Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

Subsídios extras para a lição A Igreja e Sua Missão


Lição 07 - A Missão Ética da Igreja



Leitura Bíblica em Classe

Mateus 5.13-16,20; Lucas 14.34,35; 17.20,21


Esboço da Lição

Introdução

I. A Base da Ética da Igreja

II. A Demonstração da Ética Bíblica pela Igreja

III. A Ética da Igreja Exemplificada por Jesus

Conclusão


Tema deste Subsídio

Uma Ética Acima de Qualquer Suspeita

Autor

Geremias do Couto

Palavras Chaves

Igreja; Ética; Absolutos.

 

Cristo Configura uma Ética Absoluta

A ética proposta por Cristo, no entanto, é absoluta. Em outras palavras, não está sujeita a nenhum questionamento, adendo ou supressão, pois é completa em si mesma e pertinente ao povo de Deus em qualquer época, em todos os lugares. Até mesmo as leis cerimoniais, sociais e cívicas dadas por Deus a Moisés, exclusivas a Israel, têm como pano de fundo os princípios absolutos da Palavra de Deus. É bem verdade que, quando lemos o Pentateuco, deparamo-nos com algumas exigências incompreensíveis e estranhas que não fazem sentido ao mundo contemporâneo. Mas elas precisam ser olhadas como fruto de uma época e à luz do propósito maior de Deus. Philip Yancey assim explica o fato:

 (...) detecto no Antigo Testamento um movimento paulatino, mas seguro em direção à graça. Os hebreus viviam em tempos selvagens e bárbaros. As suas leis, que nos podem parecer severas, são na verdade bem atenuadas se comparadas às de seus vizinhos. Eles estabeleceram regras básicas sobre a guerra, introduzindo nas leis o respeito pelos pobres e o cuidado com o meio ambiente. Impuseram limites à violência e construíram cidades de refúgio. Ao olhar para uma época de vingança e sangue, escravidão, poligamia e casamento por contrato com a mulher do irmão (quando falecido), é preciso lembrar que Deus tinha de tratar com as condições morais das pessoas no estágio em que estavam. Nos escritos desse período estava a semente, mas só a semente, da graça divina.

Não se discute, por exemplo, o caráter de pureza implícito em certas restrições, algumas delas até avançadas para a época, que revelam não só o cuidado de Deus com a higiene dos hebreus em pleno deserto, mas sobretudo com a sua saúde numa região árida e desprovida de recursos médicos. Enquanto em séculos recentes o sistema precário de esgotos muito contribuiu para as grandes epidemias da Europa, os israelitas já sabiam como precaver-se contra as doenças mediante um modo simples mas eficiente de higienização fisiológica. Embora tais regras não tenham jurisdição sobre a igreja, não se pode perder de vista o princípio que elas encerram – a pureza – o qual permanece inalterado, pois esta é uma das principais qualidades da vida cristã.

Assim, todas as normas cerimoniais, morais ou cívicas da lei mosaica, apesar de seu caráter local e transitório, não cabendo à igreja observá-las na realidade cultural contemporânea, foram embasadas nos princípios de caráter explicitamente moral e espiritual que aparecem na mesma lei, cuja universalidade está clara nas Escrituras. São válidas para “todas as pessoas, em todas as épocas e em todos os lugares”. São esses princípios que o Senhor reitera no Sermão do Monte e declara de maneira contundente a sua importância como marco distintivo do Reino de Deus. São referenciais permanentes e imutáveis que se aplicam em qualquer cultura e expressam não só o padrão de santidade exigido por Deus, mas também o tipo de reação que se espera do crente diante das diferentes circunstâncias da vida.

Esse é o sentido quando o Mestre afirmou que “nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido”. O jota refere-se à menor letra do alfabeto hebraico – yod – semelhante a um apóstrofo. O seu correspondente grego é iota. O til, por sua vez, reporta-se a um sinal hebraico que distingue algumas letras hebraicas de outras. Ou seja, Cristo, como judeu, não se opôs a observar os mandamentos pormenorizados da lei, restritos ao judaísmo, mas quis sobretudo chamar a atenção para os intentos do coração, pois aí está o segredo para o cumprimento daqueles áureos princípios universais que jamais se alteram e não podem ser violados.

