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1.
Esboço da Lição
I. A Justificação
II. A Justiça de Deus
III. Características
da Justiça Divina
IV. A Mensagem
proveniente da Cruz de Cristo
Palavras-chaves.
Justiça;
Justificação; Salvação; Propiciação; Expiação.
Introdução
A
precedente apresentação de Paulo da situação difícil e
desesperadora da humanidade pecadora perante um Deus justo
cria um senso de desespero. Este é o efeito intencional. Pois
a plena glória do plano de salvação de Deus só é
completamente apreciada do ponto do desespero. Paulo agora
revela, embora de forma condensada, um sumário da justiça de
Deus, ou seja, sua atividade salvadora em favor de homens e
mulheres.
I –
A
Salvação pela Morte de Cristo (3.21-26).
O
fato de que a seção sobre a ira de Deus concernente à condição
humana ser muito mais longa (Rm 1.18—3.20) que sua apresentação
da justiça de Deus requer comentário. Deve ser mantido em
mente que esta é uma carta, não um tratado sistemático.
Ainda que Paulo esteja descrevendo a mensagem do evangelho em
forma um tanto quanto sistemática, ele nunca esquece que
entre sua audiência encontram-se judeus que poderiam fazer
objeções a esta apresentação. A crença de Paulo de que o
judeu pudesse reivindicar não ter vantagem especial sobre o
gentio em termos de pecado e julgamento tinha atraído oposição
anteriormente. Assim, ele persegue esta linha de argumento de
modo extenso em Romanos 2.1 a 3.8.
1.1
A
Justiça de Deus em Jesus.
Quando
Paulo passa a descrever a forma como a justiça de Deus foi
expressa em Jesus Cristo, ele apresenta um entendimento teológico
do significado da morte de Jesus que era compartilhado por
cristãos judeus e gentios igualmente. Em conseqüência
disso, este tópico requer menos atenção. De fato, a maneira
sucinta com a qual ele descreve o meio de salvação em
Romanos 3.21-26 sugere que ele está repetindo matéria que
era conhecida por estes crentes. É comumente suposto que
Paulo está utilizando expressões de credo da igreja
primitiva nos versículos 25 e 26a, e, talvez, também no versículo
24 (uma das razões para esta visão é o número de palavras
não-paulinas nesta seção). O leitor notará que o único
aspecto da salvação que Paulo irá enfatizar é o que diz
respeito à fé somente (Rm 3.27—4.25), visto que o assunto
era controverso.
1.2.
Declaração de Abertura.
A
declaração de abertura de Paulo (v. 21) — de que o modo de
salvação de Deus é “sem a lei” e também em concordância
com “o testemunho da Lei e dos Profetas” — indica sua
preocupação de que sua posição sobre a lei seja entendida
corretamente. Por um lado, a justiça não deve ser obtida
através do sistema definido pela lei ou mediante a pessoa ser
integrante do povo da lei. Por outro lado, as Escrituras do
Antigo Testamento testificam sobre a justiça de Deus e como
ela pode ser obtida. O tempo presente de “ter o
testemunho” denota que o testemunho das Escrituras continua
falando aos judeus e a todos os que derem ouvidos (cf. Rm 1.2;
3.2; 4.23,24), mesmo em nossos dias.
a)
O evento essencial da Justiça de Deus: A Crucificação
de Cristo.
Em
Romanos 1.17,18, a justiça de Deus e sua ira foram
apresentadas como duas atividades divinas simultâneas e contínuas
que são reveladas para o mundo. Aqui, quando Paulo abre o tópico
da justiça de Deus, ele especifica que “se manifestou”
(v. 21). Ele está se referindo não ao processo, mas ao
evento essencial que o inaugurou — a crucificação de
Cristo, “ao qual Deus propôs para propiciação” (v. 25).
ü
PROPICIAÇÃO:
A
tradução de hilasterion (“propiciação”)
continua sendo ponto de debate. A tradução da NVI
(“sacrifício para propiciação”) sugere que Cristo é
o meio da propiciação (veja Dunn, Morris, 1955-1956, pp.
33-43), ao passo que muitos comentaristas preferem “lugar
de expiação/propiciação” ou “lugar/assento de
misericórdia; propiciatório” (e.g., Fitzmyer;
Stuhlmacher; Gundry-VoIf, pp. 282-283) — que é o que
significa em sua única outra ocorrência no Novo Testamento
(Hb 9.5, “propiciatório”). É difícil escolher entre
estas opções. Black e Dunn insistem que estas duas opções
não devem ser consideradas mutuamente exclusivas.
