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Esboço da Lição
Introdução
I. Um
Apelo à Consagração Pessoal
II. A Igreja
como o Corpo de Cristo
III. O Uso dos Dons
Palavras-chaves
Consagração;
Dons
Introdução
Paulo nos dois versículos do capítulo
doze de Romanos, estabelece o tema para a seção parenética:
A misericórdia de Deus obriga uma resposta ininterrupta de
sacrifício pessoal, quer dizer, uma vida de adoração. A
conduta requerida por tal sacrifício diário é informada
pela mente renovada.
O imperativo de abertura deriva sua
força dos atos graciosos de Deus: “Rogo-vos, pois, irmãos,
pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em
sacrifício vivo”
(v. 1a). Paulo coloca esta exortação no
contexto da misericórdia de Deus, não como forma polida de
tratamento — ou seja, o equivalente teológico de dizer
“por favor” —, mas por necessidade teológica. A história
da interação de Deus com o gênero humano segue o mesmo padrão:
Deus age; nós reagimos. Deus age, não por compulsão, mas de
acordo com seu amor gracioso; nós reagimos compelidos pelos
atos de Deus, rejeitando ou aceitando seus avanços
misericordiosos.
I. Vivendo em
Resposta à Justiça de Deus (12.1,2)
Note semelhantemente que, quando Paulo resumiu seu
breve discurso sobre a história da eleição dos judeus feita
por Deus, ele disse: “Assim, pois, isto não depende do que
quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Rm
9.16). Quando descreveu o plano salvífico de Deus para o
mundo, ele declarou: “Cristo morreu por nós, sendo nós
ainda pecadores” (Rm 5.8b). Por conseguinte, é
teologicamente correto Paulo construir sua exortação em
Romanos 12.1 a 15.13 sobre o fundamento da misericórdia de
Deus — tema que ocorre periodicamente nas seções
precedentes da carta (e.g., Rm 4—6) e que domina a última
metade do capítulo 11 (Rm 11.25-32).
a)
Sacrifício vivo. A resposta
apropriada à misericórdia de Deus é oferecer “o vosso
corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o
vosso culto racional”
(v. 1b). Embora o sacrifício de
animais e frutos era comum no mundo greco-romano (e.g., o
problema de comer carne em Corinto estava relacionado com a
presença de cultos sacrificais pagãos [1 Co 8; 10]), o pano
de fundo para esta linguagem sacrifical está no Antigo
Testamento. Ao escolher esta metáfora para expressar a
natureza do culto cristão, Paulo pode contrastar a vida sob a
lei com a vida no Espírito.
b) Culto racional. O “culto
racional” requerido aqui — ou a adoração apropriada para
aquele que vive no Espírito — transpõe a adoração para
um patamar mais sublime. Considerando que o sistema sacrifical
judaico exigia que o adorador oferecesse no templo um animal
ou fruto, a vida no Espírito exige que o adorador se ofereça.
Para os que levam algo para o altar, o ato de adoração finda
quando a oferta é consumida; para os que se oferecem, o ato
sacrifical é só o começo. O cristão é um “sacrifício
vivo”, o que significa que a adoração é transferida do
templo para as ruas. Em resumo, o grau de responsabilidade
pessoal é ressaltado para aquele que anda no Espírito, e não
de acordo com a lei.
-
Etimologia: O que Paulo quer dizer por “culto racional [logiken]”
tem sido motivo de debate. A palavra grega logikos
(forma léxica de logiken), a qual Paulo não usa em
outra parte dos seus escritos, era extensamente usada por
filósofos gregos. Denotava “racionalidade”, quer dizer,
as características que distinguem os seres humanos dos
animais. A expressão “culto racional” preserva este
sentido. Outros estudiosos preferem “espiritual”, pois vêem
neste uso do termo logiken um contraste com os
“aspectos externos” do culto sacrifical, ou seja, um
contraste entre a adoração espiritual e o ritual
religioso. Mas se fosse isso que Paulo queria dizer, ele
teria usado pneumatikos, a palavra menos ambígua
para aludir a “espiritual” (cf. “sacrifícios
espirituais” em 1 Pe 2.5).
-
Conceito: Em outras palavras, Paulo arrazoa em favor de um culto que
seja lógico ou apropriado para os que vivem no Espírito,
os quais, como veremos no versículo seguinte, são guiados
num comportamento apropriado pela mente renovada. O
contraste que Paulo está fazendo com os pecadores descritos
em Romanos 1.18-32, os quais, por ignorar a evidência da
revelação natural, são fúteis em seus pensamentos.
