Lições Bíblicas para Jovens e Adultos
Produzidos pelo Setor de Educação Cristã

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Lição 09 - Fidelidade no uso dos dons



Esboço da Lição

Introdução

I.    Um Apelo à Consagração Pessoal

II.   A Igreja como o Corpo de Cristo

III.  O Uso dos Dons


Palavras-chaves

Consagração; Dons

 


Introdução

Paulo nos dois versículos do capítulo doze de Romanos, estabelece o tema para a seção parenética: A misericórdia de Deus obriga uma resposta ininterrupta de sacrifício pessoal, quer dizer, uma vida de adoração. A conduta requerida por tal sacrifício diário é informada pela mente renovada.

O imperativo de abertura deriva sua força dos atos graciosos de Deus: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo” 
(v. 1a). Paulo coloca esta exortação no contexto da misericórdia de Deus, não como forma polida de tratamento — ou seja, o equivalente teológico de dizer “por favor” —, mas por necessidade teológica. A história da interação de Deus com o gênero humano segue o mesmo padrão: Deus age; nós reagimos. Deus age, não por compulsão, mas de acordo com seu amor gracioso; nós reagimos compelidos pelos atos de Deus, rejeitando ou aceitando seus avanços misericordiosos.


I. Vivendo em Resposta à Justiça de Deus (12.1,2)

Note semelhantemente que, quando Paulo resumiu seu breve discurso sobre a história da eleição dos judeus feita por Deus, ele disse: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Rm 9.16). Quando descreveu o plano salvífico de Deus para o mundo, ele declarou: “Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8b). Por conseguinte, é teologicamente correto Paulo construir sua exortação em Romanos 12.1 a 15.13 sobre o fundamento da misericórdia de Deus — tema que ocorre periodicamente nas seções precedentes da carta (e.g., Rm 4—6) e que domina a última metade do capítulo 11 (Rm 11.25-32).

a) Sacrifício vivo. A resposta apropriada à misericórdia de Deus é oferecer “o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” 
(v. 1b). Embora o sacrifício de animais e frutos era comum no mundo greco-romano (e.g., o problema de comer carne em Corinto estava relacionado com a presença de cultos sacrificais pagãos [1 Co 8; 10]), o pano de fundo para esta linguagem sacrifical está no Antigo Testamento. Ao escolher esta metáfora para expressar a natureza do culto cristão, Paulo pode contrastar a vida sob a lei com a vida no Espírito. 

b) Culto racional. O “culto racional” requerido aqui — ou a adoração apropriada para aquele que vive no Espírito — transpõe a adoração para um patamar mais sublime. Considerando que o sistema sacrifical judaico exigia que o adorador oferecesse no templo um animal ou fruto, a vida no Espírito exige que o adorador se ofereça. 
Para os que levam algo para o altar, o ato de adoração finda quando a oferta é consumida; para os que se oferecem, o ato sacrifical é só o começo. O cristão é um “sacrifício vivo”, o que significa que a adoração é transferida do templo para as ruas. Em resumo, o grau de responsabilidade pessoal é ressaltado para aquele que anda no Espírito, e não de acordo com a lei.

- Etimologia: O que Paulo quer dizer por “culto racional [logiken]” tem sido motivo de debate. A palavra grega logikos (forma léxica de logiken), a qual Paulo não usa em outra parte dos seus escritos, era extensamente usada por filósofos gregos. Denotava “racionalidade”, quer dizer, as características que distinguem os seres humanos dos animais. A expressão “culto racional” preserva este sentido. Outros estudiosos preferem “espiritual”, pois vêem neste uso do termo logiken um contraste com os “aspectos externos” do culto sacrifical, ou seja, um contraste entre a adoração espiritual e o ritual religioso. Mas se fosse isso que Paulo queria dizer, ele teria usado pneumatikos, a palavra menos ambígua para aludir a “espiritual” (cf. “sacrifícios espirituais” em 1 Pe 2.5).