Felizmente para nós, ainda que o verdadeiro referente de hilasterion
seja difícil determinar, a verdade teológica não é. Quer
hilasterion se refira ao propiciatório que tampa a
arca na qual o sangue da oferta do pecado pela nação era
aspergido anualmente no Dia da Expiação (Lv 16), quer se
refira ao sacrifício oferecido a Deus por propiciação, é
o sistema sacrifical judaico que está sendo lembrado. Está
claro, como a referência “no seu sangue” confirma (Rm
3.25b), que a morte sacrifical de Cristo está sendo
representada por esta imagem. Assim como o que era oferecido
no altar era sacrificado para pagar a punição de quem
tinha pecado, assim Cristo foi oferecido para suportar a
pena pelo pecado da humanidade.
ü
DOUTRINA
DA EXPIAÇÃO SUBSTITUTIVA: O
que a pouco foi dito é o que se chama de doutrina da expiação
substitutiva. Cristo foi morto como o substituto por todos
os homens e mulheres. Nosso pecado foi transferido para Ele;
sua vida, ou justiça, nos é dada (cf. Rm 8.3; 2 Co 5.21;
Gl 3.13). Este entendimento da morte de Cristo vigorava nos
dias da igreja primitiva. Paulo disse aos coríntios que a
tradição que ele recebera declarava “que Cristo morreu
por nossos pecados, segundo as Escrituras” (1 Co 15.3b).
ü
A FÉ NO SANGUE DE CRISTO:
O
sacrifício para propiciação é “pela fé no seu
sangue” (Rm 3.25). Embora não haja uma vírgula que
separa “pela fé” e “no seu sangue”, é melhor
entender estas frases separadamente. Como argumenta Käsemann,
“pela fé no seu sangue” não tem paralelo no Novo
Testamento, e nas cartas de Paulo o termo pistis (fé)
não é seguido pela preposição en (em). O que
Paulo está dizendo é que o “sacrifício para propiciação”
é apropriado pela fé e alcançado no seu sangue, quer
dizer, pela morte sacrifical de Cristo.
üEXPIAÇÃO
OU PROPICIAÇÃO? Debates
vigoram nos círculos teológicos acerca deste ponto: O
sacrifício para propiciação deve ser entendido como
“expiação” ou como “propiciação”. Expiação diz
respeito à remoção do pecado; propiciação, ao
apaziguamento de Deus ou à satisfação de sua ira. C. H.
Dodd mostra que o conceito de propiciação fora totalmente
perdido no uso da LXX do termo grego hilasterion e seu
cognatos, e que a noção de propiciação era mais um
conceito pagão que um ensino bíblico. O sacrifício de
Cristo, de acordo com Dodd, deve ser entendido como sacrifício
expiatório que tratou do pecado e da culpa humana.
O
argumento de Dodd tem enfrentado muita oposição. Um dos
seus críticos primários é L. Morris (1955, pp. 167-194),
que defende a visão mais tradicional de que hilasterion
envolve propiciação. Entre os vários argumentos que ele
apresenta, há um que é retirado do contexto precedente.
Depois de três capítulos sobre a ira de Deus, o termo
hilasterion tem de dar alguma indicação sobre como a ira
é desviada do crente.
Parece
inconcebível (levando em conta Rm 1.18—3.20) que a solução
apresentada por Paulo do pecado humano não trate desta
realidade. E certamente temos de entender que o sacrifício
de Cristo é suficiente para afastar a ira de Deus do
crente. Contudo, Gundry-Volf (pp. 281-282) arrazoa que não
se conclui necessariamente que devamos entender este
processo como a obtenção de uma mudança na disposição
de um Deus irado. É porque a mensagem repetida em Romanos 3
é que Deus, em sua misericórdia, tomou a iniciativa de
prover uma solução efetiva: “Deus o apresentou como
sacrifício para propiciação” (v. 25a, NVI; “ao qual
Deus propôs para propiciação”, RC; ênfase minha).
b)
A
atividade salvadora
A
idéia de que sua atividade salvadora é apresentada ou posta
em exibição pública representa significativa transição na
história de salvação. Os lugares da obra de salvação de
Deus ultrapassaram as velhas fronteiras da nação de Israel.
O seu método de tratar do pecado humano já não se limitava
ao Santíssimo Lugar do templo, onde só um homem podia entrar
uma vez por ano. Sua justiça moveu-se para fora, ao ar livre,
onde todos têm acesso; em cima de um monte, onde todos podem
ver; numa cruz, onde todo o mundo pode se ajoelhar ao seu pé.
