um. Especialmente Provérbios 8 não só personalizou a sabedoria, mas a colocou ao lado de Deus antes da criação e a envolveu nela. A lei, o epítome da sabedoria, sofreu maiores desenvolvimentos na literatura judaica mais tardia (Siraque, Sabedoria de Salomão, as traduções aramaicas das Escrituras hebraicas, os comentários rabínicos e Filo, escritor judeu).

Também implícita nesta combinação de lei/sabedoria está a idéia de agência. A sabedoria era o meio pelo qual Deus criou o mundo (Pv 8.30). Particularmente nas traduções aramaicas chamada targuns, a palavra aramaica memra, traduzida por “palavra”, funcionava como a agência pela qual Deus criou o mundo. Enquanto que Memra neste caso ajudou alguns no judaísmo a se guardarem de profanar o nome de Deus (era um modo indireto de se referir a Deus), também serviu ao autor do Evangelho de João como modo de expressar a agência criativa da Palavra (cf. Sl 33.6, onde diz que Deus criou por meio de “a palavra”). João tomou um tema comum nos contextos litúrgicos judaicos, ampliou seu significado e o usou para expressar a doutrina do Filho de Deus, o Logos.

O autor também usa a revelação do tema inerente na sabedoria/lei. No Evangelho de João, o Logos é a plena revelação de Deus, da mesma maneira que a lei, proveniente da escrita das Escrituras hebraicas até a sua época, era uma revelação de Deus. O tema de que a Palavra (o Verbo), o Filho de Deus, revelou Deus completamente conclui esta seção no versículo 18.

Estas idéias de sabedoria, agência e revelação apresentam para o crente uma visão da criação e redenção centradas em Cristo. Não se pode saber o propósito último da criação ou redenção, nem entender a existência diária de Deus ou qualquer revelação espiritual, sem passar pelo Logos, o Filho de Deus.

Os versículos 1 a 4 narram o estado preexistente de Jesus e como Ele agia no plano eterno de Deus. “No princípio” (v. 1a) fala da existência eterna da Palavra (o Verbo). As duas frases seguintes expressam a divindade de Jesus e sua relação com Deus Pai. Esta relação é uma dinâmica na qual constantemente são trocadas comunicação e comunhão dentro da deidade. O versículo 2 resume o versículo 1 e prepara para a atividade divina fora da relação da deidade no versículo 3. No versículo 4 Ele é o Criador mediado. O uso da preposição “por” informa o leitor com precisão que o Criador original era Deus Pai que criou todas as coisas pela Palavra.

Os verbos que João usa nestes versículos fazem distinção entre o Criador não-criado, a Palavra (o Verbo) e a ordem criada. Numa boa tradução, a RC observa esta distinção: a Palavra (o Verbo) “era” mas “todas as coisas foram feitas”.

 

O versículo 4 conta várias coisas para o leitor. 

 

1) A Palavra divina, como Deus Pai, tem vida em si mesma, vida incriada (ou seja, é a fonte da vida eterna). 

 

2) Esta vida revelou a pessoa e natureza de Deus para todas as pessoas. 

 

3) “Luz” neste ponto pertence à revelação autorizada e autêntica de Deus; é melhor explicada em termos do Antigo Testamento, talvez conectando-se com “no princípio” de Gênesis 1. “Luz” ocorre pela primeira vez aqui numa série de conceitos que se opõem um ao outro. O oposto da luz são as trevas (mais tarde neste Evangelho, outros termos surgirão como opostos). “Luz” também se refere ao caráter justo de Deus, em oposição ao mundo injusto de trevas. Esta palavra também assumirá o significado de “glória” na seção seguinte ao Prefácio. Este conjunto de termos opostos era comum no mundo antigo.

 

O versículo 5 expressa a resposta que este povo injusto deu à luz: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. A tradução “compreenderam” transmite a incapacidade de os pecadores entenderem Deus. Ainda que esta tradução (RC) seja aceitável, a tradução da NVI deve ser preferida: “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram”. Ou seja, devido ao tema do conflito com o judaísmo encontrado no Evangelho, João está afirmando que a trevas não venceram a luz.

1.2. A Luz: A Palavra no Mundo (1.6-13)

Esta seção amplia os temas do último parágrafo e acrescenta dois elementos-chave: João (este Evangelho não o chama “Batista”) e a “testemunha”. João Batista, embora enviado por Deus, é inferior à Palavra. Um foi criado, o outro é incriado. Um é a testemunha da Luz, o outro é a verdadeira Luz. Esta declaração sugere que João Batista desempenhou papel significativo na mente dos leitores originais e que seus seguidores podem ter sido parte do problema na congregação de João. Esta situação é verificada pelas informações sobre João Batista no Evangelho de Lucas e no Livro de Atos (esp. At 19.1-7).

A palavra “testemunha” cumpre função importante no Evangelho de João. A palavra, usada com relação a idéias e pessoas como “sinal”, Abraão, o Espírito e o Pai, verifica e testemunha que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus. O testemunho de João também ajuda outros a crerem na Luz.

O “mundo” é introduzido aqui pela primeira vez (v. 9) no Evangelho. Esta palavra se refere às pessoas entre as quais Jesus veio. Elas o rejeitaram como a verdadeira Luz, porque eram pecadoras. João aqui presume a queda de todas as pessoas. A queda significa que as pessoas nesta condição não podem conhecer Deus. Sua busca religiosa se perdeu, e elas não podem encontrá-lo sem a Luz. Mas suas tradições são sua segurança e elas tropeçam cegamente. Assim, os pecadores rejeitam a Luz quando Ele vem ao mundo.

