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Esboço da Lição
Introdução
I. Compreendendo
a Graça
II. A
Contestação da Doutrina da Graça
III.
Os
relacionamentos da Graça
Palavras-chaves
Graça;
Legalismo; Antinomismo.
Introdução
Qual
é o papel da lei na vida do crente (Rm 7.1-6)? A ocorrência
de uma pergunta no começo desta seção nos remete ao formato
de diálogo usado anteriormente (Rm 3.1-9,27-31; 4.1-12). E o
assunto da pergunta nos faz voltar à objeção levantada por
seu parceiro de diálogo em Romanos 3.7,8. Paulo está uma vez
mais abordando a acusação feita contra ele de que sua
proclamação do evangelho da graça estava promovendo o
pecado (6.1-14). Desta feita, o assunto é tratado mais
definitivamente.
I.
Morrer
para Viver (6.1-14).
Em
resposta à objeção do versículo 1, de que o pecado também
pode ser encorajado se ocasiona mais graça — objeção que
surge da declaração em Romanos 5.20 de que à medida que o
pecado aumentou, a graça aumentou ainda mais — Paulo
imediatamente vai ao âmago do assunto: O crente não pode
permanecer no pecado porque ele morreu para o pecado (v.2).
a)
“Como
viveremos ainda nele?”
(v.
2b). Não é um apelo moral, mas uma declaração de fato.
Paulo não está perguntando: “Como viveremos?” Antes,
sua pergunta implica: “Não vivemos!” Contudo, Paulo não
está argumentando que o cristão é incapaz de cometer
pecado (veja vv. 11-14), porque o “não vivemos” deriva
do fato de ele entender que o pecado é um poder dominante (Rm
5.21). À medida que ele vai explicando, a morte do crente
ao pecado significa que o domínio do pecado foi quebrado.
Em suma, a resposta inicial de Paulo à acusação de que o
evangelho promove o pecado é que a graça, ao invés de
incentivar o pecado, na verdade provê o meio de escapar de
suas garras fatais.
b)
Morto
para o pecado.
O
que se segue (vv. 3-14) é comentário sobre a morte do
crente ao pecado. Paulo usa o batismo nas águas, praticado
pelos crentes desde o começo da Igreja (Mt 28.19; At
2.37-41), para explicar como o cristão morreu para o pecado
(vv. 3,4). A linha do argumento de Paulo origina-se da
pressuposição de que o rito do batismo está estreitamente
ligado ao ato de a pessoa colocar a confiança em Cristo. O
leitor encontrará em comentários vasta gama de interpretações
relativas à função e significado do batismo em águas com
base nesta passagem. De fato, é um texto importante para
formular um entendimento teológico do rito. Infelizmente
para nós, Paulo não se ocupa numa discussão ampla sobre
esse assunto, porque:
1)
Ele presume que os romanos já estejam familiarizados com
seu significado, e;
2)
Ele está preocupado em extrair somente os aspectos que apóiem
seu argumento de que o crente morreu para o pecado. Parte
da razão para a diversidade de interpretação deste
texto é o tratamento parcial do batismo em águas que
Paulo oferece aqui.
II.
A figura do batismo em águas: “batizados em Jesus
Cristo” (v. 3).
O
que podemos respigar aqui sobre o significado do batismo em águas?
Uma interpretação comum é que sendo abaixado e depois
erguido da água simboliza a morte e a ressurreição do
participante com Cristo. Quer dizer, é uma metáfora para a
conversão que ilustra o fim da velha vida e o começo da
nova. Este entendimento remonta pelo menos a Tertuliano, mas não
é certo que esta fosse a concepção vigente no século I.
Uma leitura cuidadosa de Romanos 6 revela que Paulo vincula o
batismo com o ato de ser enterrado com Cristo, mas que ele não
diz que o convertido foi ressuscitado com Cristo no batismo
— o que permanece um acontecimento futuro. Assim, no mínimo,
esta passagem ensina que o batismo simboliza a participação
do crente na morte de Cristo. Contudo, o simbolismo mais pleno
de morrer e ressuscitar com Cristo pode estar no plano de
fundo, pois talvez Paulo tenha escolhido somente a parte da
tradição que se refere à morte de Cristo, porque seu
argumento diz respeito a morrer para o pecado.
a)
A
essência do batismo cristão.