- Conceito: Em outras palavras, Paulo arrazoa em favor de um culto que seja lógico ou apropriado para os que vivem no Espírito, os quais, como veremos no versículo seguinte, são guiados num comportamento apropriado pela mente renovada. O contraste que Paulo está fazendo com os pecadores descritos em Romanos 1.18-32, os quais, por ignorar a evidência da revelação natural, são fúteis em seus pensamentos. Podemos dizer que o corpo da carta começa com uma descrição dos que andam em futilidade; a parênese, com os que andam no Espírito. 

c) A linguagem sacrifical. A linguagem sacrifical do versículo 1 também serve para reforçar um contraste feito anteriormente entre os que servem a Deus e os que servem ao pecado. A exortação para apresentar o corpo lembra o leitor da injunção de Romanos 6.13, onde a mesma palavra grega traduzida pelo verbo “apresentar” aparece duas vezes: “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado [...]; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos”.

No versículo 2, Paulo declara o meio pelo qual perceberemos o empuxo imperativo do versículo 1. É a transformação efetuada pela mente renovada que permite o cristão viver em sacrifício diariamente. A mente renovada — a qual, embora não seja declarada aqui, é resultado da obra do Espírito Santo (cf. 2 Co 3.18; Tt 3.5; veja Dunn; Bruce; Fee, 1994, p. 602) — tem a capacidade de discernir a vontade de Deus conforme ela se aplica à vida cotidiana. Considerando que os julgamentos de Deus em seus procedimentos para com a humanidade são “insondáveis” (Rm 11.33,34), a mente que está sendo renovada (o uso do tempo presente sugere um processo contínuo) pode determinar qual é “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” para o viver diário. 

Em resumo, a responsabilidade exaltada do cristão envolve uma vida de adoração que vai além de determinados tempos e lugares de sacrifício, e também vincula uma responsabilidade pessoal para determinar como tal vida deve ser vivenciada. Em contraste com o judaísmo, no qual a lei prescreve a conduta íntegra, o cristianismo requer um maior grau de discernimento pessoal.

Por conseguinte, é mediante uma mudança interior, e não a um apego fiel ao código exterior, que o cristão deve evitar conformidade com o padrão deste mundo. A transformação cristã trabalha de dentro para fora. Na seção seguinte, Paulo começará a demonstrar como o pensamento renovado deve ser aplicado nas diversas áreas da vida cristã.

II. As Relações na Igreja (12.3-13a)

2.1. O Pensamento Correto sobre Relações (12.3-5).

A primeira questão que diz respeito à mente renovada é pensar corretamente acerca das relações na comunidade cristã (vv. 3-5). A conformidade da Igreja a uma mentalidade mundana nas relações humanas produz uma visão distorcida dos outros membros do corpo de Cristo. O pensamento mundano nas congregações romanas envolvia judeus e gentios avaliando excessivamente sua posição em comparação com a dos outros (v. 3a) — um porque tinha a lei, o outro porque não tinha.

a) Os charismas. A questão não parece a mesma que em Corinto, onde o problema se derivava de uma classificação ilegítima do valor dos diversos charismata (dons espirituais). Os que exerciam o dom de línguas viam-se em estado superior aos que tinham dons “menores” (1 Co 12—14). As advertências de Paulo em Romanos para os judeus (Rm 2—4) e para os gentios (Rm 11.1-32; 14.1—15.13), acerca da atitude de superioridade ou arrogância que eles tinham uns para com os outros, dá a entender que a exigência do pensamento sóbrio no capítulo 12 trata do problema ético e religioso em vez do entusiasmo carismático. 

O tipo de pensamento renovado aqui em vista é o julgamento temperante que atua em concordância com “a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (v. 3b). A “medida da fé” faz lembrar um tema recorrente: A graça de Deus apropria-se antecipadamente da jactância humana. A cruz é o grande igualador: todos têm de se ajoelhar na mesma sujeira ao pé da cruz a fim de receber o perdão de pecados. Por conseguinte, ninguém pode reivindicar outra posição no corpo de Cristo senão a posição de humildade com a qual o indivíduo entra no corpo de Cristo. Cada indivíduo entra pela fé e permanece pela fé e não por méritos pessoais.

b) O Corpo. Para ilustrar o ponto, Paulo usa a metáfora do corpo humano para representar a Igreja — imagem comum em suas cartas (1 Co 12.12-31; Ef 1.22,23; Cl 1.18; 2.19). O paralelo mais estreito ao que temos em Romanos 12.3-8 está em 1 Coríntios 12.12-31, onde Paulo também emprega uma analogia do corpo humano como parte da discussão sobre os dons espirituais. Lá, ele enfatiza que cada membro do corpo de Cristo, não importa que dom espiritual tenha, é igualmente vital para a vida da Igreja, da mesma forma que cada membro físico é necessário para o funcionamento adequado do corpo físico. Aqui, Paulo insiste que o crente com a mente renovada deve encarar a diversidade de judeus e gentios no corpo de Cristo, não como oportunidade para se postar acima do outro, mas como oportunidade para assumir a postura de servo. 
A membresia no corpo de Cristo tem suas responsabilidades, pois “individualmente somos membros uns dos outros” (Rm 12.5).