Para aqueles que questionam a existência dessa ética, vale lembrar que um reino pressupõe governo com autoridade para estabelecer padrões e zelar para que estes prevaleçam entre os súditos. Charles Finney defende essa tese como uma verdade primeira da razão, argumentando assim em favor do governo moral de Deus:

Nossa natureza e situação exigem que estejamos sob um governo moral; porque nenhuma comunidade pode harmonizar-se com perfeição em todas as idéias e sensações, sem conhecimento perfeito, ou, no mínimo, o mesmo grau de conhecimento de todos os assuntos em que são chamados a agir (...). É, pois, preciso existir em cada comunidade algum padrão ou regra de dever a que todos os indivíduos da comunidade devem conformar-se. É preciso que haja alguma cabeça controladora, cuja vontade seja lei e cujas decisões sejam consideradas infalíveis por todos os súditos do governo. Por mais diversos que sejam em nível intelectual, nisto todos precisam concordar: que a vontade do legislador é correta e universalmente a regra do dever (...). Sendo Deus nosso criador, reportamo-nos a Ele para o exercício correto de nossos poderes. Uma vez que nosso bem e a glória de Deus dependem de nossa conformidade com a mesma regra a que Ele conforma todo os seu ser, Ele tem a obrigação moral de requerer que sejamos santo como Ele é santo.

Portanto, as implicações éticas absolutas do Reino de Deus, como se vê no Sermão do Monte, decorrem de ser o próprio Deus quem o controla e estabelece suas leis. Como ser moral, não pode exigir menos do que impõe a sua própria natureza. Ainda que se valham de instrumentos próprios de cada realidade cultural, essas leis, como princípios universais, não se alteram ao sabor das diferentes situações, não se ajustam ao que pensa o homem e nem se modificam para adaptar-se ao estilo de vida de cada um, mas são a exata expressão do propósito de Deus para o seu povo. Deus é imutável. Suas leis são também absolutas. Por esse motivo têm sido fonte de inspiração, ao longo dos séculos, para que nações inteiras formulem sua estrutura jurídica e se submetam a ela à luz desses princípios.

No entanto, por que a ética do Reino de Deus é absoluta? Em primeiro lugar, para definir de modo claro o ideal a ser incessantemente buscado por aqueles que professam a fé cristã. O grande problema de muitas organizações é não só a falta de clareza, mas a limitação de suas normas, que não conseguem abranger todas as situações que vão surgindo no dia-a-dia administrativo. Elas se obrigam, por isso, a baixar novas resoluções para tentar responder as novas demandas e, mesmo assim, não conseguem ser eficazes por muito tempo.

Percebo o quanto isto incomoda quando participo de reuniões administrativas com a finalidade de reformar estatutos ou estabelecer diretrizes em razão de algum fato novo que imponha correção de rumos. Há momentos que se tornam extremamente desgastantes, porque se perdem horas e horas de discussão e, ao final, nem sempre se chega a um ponto que satisfaça a todos. Quantas vezes prevalecem propostas casuísticas, privilegiando interesses do momento, em prejuízo de princípios que teriam vida mais longa se fossem adotados. Mas não é assim com a ética do Reino de Deus. Nossa instabilidade não muda uma vírgula – um jota ou um til – do padrão que Deus estabeleceu. Assim, estará sempre no mesmo lugar, com as mesmas prerrogativas, para servir como nosso único e perfeito parâmetro em nossa caminhada cristã.

