Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

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Lição 10 - O Cristão e o Estado



Esboço da Lição


Introdução

I.    Embora Cidadãos dos Céus, vivemos no Mundo

II.   Por que Devemos nos Sujeitar às Autoridades

III.  O que a Bíblia Diz sobre o Estad

Conclusão


Palavras-chaves

Governo; Estado; Igreja.

 


Introdução

Nos versículos da Leitura Bíblica em Classe, especificamente, Romanos 13.1-7, temos a discussão mais extensa de Paulo sobre as relações entre o crente e a autoridade terrena. Sua inserção neste momento da carta coloca-a no centro da discussão sobre como a mente renovada informa a interação do crente com o mundo. A ocasião para este tratamento deriva-se principalmente do ambiente sociopolítico das igrejas que se reuniam em casas romanas. Como observaremos mais adiante, Paulo formula esta seção com a consciência das realidades sociais e políticas que confrontavam os cristãos em Roma, o que constrangia uma resposta judiciosa dos crentes ao ambiente a fim de evitar perseguição desnecessária.

1. As Relações com o Governo (13.1-7)

A visão de Paulo de que o governo foi ordenado por Deus tem gerado muito debate sobre a aplicabilidade desta passagem aos crentes que sofrem sob regimes políticos repressivos. Por exemplo, havia um debate vivaz acerca de Romanos 13 em regiões de língua alemã em resultado das atrocidades do Terceiro Reich. Uma interpretação tradicional deste texto insiste que a postura favorável de Paulo para com o estado reflete o período no qual Romanos foi escrito, ou seja, o período anterior à perseguição movida por Nero — um tempo quando os impulsos maus que depois se manifestariam no imperador foram mantidos sob controle por sua mãe, Agripina (a quem mais tarde ele matou), e pela influência do grande estadista e filósofo estóico Sêneca (que depois se aposentou). Käsemann arrazoou que o caráter particular do governo romano na época em que Paulo escreveu é irrelevante para interpretar a passagem, pois Paulo não estava falando sobre o Império Romano ou mesmo ao estado como tal, mas sobre as autoridades locais, ou seja, a polícia, os coletores de impostos e os magistrados.

Ainda que o espaço vede uma discussão ampla deste texto e suas ramificações para os crentes sob vários regimes políticos, alguns assuntos devem ser abordados antes de darmos uma breve interpretação do próprio texto. 

1)     O contexto para o tópico da relação do crente com o governo é o desenvolvimento de Paulo da idéia de que a justiça de Deus transforma todas as relações terrenas. Portanto, o pensamento renovado deve sido aplicado a toda faceta da vida cristã, quer seja a vida na assembléia de crentes ou na praça, pois tudo na vida é adoração. Como Paulo descreveu a natureza de uma resposta reverente a outros membros da Igreja 
(Rm 12.3-13a) e aos inimigos (Rm 12.13b-21), agora ele prescreve o modo no qual o cristão pode dar glória a Deus mediante sua conduta para com o estado.

2)     Aqui não é tratada a questão concernente até que ponto os cristãos devem se submeter ao estado que abusa de poder. Paulo certamente teria qualificado sua declaração no versículo 2 de que “quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus”, se ele a tivesse escrito em 64 d.C., quando as luzes de cadáveres de cristãos em chamas, dispostos por Nero como tochas humanas, chamejavam pelas ruas de Roma. Visto que Romanos 13.1-7 prescreve como o cristão pode dar glória a Deus pela maneira na qual ele responde à autoridade, conclui-se que toda ação por parte do estado que proíbe a expressão de amor do cristão para Deus deve ser resistida. De fato, os discípulos, quando proibidos pelo Sinédrio de pregar a mensagem do Senhor ressurreto, responderam: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). A tensão inerente do cristão sob autoridade secular acha resolução no comentário de Bruce: “Os cristãos serão mais eficazes em expressar ‘Não’ às demandas não-autorizadas de César, se eles se mostrarem prontos a dizer ‘Sim’ a todas as demandas autorizadas” (1985).

3)     Käsemann nos advertiu a não interpretar a atitude positiva de Paulo para com a autoridade política meramente com base no clima favorável que existia em Roma quando ele escreveu a carta. A importância da resolução de Paulo ultrapassa o contexto de um regime político benevolente. Mencionando Bruce novamente, embora “a experiência feliz [de Paulo] da justiça romana esteja indubitavelmente refletida” em Romanos 13.1-7, “os princípios colocados aqui eram até válidos quando as ‘autoridades superiores’ não eram tão benevolentes para os cristãos como Gálio tinha sido para Paulo”. 