Podemos dizer que o corpo da carta começa com uma descrição
dos que andam em futilidade; a parênese, com os que andam
no Espírito.
c) A linguagem sacrifical. A linguagem sacrifical do versículo 1 também serve para
reforçar um contraste feito anteriormente entre os que servem
a Deus e os que servem ao pecado. A exortação para
apresentar o corpo lembra o leitor da injunção de Romanos
6.13, onde a mesma palavra grega traduzida pelo verbo
“apresentar” aparece duas vezes: “Nem tampouco
apresenteis os vossos membros ao pecado [...]; mas
apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos”.
No versículo 2, Paulo declara o meio pelo qual perceberemos o
empuxo imperativo do versículo 1. É a transformação
efetuada pela mente renovada que permite o cristão viver em
sacrifício diariamente. A mente renovada — a qual, embora não
seja declarada aqui, é resultado da obra do Espírito Santo
(cf. 2 Co 3.18; Tt 3.5; veja Dunn; Bruce; Fee, 1994, p. 602)
— tem a capacidade de discernir a vontade de Deus conforme
ela se aplica à vida cotidiana. Considerando que os
julgamentos de Deus em seus procedimentos para com a
humanidade são “insondáveis” (Rm 11.33,34), a mente que
está sendo renovada (o uso do tempo presente sugere um
processo contínuo) pode determinar qual é “a boa, agradável
e perfeita vontade de Deus” para o viver diário.
Em resumo, a responsabilidade exaltada do cristão envolve uma
vida de adoração que vai além de determinados tempos e
lugares de sacrifício, e também vincula uma responsabilidade
pessoal para determinar como tal vida deve ser vivenciada. Em
contraste com o judaísmo, no qual a lei prescreve a conduta
íntegra, o cristianismo requer um maior grau de discernimento
pessoal.
Por conseguinte, é mediante uma mudança interior, e não a
um apego fiel ao código exterior, que o cristão deve evitar
conformidade com o padrão deste mundo. A transformação
cristã trabalha de dentro para fora. Na seção seguinte,
Paulo começará a demonstrar como o pensamento renovado deve
ser aplicado nas diversas áreas da vida cristã.
II.
As Relações na Igreja (12.3-13a)
2.1.
O Pensamento Correto sobre Relações (12.3-5).
A
primeira questão que diz respeito à mente renovada é pensar
corretamente acerca das relações na comunidade cristã (vv.
3-5). A conformidade da Igreja a uma mentalidade mundana nas
relações humanas produz uma visão distorcida dos outros
membros do corpo de Cristo. O pensamento mundano nas congregações
romanas envolvia judeus e gentios avaliando excessivamente sua
posição em comparação com a dos outros (v. 3a) — um
porque tinha a lei, o outro porque não tinha.
a)
Os
charismas. A
questão não parece a mesma que em Corinto, onde o problema
se derivava de uma classificação ilegítima do valor dos
diversos charismata (dons espirituais). Os que
exerciam o dom de línguas viam-se em estado superior aos
que tinham dons “menores” (1 Co 12—14). As advertências
de Paulo em Romanos para os judeus (Rm 2—4) e para os
gentios (Rm 11.1-32; 14.1—15.13), acerca da atitude de
superioridade ou arrogância que eles tinham uns para com os
outros, dá a entender que a exigência do pensamento sóbrio
no capítulo 12 trata do problema ético e religioso em vez
do entusiasmo carismático.
O
tipo de pensamento renovado aqui em vista é o julgamento
temperante que atua em concordância com “a medida da fé
que Deus repartiu a cada um” (v. 3b). A “medida da fé”
faz lembrar um tema recorrente: A graça de Deus apropria-se
antecipadamente da jactância humana. A cruz é o grande
igualador: todos têm de se ajoelhar na mesma sujeira ao pé
da cruz a fim de receber o perdão de pecados. Por
conseguinte, ninguém pode reivindicar outra posição no
corpo de Cristo senão a posição de humildade com a qual o
indivíduo entra no corpo de Cristo. Cada indivíduo entra
pela fé e permanece pela fé e não por méritos pessoais.
b)
O
Corpo.