O que une o corpo de Cristo é sua diversidade. Cada membro é dependente uns dos outros, porque os dons são distribuídos pelo corpo de tal modo que nenhum membro é auto-suficiente. Por conseguinte, o corpo de Cristo funciona efetivamente apenas quando todos os membros utilizam quaisquer dons que eles tenham para o benefício dos demais.

2.2. Os Dons Individuais (12.6-8). 

Antes de examinar os dons individualmente, devemos enfatizar que para cada dom o ponto é o mesmo: Se você tem um dom, use-o. É por isso que a lista de dons é incompleta — de fato, nenhuma lista de dons feita por Paulo é exaustiva (1 Co 12.8-10,28; Ef 4.11). Embora a passagem diante de nós dê algumas explicações com no máximo uma frase sobre como esses dons devem ser usados, o propósito primário de Paulo é motivação, não instrução.

Isto não é incomum. Paulo não define os vários dons em nenhuma das passagens onde ele os alista. Ele presume um entendimento comum por parte da audiência sobre a natureza desses dons, os quais eles teriam recebido por ensino e por observância dos dons em ação. A exceção — isto é, a extensa discussão sobre a natureza de profecia e línguas, em 1 Coríntios 14 — não é uma tentativa de apresentar e definir estes dois dons, mas corrigir a percepção dos coríntios e o uso dos dons.

a) A lista de dons. A lista de sete dons está dividida em duas partes pela estrutura gramatical da passagem que muda abruptamente com o quarto dom. Para cada um dos primeiros três dons, a frase na qual eles aparecem começa com “se”; os últimos quatro começam com “o que”. Esta estrutura nos ajudará em nossa interpretação do sexto dom.

- PROFECIA. O que é digno de nota é que “profetizar” está em primeiro lugar — posição que concorda com a ênfase que Paulo dá a este dom em outros lugares (1 Co 14; 
1 Ts 5.19,20). Em particular, nas listas de 1 Coríntios 12.28 e Efésios 4.11, a posição de profeta vem em segundo lugar depois da de apóstolo. O dom da profecia — o único dom que aparece em todas as listas paulinas de dons espirituais — é a capacidade de dar uma mensagem ou revelação imediata de Deus para o seu povo. Como ocorre com a profecia do Antigo Testamento, a profecia do Novo Testamento interessa-se primariamente em tratar da situação do povo de Deus no presente, em vez de predizer o futuro.

A profecia é qualificada com uma estipulação incomum — que seja usada “segundo a proporção da fé” (ARA). Este não é o mesmo tipo de fé mencionado no versículo 3 (a “medida [metron] da fé”). Aqui é a “proporção [analogia] da fé”. “A fé” parece significar o evangelho (cf. Rm 14.1). Esta é opção que Käsemann aceita e Fee acha atraente, mas, em última instância, a rejeita, porque ele vê como advertência sem precedentes para o profeta testar a si mesmo (1994, pp. 608-609). Nada aqui requer tal interpretação. Paulo dá os critérios pelos quais uma profecia é julgada, não o que faz o julgamento (quanto a isso, veja 1 Co 14.29). “Segundo a proporção da fé” é o teste cabal de uma profecia: Deve estar em concordância com a tradição do Evangelho. Em suma, a importância do dom é vista em seu lugar proeminente na lista; os perigos potenciais da profecia, no teste da autenticidade que a regula. 

- SERVIÇO. “Serviço” (diakonia; RC: “ministério”) pode ser definido como o papel apoiador do ministério. Nossa palavra “diácono” deriva desse termo grego. O papel crítico do serviço na Igreja foi reconhecido desde o início. A fim de prover cuidado adequado para as viúvas na Igreja em Jerusalém, enquanto ao mesmo tempo liberava os apóstolos para cumprir a chamada que tinham de oração e pregação, os apóstolos designaram sete homens cheios do Espírito para superin­tender este trabalho (At 6.1-6). 