4)     Paulo está utilizando uma tradição estabelecida, desenvolvida no Antigo Testamento e em circulação nos escritos do Judaísmo do Segundo Templo, de que o povo de Deus devia dar o devido respeito e obediência a reis e governadores terrenos, quer tais governantes fossem reis judeus ou monarcas estrangeiros. Esta tradição tinha sua gênese na crença de que Deus designa a liderança humana. Daniel 2.21 declara que “[Deus] muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis”. Na literatura sapiencial do Segundo Período do Templo encontramos declarações da mesma tradição (e.g., Sabedoria de Salomão 6.3; Eclesiástico 17.17: “Ele estabeleceu a cada nação seu príncipe que a governasse”).  

5)     Acompanhando a idéia de que Deus designa a liderança está a crença que Ele também os considera responsáveis pela mordomia da autoridade que lhes é dada. Daniel 4 afirma a autoridade divina concedida ao rei Nabucodonosor para reinar e também o julgamento que viria sobre ele por causa de arrogância. 
As parábolas de Enoque (contidas na obra compilada de 1 Enoque), provavelmente escrito na era do Novo Testamento, advirtem no capítulo 46, versículo 5, que Deus “deporá os reis de tronos e reinos. Pois eles não o exaltam e o glorificam, e nem o obedecem, a fonte da monarquia”.

6)     Esta postura para com o estado secular foi adotada amplamente pela igreja primitiva. Primeira Pedro 2.13-17 exorta os crentes a se submeter ao rei como também aos magistrados (cf. 1 Tm 2.1,2). Primeira Clemente — carta escrita a Corinto pelo bispo de Roma em cerca de 100 d.C. — contém uma oração que, embora escrita em resultado das perseguições movidas por Nero e Domiciano, repete os temas gêmeos de que a autoridade terrena é designada por Deus e a necessidade de os cristãos a obedecerem.

É significativo que Paulo viu esta postura política provada e testada como necessidade pelos crentes romanos, não por causa da benevolência do estado, mas por causa da ameaça constante que Roma posou para a igreja cristã. Se Cláudio expulsou os judeus de Roma em 49 d.C. devido a um conflito que surgiu no bairro judaico sobre as reivindicações de Cristo (veja “Destinatários”, na Introdução), então a comunidade cristã poderia esperar o mesmo tratamento se ela fosse considerada uma ameaça à sociedade. Afinal de contas, a paz relativa que a Igreja Cristã tinha desfrutado naqueles primeiros anos era resultado da percepção das autoridades romanas de que os cristãos eram uma seita do judaísmo, uma religião reconhecida por lei romana (veja Bruce, 1985).


2. A Autoridade na Sociedade

Em outro lugar, Paulo escreveu sobre a autoridade ordenada por Deus na Igreja 
(Ef 4.11,12; 1 Tm 3.1-7) e na casa (Ef 5.22—6.3). Aqui, em Romanos 13.1-5, ele ensina que Deus também instituiu a autoridade na sociedade como ato de graça para apoiar a ordem moral. Assim, para Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus” (v. 1b).

Paulo retrata o papel do governo, nos versículos 2 a 5, em termos amplamente negativos como restringentes do mal. Os governantes tinham sacado a espada “para castigar o[s] que faz[em] o mal” (v. 4). Embora os crentes não devam buscar vingança (Rm 12.19), Deus designou a autoridade civil para impor sua ira aos que fazem o mal. Há, é verdade, um aspecto mais positivo para a função ordenada por Deus: Os governantes elogiam os que fazem o bem (v. 3c). Não obstante, a ênfase do texto no mal — particularmente a advertência sensata que os cristãos também enfrentarão a ira do estado se eles transgredirem (v. 4b) — trai a preocupação de Paulo pela posição precária da Igreja na capital do Império Romano. A perseguição por fazer o que é certo deve ser enfrentada, mas a perseguição acarretada por descuido flagrante da lei da terra pode ser evitada.