A essência do batismo cristão é expressa na frase
“batizados em Jesus Cristo” (v. 3). Ser batizado
“em” (eis) Cristo significa união com Ele ou o
estabelecimento da relação. Beasley-Murray (p. 61)
apresenta argumentos em favor do significado por trás de
ser batizado em nome de Jesus: “No batismo, [...] o Senhor
se apropria do batizado para si mesmo e o batizado possui
Jesus como Senhor e se submete ao Seu senhorio”.
Nossa
concepção de como o crente participa na vida de Cristo
deve ser entendida em termos relacionais. Citando
Beasley-Murray novamente (p. 62): “Porque o batismo
significa a união com Cristo, Paulo via que o rito estendia
a união de Cristo em suas ações redentoras”. Visto que
fomos colocados numa relação com Ele, participamos dos
benefícios da sua vida: Fomos crucificados com Ele (v. 6),
morremos e fomos sepultados com Ele (vv. 4,5,8) e seremos
ressuscitados com Ele (vv. 5,8). Isto não quer dizer que
tomamos parte na sua obra substitutiva ou que de algum modo
místico estávamos de fato lá com Cristo, quando Ele foi
crucificado. Nosso Senhor sofreu e morreu sozinho. Mas isso
tem algo a dizer sobre o modo como Paulo via a conexão
entre o Senhor e seus seguidores.
1)
Quando o crente é unido com Cristo, é unido com o
Senhor. Isto requer submissão completa, não submissão mútua
ou amigável (e assim a chamada à obediência começa no
v. 11).
2)
A pessoa atraída ao mundo do Senhor toma parte completa
nas conseqüências das ações de Cristo em um grau sem
paralelo nas relações humanas. Cristo é mais que alguém
com quem nos relacionamos; Ele também é nosso
representante.
É
certamente apropriado dizer, como fazem muitos comentaristas
dos dias de hoje, que participamos dos benefícios da vida de
Cristo porque Ele é nosso representante. Assim como estávamos
em Adão e, portanto, compartilhávamos as conseqüências do
seu pecado, assim estando em Cristo compartilhamos os
resultados da sua obra. Nossa solidariedade com Ele na função
de nosso representante transfere seus atos para nós. Mas não
devemos perder o sentido relacional mais pessoal que está por
trás desta idéia. É porque o conhecemos que tomamos parte
em sua vida.
III.
Morrer para o Pecado
Paulo
começa o capítulo 6 mostrando que os crentes não podem
permanecer sob o poder do pecado, porque eles morreram para o
pecado. Ele se refere à experiência dos leitores com o
batismo nas águas para estabelecer este ponto. Como ele o fez
em Romanos 5.5 (quando usou a experiência do batismo com o
Espírito para lhe garantir a esperança futura), aqui ele
escolheu uma experiência vívida para convencê-los de uma
realidade espiritual. O batismo em águas significa que a união
com Cristo também é uma união com Ele na sua morte.
Quando
ocorre a morte com Cristo na vida do convertido? Visto que
Paulo usa o batismo para transmitir esta idéia e considerando
que o batismo está associado com o começo da vida do cristão,
presume-se que ocorre no momento da conversão. É “pelo
[dia] batismo” (v. 4) que a pessoa é sepultada. Paulo diz
“pelo batismo”, não porque o próprio rito efetua a morte
com Cristo. O rito apresenta em forma pública a decisão da
pessoa em começar a vida com Cristo.
a)
Interpretações
do ritual do batismo. Entre
as tradições que vêem o batismo como símbolo da experiência
de salvação (e.g., os batistas, os pentecostais), e não
sacramentalmente como meio da graça salvadora (e.g., os católicos
romanos, os luteranos), há o perigo de que a importância e
imperativo do rito sejam diminuídos. O que está em jogo é
a perda da conexão do batismo em águas com o significado
do começo da vida cristã.