Em segundo lugar, a ética do Reino de Deus é absoluta para revelar que nenhum esforço humano é capaz em si mesmo de vivê-la, a não ser pelos méritos da obra redentora de Cristo. Nenhuma outra maneira possibilita alcançar esse alvo, sendo vão qualquer esforço baseado nos recursos humanos. É a redenção que nos mantém de pé, mediante a graça, e nos aperfeiçoa em nossa disposição de viver o padrão do Reino. Abraão de Almeida soube, com precisão, simbolizar este ponto: “Se não podemos alcançar as estrelas, devemos, pelo menos, nos orientar por elas enquanto navegamos no tempestuoso mar desta vida presente”.

Em terceiro lugar, essa ética é absoluta para demonstrar, de forma antecipada, como que por espelho, o sublime estilo de vida a ser experimentado na dimensão futura do Reino de Deus. Hoje vemos em parte, vivemos um dia de cada vez e sofremos as conseqüências de nossas limitações. Mas prosseguimos para o alvo porque nossas esperanças são renovadas a cada manhã pela certeza de que o alvorecer da perfeição não é uma utopia, mas a expectativa a ser consumada na restauração de todas as coisas. Naquela época o que é em parte desaparecerá para dar lugar ao todo da glória de Deus em nossa dimensão humana.

A Ética do Reino: um padrão a ser buscado 

A busca deste padrão ético deve constituir-se no alvo de cada crente, sendo parte de nossa responsabilidade cristã. Como Paulo ensinou aos gálatas, não se trata de obrigação imposta por um sistema legal, mas de algo que resulta de já estarmos crucificados com Cristo e de Ele ter assumido a nossa própria vida para tornar-nos capazes de ardentemente prosseguir em busca desse objetivo.

Isto implica afirmar, com absoluta segurança, que se o crente não manifesta o desejo de aperfeiçoar a sua vida cristã a cada dia, nos moldes ensinados por Cristo no Sermão do Monte, é certo que não tenha experimentado a verdadeira transformação interior ou a tenha perdido no meio do caminho. Ainda que a força da lei em si mesma não produza nenhuma piedade, só aparência, o coração transformado sentir-se-á necessariamente compelido a expressar em sua vida o padrão ético desejado por Deus.

Essa busca, todavia, não se caracteriza como um fardo a ser carregado que resulta, em certo sentido, numa espécie de escravidão. Por não compreenderem as verdades evangélicas, muitos têm a tendência de transformar a fé cristã numa luta inglória e humana para cumprir regras, como um fim, de modo que as pessoas ficam extenuadas em virtude de não conseguirem corresponder às cobranças que lhe são feitas. É um esforço sobre-humano que não produz alegria, mas tristeza e desânimo, pela frustração de não ter conseguido cumprir essa ou aquela norma, ou por não entender a razão de tamanho esforço. 

Um médico, meu amigo, disse que em seu atendimento ambulatorial mantém o bloco de receitas de remédio controlado à mão, pois sempre que algumas mulheres evangélicas de posturas extremamente radical o procuram para consultas, a causa para os seus males, via de regra, é algum problema existencial mal resolvido. Isto fica claro quando começam a descrever os sintomas que as perturbam. Logo aparecem as queixas de nervosismo, ansiedade e obrigação de reprimir-se para satisfazer o nível de exigência que lhes é imposto. Ao invés de encontrarem a paz, ficam confusas e caem em depressão por se verem impotentes diante da possibilidade de não conseguirem cumprir o exigido e serem, por isso, punidas. O remédio, literalmente, é a prescrição de tranqüilizantes. 

Observa-se que, nesses casos, a comunidade da fé deixa de ser um lugar de libertação para ser de opressão. Este, todavia, não é o evangelho da Bíblia, que promete paz e refrigério aos abatidos de espírito. É preciso, portanto, trazer a questão da ética proposta por Cristo para sua verdadeira dimensão. Ela não vem carimbada com a advertência: “faça, senão morre”. Mas traz a solene e alvissareira mensagem: “faça, porque produz vida”. Davi teve a compreensão exata deste significado, quando, no salmo primeiro afirmou: “Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (o grifo é nosso).