- ENSINO. Diferente de profecia, nenhum critério de avaliação acompanha o dom de “ensinar” (v. 7b). Käsemann indica que entendia-se que o mestre estava ligado à tradição recebida da igreja primitiva, o que explica por que era assim. Enquanto o mestre está ligado às disciplinas de estudo e apresentação sistemática das verdades entregues, o profeta fala mensagens divinamente inspiradas e não-premeditadas. A liberdade que o profeta desfruta para reivindicar autoridade com base na inspiração divina (e os possíveis abusos de tal reivindicação) explica a reserva dos mestres para com os que praticam o dom profético. 

- EXORTAR. O próximo termo (paraklesis, traduzido por “exortar”; é derivado do mesmo grupo de palavra que Parácleto, título dado ao Espírito Santo em Jo 16.7) tem vasta gama de significados, abrangendo, com base na raiz verbal de parakaleo:

1) convidar, invocar, conclamar;

2) exortar; e

3) confortar, consolar, encorajar. 

Os dois últimos significados são comuns nos escritos de Paulo (paraklesis, como consolação em Rm 15.4; 
2 Co 1.3-7; parakaleo, como exortação em Rm 12.1; 15.30; 1 Co 4.16), e ambos devem ser vistos como modos diferentes de expressar este dom. Esta seção da carta 
(Rm 12.1—15.13) é a exortação de Paulo aos romanos, o que é evidente pelo conteúdo (exortações aos cristãos que vivem em resposta à misericórdia de Deus) e pelas palavras da seção: “Rogo-vos, pois, irmãos” (Rm 12.1).

Os últimos três dons — a cada um dos quais é dada uma descrição em uma frase sobre seu uso — envolvem atos de preocupação prática. Dar é compartilhar os recursos pessoais para o bem de outrem, quer comida, dinheiro ou possessões. Provavelmente não é tanto uma doação de tempo, pois isso está pressuposto no uso de cada dom. 
O dom deve ser dado “com liberalidade” ou, talvez melhor, “com simplicidade”. Quer dizer, o que dá não deve fazê-lo por motivos misturados; simplicidade em dar significa fazer sem motivo de lucro pessoal. Dunn escreve: “O sentido aqui se amplia e abrange o pensamento de ‘generosidade, liberalidade’, [...] embora, nesse caso, não devamos nos esquecer de que é uma liberalidade que advém e é expressa pela simplicidade e sinceridade da pessoa da fé”. 

- PRESIDIR. O penúltimo dom desta lista, proïstemi, é traduzido por “presidir”. A palavra significa “colocar adiante, colocar acima”. Denota liderança, mas também a função relacionada de tutela ou responsabilidade para os que são colocados sob a jurisdição da pessoa. O último sentido de cuidar ou ajudar é o que Paulo queria dizer. A palavra está entre dois outros dons que expressam função semelhante, mas o dispositivo estrutural que Paulo usa nesse grupo de dons — cada dom é introduzido com as palavras “o que” — associa ainda com mais estreiteza estes três atos de cuidado. Este dom deve ser exercido “com cuidado”, de forma que sejam satisfeitas as necessidades várias de uma congregação. 

- MISERICÓDIA. O último dom da lista “exercer misericórdia” é a capacidade de pôr a empatia em ação concreta. A pessoa que exerce este dom oferece misericórdia para os que estão em necessidade. 
Enquanto possa se referir a qualquer ato geral de misericórdia (“cuidar dos doentes, ajudar os pobres ou atender os idosos e incapacitados”), Paulo pode ter tido em mente uma atividade mais limitada, considerando o que ele já mencionou em “o que reparte”. A exigência de que exercer misericórdia seja feito com alegria indica que o que está em vista aqui é dar esmolas para os pobres. 
Na tradição judaica, a alegria é regularmente desfrutada como maneira na qual a pessoa deve fazer isso (conforme 2 Co 9.7).


Para saber mais:

ARRINGTON, F.L.; STRONSTAD, R. Comentário Bíblico Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. 3.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

 


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Veja também:
- Outras lições
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