A
razão por que fomos sepultados com Cristo é dada ao término
do versículo 4: de forma que “assim andemos nós também
em novidade de vida”. Estas não são as palavras que
poderíamos esperar. Para complementar a declaração de que
morremos com Cristo, esperaríamos Paulo dizer, depois de
uma referência à ressurreição de Cristo, que nós também
fomos ressuscitados com Ele. Mas ele diz que, por causa da
ressurreição de Cristo, andamos agora em novidade de vida.
Embora ainda venhamos a ser ressuscitados com Ele, já
tomamos parte na vida da ressurreição. Estamos vivendo de
acordo com as condições do mundo por vir conforme elas
podem ser desfrutadas, visto que ainda vivemos segundo as
restrições do presente mundo. Esta é a maneira de Paulo
entender a existência cristã neste período transitório
(a chamada estrutura escatológica “já, mas ainda não”)
entre a nossa passada morte com Ele e a nossa ressurreição
futura. (O papel do Espírito Santo em mediar a vida do
Cristo ressurreto nos crentes será explicado em Rm 8 [veja
também Rm 7.6].) A era de Cristo irrompeu na era de Adão,
e o crente é transferido a esta era nova pela morte de
Cristo. Nossa orientação foi para sempre alterada, pois a
graça transformou nosso passado, presente e futuro.
Contudo, as condições da era nova não serão
experimentadas completamente até à ressurreição futura
dos crentes, quando a velha era tiver passado inteiramente.
Nesse entretempo, ainda somos influenciados pelas condições
mundanas postas em ação pelo que Adão fez. Ainda estamos
sujeitos à morte física e ainda somos tentados pelo
pecado. A perspectiva de Paulo acerca da sobreposição das
duas eras (Rm 5.12-21) reflete a cosmovisão da escatologia
apocalíptica (veja “A Escatologia Apocalíptica de
Paulo”, na Introdução).
b)
Propósito
da imagem batismal. No
versículo 5, a imagem batismal é posta de lado, tendo
servido seu propósito de ilustrar a morte do crente ao
pecado. Em primeiro plano, há o motivo de morrer e
ressuscitar com Cristo. Por duas vezes nos versículos 5 a
10 Paulo declara que, tão certo quanto a identificação
com Cristo significa morte com Ele, assim também significa
ser ressuscitado com Ele (vv. 5,8). Seu enfoque permanece no
aspecto anterior, à medida que ele continua discutindo a
natureza da morte do cristão ao pecado. Note como o apóstolo
descreve a situação escatológica do crente com o uso de
tempos verbais diferentes. O verbo traduzido por
“fomos”, no versículo 5a, está no perfeito (gegonamen),
significando que nossa união com Ele em sua morte é um
acontecimento passado com efeito permanente. Esse efeito é
a nossa liberdade do poder do pecado. Porém, a união do
crente com a ressurreição de Cristo está no futuro
(“seremos”). Alguns argumentam que este é um futuro lógico
(lógico no sentido de que segue nossa morte com Cristo e,
assim, realmente denota nosso estado atual). Esta não é a
melhor interpretação. Nem o futuro deve ser entendido como
imperativo moral (o tipo de tempo futuro que vemos na
maioria dos Dez Mandamentos) — ou seja, que temos de ser
conformados à ressurreição de Cristo em nosso
comportamento presente. Antes, este é um futuro real,
expressando a verdade da ressurreição final. É por isso
que Paulo não coloca nossa ressurreição com Cristo no
passado (cf. Ef 4.22-24; Cl 3.9-11, onde ele fala de uma
ressurreição espiritual). Tannehill (p. 12) explica os
aspectos presente e futuro de ser ressuscitado com Cristo:
“O crente participa na nova vida no presente, mas Paulo
tem cuidado em deixar claro que isso não se torna possessão
do crente. É realizado mediante uma entrega ininterrupta
das atividades da pessoa a Deus, um andar em novidade de
vida e, ao mesmo tempo, permanece um dom de Deus para o
futuro”.
Em
suma: sob a lei o pecado aumenta; sob a graça, seu poder é
aniquilado.
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