Ainda que o mundo rejeite o Criador, Ele lhe dá uma medida de luz. Esta medida é expressa em nossos dias por graça comum — a graça de Deus que atrai e vai para cada pessoa. Esta é uma das possíveis interpretações do versículo 9. A interpretação depende de qual substantivo a expressão “que vem ao mundo” modifica. Modifica “a luz verdadeira” ou “todo homem”? No texto grego, esta frase vem depois de “todo homem” e assim provavelmente o modifica.

Depois de dizer que o mundo rejeitou a Luz, João estreita especificamente sua janela para comentar a exceção. Nos versículos 12 e 13, ele faz um contraste bem definido entre eles e comenta o que fez a diferença. “Receber” significa “crer”. “Crer” enfatiza não o evento de um tempo, como ocorre na chamada ao altar, mas é um ato contínuo, um estilo de vida ou um estado. Com a crença habitual vem o “poder” de ser filhos de Deus. Em resposta à crença, Deus faz com que as pessoas nasçam como filhos dEle. O verbo “nascer” usado com Deus contém um elemento causativo. A imagem é esta: Deus é o pai, não a mãe.

A estrutura do versículo 13 mostra nítido contraste entre o esforço humano e a atividade divina. Três elementos paralelos e negativos: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão”, contrastam com o único elemento positivo: “mas de Deus”. Usando estes três elementos, João enfatiza que nenhum esforço humano pode fazer um filho de Deus — é necessária a atividade divina. Este contraste desafia coisas como distintivos étnicos e religiosos, e teria tornado difícil ao judaísmo receber e crer nisso.

O Evangelho de João reserva a palavra “filhos” como nome para os crentes em Jesus (cf. Paulo, que usa o termo “filhos de Deus”). João, por um lado, faz distinção entre a natureza do cristão e de Jesus, e, por outro, ainda fala de semelhança de relação. João usa a palavra “filho” para aludir a Jesus, mas “filhos” para aludir a todos os crentes que chamam Deus de Pai, a fonte do novo nascimento.

1.3. A Encarnação: A Palavra na Igreja (1.14-18)

João conta aos leitores que “o Verbo [a Palavra] se fez carne”. A palavra “se fez” é a palavra usada anteriormente com a criação. AquEle que é Deus agora se faz ser humano. Este é o significando da encarnação: O Verbo divino (a Palavra divina), o Filho de Deus, agora é divino e humano. Deus está presente em todos os lugares, mas a encarnação acrescentou uma nova dimensão. Agora Deus está presente na mesma esfera da humanidade (grande fundamento para a verdadeira empatia!). Na encarnação, Deus se aproxima de uma nova maneira.

A informação neste versículo pode estar dando uma resposta ao gnosticismo e ao judaísmo, pois o gnosticismo não cria que uma pessoa divina também pudesse ser humana, e o judaísmo não cria que um ser humano pudesse ser ao mesmo tempo divino. O conhecimento da encarnação, no sentido pretendido por João, só vem por revelação, e a revelação passa pela atividade divina da regeneração. A revelação só é revelação quando é compreendida e somente quando Deus provê este tipo de capacidade para compreender este tipo de assunto.

João fala da encarnação em termos de templo. A palavra “habitou” no versículo 14 está associada com a habitação de Deus nas Escrituras hebraicas e aqui declara que a encarnação é o templo de Deus entre seu povo nos últimos dias. Como o templo de antigamente, este tem “glória”, porém até mais — o templo é o próprio Deus, cheio de graça e de verdade. “Graça e verdade” tomam dois atributos-chave de Deus e depois identificam a Palavra com o Deus do Antigo Testamento.

O autor também alude à declaração do Antigo Testamento, de que ninguém jamais viu a Deus. No tempo do fim, Deus veio em carne e foi visto somente como Deus pelo povo da fé. Assim este templo novo e último é imensamente superior ao antigo. Tem glória que não diminui, como Paulo comentou acerca da glória em 2 Coríntios 3.7-11. A referência a Moisés no versículo 17 elabora indiretamente sobre esta idéia do Antigo Testamento. Enquanto Moisés deu uma medida de graça na lei, a graça superior veio por Jesus Cristo.

A palavra grega monogenous, no versículo 14, é comumente traduzida por “Unigênito”. O intérprete tem de evitar a falácia da raiz quando busca o significado de determinada palavra, ou seja, tomar o que a raiz significa e aplicá-lo em todos os lugares em que a palavra é usada. O significado de uma palavra deve ser determinado por seu contexto. Neste caso, monogenous provém de duas raízes: “um/único” e “gerado”. O modo como esta palavra é usada nos contextos bíblicos sugere que esta palavra deva ser entendida por “único”. O processo criativo (ou seja, “gerado”) não faz parte do significado desta palavra. O Logos é o único Filho de Deus.

O versículo 15 parece estar fora de ordem ou então é parentético. Porém, este testemunho encaixa-se com o que esta seção ensina. O Logos é a revelação única que Deus faz de si mesmo. O único modo pelo qual o ser humano pode ver Deus é pelo Filho, o Logos revelador. O Logos é divino e maior que João Batista. O Logos divino existia na eternidade antes de Deus enviar João Batista. O testemunho de João Batista exalta este fato.

A partir da evidência do manuscrito existem duas leituras possíveis no versículo 18 com a repetição da palavra monogenous: “Filho” ou “Deus”. A RC escolheu “Filho” como a leitura mais provável. Embora a evidência do manuscrito esteja dividida, o testemunho do próprio Evangelho apóia a leitura “Deus” (cf. NVI). Esta é a declaração mais direta da deidade de Jesus no Novo Testamento.

 

Para saber mais

 ARRINGTON, F.L.; STRONSTAD, R. Comentário bíblico pentecostal: Novo Testamento. 2.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 495-8.

                        


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