Para ilustrar o ponto, Paulo usa a metáfora do corpo humano
para representar a Igreja — imagem comum em suas cartas (1
Co 12.12-31; Ef 1.22,23; Cl 1.18; 2.19). O paralelo mais
estreito ao que temos em Romanos 12.3-8 está em 1 Coríntios
12.12-31, onde Paulo também emprega uma analogia do corpo
humano como parte da discussão sobre os dons espirituais. Lá,
ele enfatiza que cada membro do corpo de Cristo, não
importa que dom espiritual tenha, é igualmente vital para a
vida da Igreja, da mesma forma que cada membro físico é
necessário para o funcionamento adequado do corpo físico.
Aqui, Paulo insiste que o crente com a mente renovada deve
encarar a diversidade de judeus e gentios no corpo de
Cristo, não como oportunidade para se postar acima do
outro, mas como oportunidade para assumir a postura de
servo.
A membresia no corpo de Cristo tem suas responsabilidades,
pois “individualmente somos membros uns dos outros” (Rm
12.5).
O
que une o corpo de Cristo é sua diversidade. Cada membro é
dependente uns dos outros, porque os dons são distribuídos
pelo corpo de tal modo que nenhum membro é auto-suficiente.
Por conseguinte, o corpo de Cristo funciona efetivamente
apenas quando todos os membros utilizam quaisquer dons que
eles tenham para o benefício dos demais.
2.2.
Os Dons Individuais (12.6-8).
Antes
de examinar os dons individualmente, devemos enfatizar que
para cada dom o ponto é o mesmo: Se você tem um dom, use-o.
É por isso que a lista de dons é incompleta — de fato,
nenhuma lista de dons feita por Paulo é exaustiva (1 Co
12.8-10,28; Ef 4.11). Embora a passagem diante de nós dê
algumas explicações com no máximo uma frase sobre como
esses dons devem ser usados, o propósito primário de Paulo
é motivação, não instrução.
Isto
não é incomum. Paulo não define os vários dons em nenhuma
das passagens onde ele os alista. Ele presume um entendimento
comum por parte da audiência sobre a natureza desses dons, os
quais eles teriam recebido por ensino e por observância dos
dons em ação. A exceção — isto é, a extensa discussão
sobre a natureza de profecia e línguas, em 1 Coríntios 14
— não é uma tentativa de apresentar e definir estes dois
dons, mas corrigir a percepção dos coríntios e o uso dos
dons.
a)
A
lista de dons. A
lista de sete dons está dividida em duas partes pela
estrutura gramatical da passagem que muda abruptamente com o
quarto dom. Para cada um dos primeiros três dons, a frase
na qual eles aparecem começa com “se”; os últimos
quatro começam com “o que”. Esta estrutura nos ajudará
em nossa interpretação do sexto dom.
-
PROFECIA.
O que é digno de nota é que “profetizar” está em
primeiro lugar — posição que concorda com a ênfase
que Paulo dá a este dom em outros lugares (1 Co 14;
1 Ts 5.19,20). Em particular, nas listas de 1 Coríntios
12.28 e Efésios 4.11, a posição de profeta vem em
segundo lugar depois da de apóstolo. O dom da profecia
— o único dom que aparece em todas as listas paulinas
de dons espirituais — é a capacidade de dar uma
mensagem ou revelação imediata de Deus para o seu povo.
Como ocorre com a profecia do Antigo Testamento, a
profecia do Novo Testamento interessa-se primariamente em
tratar da situação do povo de Deus no presente, em vez
de predizer o futuro.
A
profecia é qualificada com uma estipulação incomum —
que seja usada “segundo a proporção da fé” (ARA).
Este não é o mesmo tipo de fé mencionado no versículo
3 (a “medida [metron] da fé”). Aqui é a
“proporção [analogia] da fé”. “A fé”
parece significar o evangelho (cf. Rm 14.1). Esta é opção
que Käsemann aceita e Fee acha atraente, mas, em última
instância, a rejeita, porque ele vê como advertência
sem precedentes para o profeta testar a si mesmo (1994,
pp. 608-609). Nada aqui requer tal interpretação. Paulo
dá os critérios pelos quais uma profecia é julgada, não
o que faz o julgamento (quanto a isso, veja 1 Co 14.29).
“Segundo a proporção da fé” é o teste cabal de uma
profecia: Deve estar em concordância com a tradição
do Evangelho. Em suma, a importância do dom é vista
em seu lugar proeminente na lista; os perigos potenciais
da profecia, no teste da autenticidade que a regula.
-
SERVIÇO.
“Serviço” (diakonia; RC: “ministério”)
pode ser definido como o papel apoiador do ministério.