Buscar viver os princípios universais da ética cristã não se impõe pelo seu caráter jurídico ou punitivo, mas pelo deleite que proporcionam e a bem-aventurança – a extrema felicidade – que a reta conduta assegura em razão da garantia da posse da vida eterna. Os atletas que correm nos estádios não se disciplinam como autopunição, mas pelo prazer de se tornarem aptos a conquistar o almejado prêmio. Vida cristã é, sobretudo, a alegria de servir ao Senhor. É correr com sorriso nos lábios, a alma leve e o espírito disciplinado, pela certeza de que ao cruzar a linha de chegada haverá a grande recompensa prometida apenas aos que prosseguirem até o fim.

Outra razão para buscar viver a ética proposta por Cristo é a segurança de que Deus supre os meios para garantir os resultados. É Deus quem determina os preceitos e, ao mesmo tempo, dá aos súditos do Reino as condições de vivê-los. “Dai-me o que me ordenais – pressupôs Agostinho – e ordenai-me o que quiserdes”. Em suma, tudo provém dEle e não há como fugir de sua face. A esta conclusão chegou Davi, no salmo cento e trinta e nove. Se nenhum esforço humano pode compensar essa ardente busca de experimentar, aqui e agora, a dimensão ética do Reino de Deus, melhor é confiar naquEle que, mediante a graça, opera a salvação e desenvolve no crente a aversão ao pecado e o leva a ter como meta o desejo de jamais pecar contra Deus. A ética do Sermão do Monte é, portanto, descansar nos braços de quem nos conduz em triunfo até a vitória final.

Eis porque o Senhor afirmou que a nossa justiça precisa exceder a dos escribas e fariseus para que tenhamos entrada no Reino de Deus. Por muito tempo, durante os anos da minha adolescência, não conseguia compreender o sentido desta passagem. Sempre que a lia, no mais das vezes de forma isolada do contexto, os meus conflitos vinham à tona, porque me dava a impressão de não haver a mínima possibilidade de alguém conquistar o Reino. Se os mestres da religião judaica, pensava eu, eram rigorosos em exigir a observância de cada detalhe da lei, como poderíamos exceder-lhes em perfeição? Que outras regras precisaríamos cumprir para sermos qualificados como súditos do Reino? Como se vê, a minha visão era também legalista.

Mas o tempo foi meu aliado para ajudar-me a abrir o entendimento à iluminação do Espírito, permitindo-me compreender que Jesus se referia, no caso, à justiça própria dos fariseus que se estribava no cumprimento dos ritos exteriores, na aparência da falsa religiosidade, na soberba da autojustificação. Isto pode ser visto no episódio da mulher adúltera em que alguns desses ilustres religiosos de então, na tentativa de encostar Jesus contra a parede, levaram-na até sua presença, afirmando que, pela lei, deveria ser apedrejada. Não eram sinceros em seus corações, apenas vestiam a capa da hipocrisia. Houvesse sinceridade, teriam trazido também o adúltero. Houvesse sinceridade, não agiriam com segundas intenções. Houvesse sinceridade, olhariam primeiro os próprios pecados. Houvesse sinceridade, reconheceriam aquela grave falha moral, mas seriam capazes de exercer a misericórdia. Como estavam longe disso, foram saindo um a um depois que o Senhor, sem dirigir-lhes qualquer acusação formal, expôs ao avesso a maldade de seus corações.

Assim, excedemos a justiça dos escribas e fariseus quando não firmamos os pés em nossa própria justiça. Quando não invocamos em nosso favor qualquer traço de superioridade espiritual. Quando não fundamentamos a fé na letra da lei. Quando não buscamos a nossa autojustificação. A partir do momento em que nos revestimos da justiça de Cristo e o entronizamos no centro de nossa vida, a partir do momento em que a sua abundante graça produz em nós o prazer de nos submetermos, livremente, aos princípios da ética que Ele nos propõe, cujos desdobramentos estarão nos próximos capítulos, desde aí excedemos a justiça dos escribas e fariseus.

 

COUTO, Geremias do. A Transparência da Vida Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

 


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