Nesta
passagem, é traçada outra distinção entre a natureza do
sacrifício feita no templo e o sacrifício de Cristo. A morte
de Cristo alcançou o que todas as repetidas ofertas do
passado não fizeram: tratar do pecado de forma definitiva e
cabal. Paulo diz que Deus ignorou os pecados do passado (v.
25). Em outras palavras, Deus, “na sua tolerância” (NVI;
i.e., restrição; “sob a paciência”, RC), não exigiu a
pena pelos pecados cometidos. Enquanto que o primeiro
hilasterion era suficiente por um tempo, o pagamento total
pelo pecado foi feito na cruz.
Quando
Paulo chega ao fim deste tratamento condensado do significado
da morte de Cristo, ele afirma duas vezes que era “para
demonstrar a sua justiça” (vv. 25b,26a) que Deus apresentou
Cristo como sacrifício para propiciação. A palavra grega
dikaiosyne é traduzida aqui por “justiça”.
O
que Deus demonstrou a respeito de sua justiça? Ela trata do
passado e do presente, e de tal modo que é vista como justa
(v. 26b):
1)
É
mostrado que Deus é justo em suas ações para com as
pessoas do concerto no passado, porque Ele havia “deixado
impunes os pecados anteriormente cometidos” (v. 25, ARA).
Quer dizer, a oferta do sacrifício perfeito, Jesus Cristo,
era a medida apropriada para tratar definitivamente dessas
transgressões que tinham sido tratadas pelo sistema
sacrifical, mas que haviam, de algum modo, permanecidas
impunes.
2)
Mas
também é mostrado que Deus é justo em suas ações no
presente, pois o sacrifício para propiciação é a plena
provisão para o pecado de todo o mundo, e não só dos
judeus. Nosso foco neste ponto foi no motivo do hilasterion,
com seu plano de fundo no sacrifício que era feito no
templo. Há duas metáforas que Paulo usa aqui para explicar
o significado da morte de Cristo:
ü
Uma, retirada do tribunal de justiça, é a
linguagem da justificação ou absolvição (v. 24). Por
causa da cruz, o crente é declarado “inocente”.
ü
A
outra vem do mundo da escravidão. A libertação do
crente do cativeiro do pecado é transmitida com o termo
redenção (apolytrosis). Comum ao conceito de
redenção vigente no século I, estava a idéia de soltar
alguém da escravidão mediante pagamento de um preço ou
resgate (L. Morris, 1993, p. 785). No Antigo Testamento,
Deus é descrito como o Redentor do seu povo, aquEle que o
redime da escravidão, quer do Egito (e.g., Dt 7.8) quer
da Babilônia (e.g., Is 52.3). Em tais referências, o
aspecto da metáfora que nos é transmitida é a idéia de
libertação em vez de pagamento de um resgate. Isto também
ocorre no uso que Paulo faz do termo. Morris faz distinção
útil aqui: Não há nada no pensamento de Paulo acerca de
alguém a quem o pagamento possa ser feito. Mas isso não
significa que não havia custo — o custo foi a vida de
Cristo. Fé é o meio pelo qual todo indivíduo sem exceção
entra na salvação oferecida por Deus através de Jesus
Cristo. É porque o indivíduo não tem outro meio disponível.
O esforço humano é insuficiente, pois “todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus” (v. 23). A glória
de Deus tem figurado proeminentemente na carta até aqui,
como algo que é rejeitado por muitos (Rm 1.21) e buscado
por poucos (Rm 2.7,10). Romanos 3.23 revela que esta
busca, provindo da iniciativa humana, é vã.
O
que é esta glória que os seres humanos buscam, mas ficam aquém
dela? No Judaísmo do Segundo Templo, a glória tinha sido
associada com a justiça que o casal original conheceu no
jardim do Éden antes da queda (e.g., em Ap Mos 21.6, Adão
diz a Eva: “Tu me alienaste da glória de Deus”). Conseqüentemente,
os escritores apocalípticos descreviam a esperança dos
judeus fiéis em termos de restauração da glória (1 Enoque
50.1; 4 Esdras 7.122-125; 2 Baruque 51.1). Este é o plano de
fundo da “glória” em Romanos 3.23. A glória que as
pessoas careciam é o estado de relação certa com Deus que
caracterizava a experiência de Adão e Eva no jardim do Éden.
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