Nossa palavra “diácono” deriva desse termo grego. O
papel crítico do serviço na Igreja foi reconhecido desde
o início. A fim de prover cuidado adequado para as viúvas
na Igreja em Jerusalém, enquanto ao mesmo tempo liberava
os apóstolos para cumprir a chamada que tinham de oração
e pregação, os apóstolos designaram sete homens cheios
do Espírito para superintender este trabalho (At
6.1-6).
-
ENSINO.
Diferente de profecia, nenhum critério de avaliação
acompanha o dom de “ensinar” (v. 7b). Käsemann indica
que entendia-se que o mestre estava ligado à tradição
recebida da igreja primitiva, o que explica por que era
assim. Enquanto o mestre está ligado às disciplinas de
estudo e apresentação sistemática das verdades
entregues, o profeta fala mensagens divinamente inspiradas
e não-premeditadas. A liberdade que o profeta desfruta
para reivindicar autoridade com base na inspiração
divina (e os possíveis abusos de tal reivindicação)
explica a reserva dos mestres para com os que praticam o
dom profético.
-
EXORTAR.
O próximo termo (paraklesis, traduzido por
“exortar”; é derivado do mesmo grupo de palavra que
Parácleto, título dado ao Espírito Santo em Jo 16.7)
tem vasta gama de significados, abrangendo, com base na
raiz verbal de parakaleo:
1)
convidar, invocar, conclamar;
2)
exortar; e
3)
confortar, consolar, encorajar.
Os
dois últimos significados são comuns nos escritos de
Paulo (paraklesis, como consolação em Rm
15.4;
2 Co 1.3-7; parakaleo, como exortação em Rm 12.1;
15.30; 1 Co 4.16), e ambos devem ser vistos como modos
diferentes de expressar este dom. Esta seção da
carta
(Rm 12.1—15.13) é a exortação de Paulo aos romanos, o
que é evidente pelo conteúdo (exortações aos cristãos
que vivem em resposta à misericórdia de Deus) e pelas
palavras da seção: “Rogo-vos, pois, irmãos” (Rm
12.1).
Os
últimos três dons — a cada um dos quais é dada uma
descrição em uma frase sobre seu uso — envolvem atos
de preocupação prática. Dar é compartilhar os recursos
pessoais para o bem de outrem, quer comida, dinheiro ou
possessões. Provavelmente não é tanto uma doação de
tempo, pois isso está pressuposto no uso de cada
dom.
O dom deve ser dado “com liberalidade” ou, talvez
melhor, “com simplicidade”. Quer dizer, o que dá não
deve fazê-lo por motivos misturados; simplicidade em dar
significa fazer sem motivo de lucro pessoal. Dunn escreve:
“O sentido aqui se amplia e abrange o pensamento de
‘generosidade, liberalidade’, [...] embora, nesse
caso, não devamos nos esquecer de que é uma liberalidade
que advém e é expressa pela simplicidade e sinceridade
da pessoa da fé”.
-
PRESIDIR.
O penúltimo dom desta lista, proïstemi, é
traduzido por “presidir”. A palavra significa
“colocar adiante, colocar acima”. Denota liderança,
mas também a função relacionada de tutela ou
responsabilidade para os que são colocados sob a jurisdição
da pessoa. O último sentido de cuidar ou ajudar é o que
Paulo queria dizer. A palavra está entre dois outros dons
que expressam função semelhante, mas o dispositivo
estrutural que Paulo usa nesse grupo de dons — cada dom
é introduzido com as palavras “o que” — associa
ainda com mais estreiteza estes três atos de cuidado.
Este dom deve ser exercido “com cuidado”, de forma que
sejam satisfeitas as necessidades várias de uma congregação.
-
MISERICÓDIA.
O último dom da lista “exercer misericórdia” é a
capacidade de pôr a empatia em ação concreta. A pessoa
que exerce este dom oferece misericórdia para os que estão
em necessidade.
Enquanto possa se referir a qualquer ato geral de misericórdia
(“cuidar dos doentes, ajudar os pobres ou atender os
idosos e incapacitados”), Paulo pode ter tido em mente
uma atividade mais limitada, considerando o que ele já
mencionou em “o que reparte”. A exigência de que
exercer misericórdia seja feito com alegria indica que o
que está em vista aqui é dar esmolas para os
pobres.
Na tradição judaica, a alegria é regularmente
desfrutada como maneira na qual a pessoa deve fazer isso
(conforme 2 Co 9.7).
Para
saber mais:
ARRINGTON,
F.L.; STRONSTAD, R. Comentário
Bíblico Pentecostal.
Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
BENTHO,
Esdras Costa. Hermenêutica
fácil e descomplicada.
3.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
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