Paulo adverte os leitores a não pensar que, como súditos do Reino de Deus, eles estão isentos das realidades políticas de serem súditos do reino deste mundo. A palavra-chave que descreve a resposta do crente à autoridade ordenada por Deus é “sujeita” (hypotasso, no v. 1). Sujeição ou submissão envolve “pôr o próprio interesse debaixo do que é exigido para as relações com as autoridades civis” (Mott, p. 142). Visto que “não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus” (v. 1b), a submissão às autoridades administrativas é a resposta apropriada do crente. Paulo conclui que “é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência” (v. 5).

A submissão define grande parte da vida cristã. Por conseguinte, a exigência de Paulo à submissão às autoridades terrenas nos remete de volta ao contexto de adoração de Romanos 12.1,2. Tudo na vida deve ser vivido em adoração a Deus. Como o Jesus terreno se submeteu ao Pai divino (Jo 14.31), assim nós devemos nos submeter ao senhorio de Cristo (Jo 15.10). Isto, por sua vez, acarreta necessariamente servir aos outros. Jesus se definiu como servo e ordenou os discípulos a se verem da mesma maneira (Mc 10.43-45). A submissão do crente a toda autoridade terrena é uma extensão de sua submissão a Cristo (veja, e.g., Cl 3.23).

Nos versículos 6 e 7 Paulo continua a discussão da relação do crente com o governo tratando do tópico do imposto. Alguns comentaristas vêem esta questão como o clímax de Romanos 13.17 (Dunn; Furnish, pp. 131-135) e não como consideração adicional ou ilustração específica do argumento precedente sobre a submissão às autoridades ordenadas por Deus. Em outras palavras, a preocupação urgente por trás do repetido conselho de Paulo contra a desobediência civil nos versículos 1 a 5, pode ter sido a questão de pagar impostos.

O interesse de Paulo na questão de impostos — tópico incomum para ele — pode ter se originado de relatos que ele recebeu sobre o crescente desassossego em Roma sobre os altos níveis de impostos. Baseado num relatório de Tácito em Anais que, em 58 d.C., havia um clamor popular contra o sistema de impostos, Dunn argumenta que havia uma crescente insatisfação entre a populaça ao longo dos anos que conduziram ao protesto — esse era o período no qual Paulo escreveu à Igreja em Roma.

A declaração “Por esta razão também pagais tributos” (v. 6a) torna explícita a conexão entre os versículos 6 e 7 e o argumento sobre a autoridade ordenada por Deus. Paulo explica detalhadamente: “Porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo” (v. 6b). O princípio há muito existente de que os servos de Deus devem ser compensados (aplicado no Antigo Testamento ao sacerdote, e por Paulo ao pregador do evangelho [1 Co 9.13,14]), aqui é estendido às autoridades civis. O ponto governante de Paulo — que tudo na vida deve ser vivido em adoração a Deus 
(Rm 12.1,2) — acha-se por trás deste texto. “Subordinação ao governo civil, particularmente no ato simbólico de pagar impostos, é um aspecto da chamada à adoração espiritual na vida cotidiana do mundo” (Mott, p. 142).

O eco do ensino de nosso Senhor sobre impostos em Marcos 12.13-17 é ouvido no imperativo do versículo 7: Dê a cada pessoa o que você deve, quer seja “tributo” (phoros), “imposto” (telos), “temor” (phobos) ou “honra (time). A resposta de Jesus à pergunta espinhosa de pagar impostos a um governo estrangeiro foi: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é Deus” (Mc 12.17a). Como escreve Bruce: “Paulo vê no pagamento das dívidas de César a César uma forma de pagamento a Deus o que a Deus é devido” (1977, p. 109).

Há um equilíbrio cuidadoso preservado na lista das quatro obrigações no versículo 7 entre a dívida monetária e a atitude de deferência que é devida. A distinção entre phoros e telos pode diferenciar phoros como tributo (cf. Lc 20.22) — aquilo que povos subjugados no império deviam pagar, mas do qual a população na capital estava isenta — de telos como imposto, o que incluí direitos aduaneiros, taxas e pedágios. 
O ponto de Paulo não está na distinção, mas na maneira na qual os dois termos trabalham juntos para indicar todas as formas de taxação. Temor (phobos, lit., “medo”; cf. vv. 3,4) e honra (time), levando em conta o contexto, são devidos a todos a quem Deus deu autoridade. Condescendendo aos representantes de Deus, a pessoa adora a Deus.


Para saber mais:

ARRINGTON, F.L.; STRONSTAD, R. Comentário Bíblico Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. 3.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

 


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